Teatro Experimental do Negro, o pioneiro a levar o negro para os palcos

Publicado em: 18/11/2013

O Teatro Experimental do Negro (TEN) foi fundado e dirigido por Abdias do Nascimento, em 1944, no Rio de Janeiro, tornando-se pioneiro em levar ao palco um elenco de atores negros e/ou mestiços, fazendo parte da formação do teatro moderno brasileiro, ao lado de grupos como o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), em São Paulo, e Os Comediantes, no Rio de Janeiro.


O objetivo do grupo é a valorização do negro com um trabalho de cidadania, propiciando a conscientização social, além da alfabetização, na medida em que o elenco era recrutado no universo operário, entre as empregadas domésticas, favelados sem profissão e alguns funcionários públicos. 


Duas cofundadoras do grupo: Arinda Serafim e Marina Gonçalves, ensaiando o papel da “velha nativa” em O imperador Jones (Foto: José Medeiros)

 

O início de seus trabalhos é uma colaboração com o Teatro do Estudante do Brasil (TEB), na peça “Palmares”, de Stella Leonardos. Porém, ao investir num espetáculo próprio depara-se com a dificuldade de encontrar algum texto brasileiro que correspondesse aos seus objetivos, ou seja, com personagens negros. Dessa forma, Abdias do Nascimento recorre a um texto de Eugene O’Neill, “O Imperador Jones”, que retrata a situação do negro após a abolição da escravatura. O espetáculo estreia, em 1945, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com boa recepção da crítica e elogios ao ator Aguinaldo Camargo. 


Diante da ausência de novos textos, novamente é encenado outra peça de Eugene O’Neill, “Todos os filhos de Deus têm asas”, com a participação da atriz Ruth de Souza, que passa ser integrante da companhia. 


Na tentativa de criar uma dramaturgia brasileira que servisse aos seus objetivos, o Teatro Experimental do Negro (TEN) recebe o texto “O filho pródigo”, de Lucio Cardoso, que chega à cena em 1947, com cenários de Tomás Santa Rosa, e protagonizado por Ruth de Souza e Aguinaldo Camargo. Nesse mesmo ano, atuam em “Terras do sem fim”, de Jorge Amado, adaptação de Graça Mello, com direção de Zigmunt Turkov, montagem em parceria com Os Comediantes. 


Em 1949, é encenado o primeiro texto escrito especialmente para o grupo: “Filhos de santo”, de José de Morais Pinho, com elementos da cultura religiosa negra e alguma crítica social. Em 1950, é a vez de “Aruanda”, de Joaquim Ribeiro, que conta a lenda do amor entre Rosa Mulata e o Deus Gangazuma. 


Apesar de ter uma ideologia de conscientização, o grupo não chega a ser um teatro popular nem populariza sua plateia, na medida em que se apresenta quase sempre no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Para ir além do seu lado artístico, Abdias do Nascimento promove um concurso de beleza para negras e um concurso de artes plásticas com o tema Cristo Negro. Em 1945, promove uma Convenção Nacional do Negro e, em 1950, o 1º Congresso do Negro Brasileiro. Em 1955, realiza a Semana do Negro. Edita o jornal Quilombo. 


A existência do Teatro Experimental do Negro (TEN) incentiva a criação de outras companhias negras, como o Teatro Popular Brasileiro, de Solano Trindade, no Rio de Janeiro, e em São Paulo, Geraldo Campos de Oliveira, que fizera parte do grupo fundador, cria outro Teatro Experimental do Negro, que se mantém em atividade durante mais de 15 anos. 


Mesmo com o empenho de seu diretor artístico e elenco, O Teatro Experimental do Negro (TEN) não chega a ter uma grande importância social junto à população negra, mas serviu, até o encerramento de suas atividades, em 1961, para a criação de uma dramaturgia negra e o surgimento de novos atores e grupos negros.

 

 

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Texto: Carlos Hee

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