“Tempêstad”

Publicado em: 01/08/2013

por João Branco*, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

“Ess’ilha ê d’minha, pa Sícorax nha manhe, y bô rôbame el!”

“Essa ilha é minha, por Sicorax, minha mãe, e tu roubaste-ma!”

Shakespeare (Caliban Ato 1)

Arménio Vieira, provavelmente o maior poeta cabo-verdiano da atualidade, e Prêmio Camões em 2009, tem um estranho hábito que nas ilhas é sobejamente conhecido: escreve os seus poemas diretamente no seu celular, sentado numa esplanada do centro da cidade da Praia, capital de Cabo Verde, e envia-os para os amigos em forma de SMS. Talvez por eu ter encenado o mais conhecido dos seus romances, “No inferno”, ainda antes da sua consagração internacional, tenho sido um dos contemplados com as suas intrigantes e extraordinárias mensagens que sempre chegam de forma inesperada.

Por estar nestes dias completamente envolvido nas reuniões para discussão da nossa adaptação crioula da peça de William Shakespeare “A tempestade”, numa das minhas respostas enviei-lhe a seguinte mensagem: “E sobre ‘A tempestade’, o que tem o poeta a dizer?”. Passados uns breves minutos, veio a resposta: “Shakespeare teve a sorte de possuir, como ninguém, os três dons pelos quais se criam as grandes obras literárias: a acuidade cognitiva, a potência linguística e uma prodigiosa imaginação. Que eu saiba, apenas Joyce tentou emulá-lo. Pessoa poderia também fazê-lo, só que ele não era possesso de ninguém, apenas de si próprio. Abraço”.

Esta é, na verdade, a nossa terceira aventura crioula no universo de Shakespeare – depois das bem-sucedidas produções “Romeu e Julieta” (1998) e “Rei Lear” (2003) – e as palavras do Conde, como carinhosamente é tratado o poeta pelos amigos mais próximos, fazem todo o sentido.  O gênio revelado e tão estudado do mais famoso dramaturgo de todos os tempos vem, inevitavelmente, ao de cima quando à volta de uma extensa mesa o elenco de 15 atores e atrizes cabo-verdianos se juntam para discutir e concretizar a passagem do texto do português para a língua cabo-verdiana, ou como é tradicionalmente designado por cá, o nosso crioulo.

Temos três textos de base. O original inglês, que apenas alguns dominam de forma pouco acadêmica, e duas traduções em português. Fazemos sempre questão de sublinhar que esta nossa complexa empreitada vai muito além de uma simples tradução. O que nós fazemos, na verdade, é re-inventar um novo crioulo que ainda não existe. Sendo a língua cabo-verdiana possuidora de uma riqueza e dinâmica extraordinárias, constituída por variantes as mais diversas que se ouvem pelas várias ilhas do arquipélago, estamos perante um desafio que tem tanto de difícil quanto de apaixonante. Nenhum cabo-verdiano falará hoje como vão falar as nossas personagens na versão que irá estrear no próximo dia 11 de setembro, em pleno Festival Mindelact, em Cabo Verde. Mas as nossas gentes vão se identificar, certamente. Vão se emocionar. Rir e, quem sabe, até chorar. Sempre em crioulo. Um crioulo novo. Um crioulo shakespeariano. 

Ao processo, não chamamos de adaptação, vai mais longe. Não é uma tradução, vai mais fundo. É uma crioulização. E na sua materialização para a cena, torna-se uma crioulização cênica. Procurando manter o espírito da obra original, re-inventamos no processo dramatúrgico um novo enredo, que tem quase sempre a história das ilhas, a sua cultura, as suas particularidades, a sua idiossincrasia e as suas paisagens muito próprias e identificáveis.

A nossa história, melhor, a nossa estórea – pela força e pelo poder das tradições orais crioulas – já não se denomina “A tempestade”, mas simplesmente “Tempêstad”. E Próspero já não é o duque de Milão, mas antes um rico proprietário da ilha de Santiago de Cabo Verde, em pleno século 16. Alonso não é mais o rei de Nápoles, mas Governador de Ribeira Grande de Santiago, a primeira cidade fundada por europeus ao Sul do deserto do Saara, e primeira capital de Cabo Verde. A ilha para onde o destino carrega tão famoso náufrago deserdado e atraiçoado, junto com sua filha, Miranda, é a ilha que fica mais a Norte do arquipélago, a ilha das montanhas, que um dia – na atualidade, portanto – se chamará ilha de Santo Antão.

Uma ilha carregada de relatos sobre bruxas, de lendas e histórias extraordinárias, onde bizarros acontecimentos vagueiam com grande facilidade pela boca do povo. Uma ilha que tem hoje tal energia, paisagem tão arrebatadora, que pode muito bem ter sido um dia a ilha de Caliban, esse filho disforme da feiticeira Sícorax, banida de Argel pelos seus pares. Uma ilha que pode muito bem ter sido o pouso ideal para um espírito do vento, como é o multifacetado Ariel, na peça original de Shakespeare.

E por aqui vamos, ao sabor dos sons da língua crioula que se tornam ainda mais belos conduzidos pela poética arrebatadora de Shakespeare. Que belas que soam, senhores, as palavras do famoso bardo inglês ditas em crioulo! Esteja lá onde estiver, estamos certos que William Shakespeare se sentirá orgulhoso por saber que séculos depois da sua maior criação ter visto a luz do dia, num arquipélago perdido no meio do Atlântico, um grupo de loucos artistas resolveram moldar, com a mesma matéria de que é feito o barro e a argila destas ilhas, a mais bela peça de teatro de todos os tempos.

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