SP Escola de Teatro lança o desafio: Criar uma peça de teatro pelo Twitter

Publicado em: 04/07/2010

As redes sociais da internet impõem desafios. Mensagens curtas, cifradas, mas de compreensão absoluta. O Twitter nos instiga a contar muito em pouco espaço. A gente vai se acostumando, e percebe que, muitas vezes, nem usa tudo o que está disposto. Só que, agora, vem uma turma de jovens agitadores da cultura paulista e nos propõe um desafio ainda maior. Contar uma história, com começo, meio e fim, em 140 caracteres.  Na verdade, uma peça teatral. Pelo Twitter mesmo.         
Acham impossível? Bem, vocês verão que não é. A ideia foi lançada pela SP Escola de Teatro,  uma escola de formação mas também uma usina (Zé Celso que me desculpe por usar uma imagem sua) de ideias, dirigida por Ivam Cabral. A partir de amanhã (dia 2), quem estiver a fim de participar deste concurso de minidramas, pode mandar seu texto  incluindo, no final, #MDRAMA (não é necessário letra maiúscula). O seja, não são nem 140 caracteres para o enredo. Mesmo assim, já vi coisas muito inventivas publicadas na imprensa. Meu ex-colega de JT,  Sergio Roveri, hoje um dramaturgo respeitado, atiçado por Ivam Cabral, escreveu algo lindo, poético, como um haicai. E já há gente mandando textos para o concurso, que ainda nem abriu. Os curiosos podem postar #mdrama, e depois clicar sobre esse endereço.  Ou pelo search do próprio Twitter. Surgirão os textos já enviados.          
Há muita coisa sem-graça, simplória. Haverá milhares delas. Mas a partir de amanhã começarão a aparecer as que valem a pena. Ivam Cabral diz que é um exercício de inteligência mesmo. E que o Twitter se presta muito à poesia e à ironia. Cabral  diz que o concurso foi inventado porque seu grupo sempre acreditou que o teatro tem de estar aberto a estas novas possibilidades e utilizar tudo o que o seu tempo oferece. Tem de incorporar. Como ele mesmo lembra, Ziembinsky  usou um microfone em cena, numa montagem de Vestido de Noiva dos anos 40. Foi uma revolução. Os criadores dos anos 80 usaram a tecnologia do vídeo em seus cenários e enredos. Cabe, a esta geração, usar a internet. Não empregar o Twitter apenas como meio de divulgação, mas de criação.
Ele tem razão. Treinar a síntese é um exercício que faz bem a todos. No livro Elogio da Síntese, Carlos Felipe Moisés escreve, talvez não com estas exatas palavras, que toda vez que a gente fizer a opção pela síntese, estaremos privilegiando o leitor. E Cabral garante que, com um texto de 140 caracteres, ou menos, um bom encenador consegue construir um espetáculo teatral de cerca de meia hora. Tudo isso? Cabral explica que o texto vale como um roteiro, que o diretor ampliará, com tempos de reflexão, movimentação pelo palco, música, ambientação. Como se fosse sinopse de um espetáculo de mímica. Ou dança, por que não?       
Cabral conta que uma experiência recente levou a Royal Shakespeare Company a reescrever Romeu e Julieta pelo Twitter. Mas aí não foi em 140 caracteres. Foi em capítulos de 140 caracteres. E levaram meses fazendo.         
Esses posts de minidramaturgia serão julgados por uma comissão formada pelo grupo de dramaturgia da SP Escola de Teatro, coordenado por Marici Salomão. Os cem melhores serão reunidos numa publicação, e serão encenados pelos alunos da escola, num festival no fim do ano. O objetivo é, segundo Cabral, fazer um teste que confirme a importância das redes sociais no teatro. É claro que a teoria será confirmada. Eu mesmo já estou curioso para ler os textos, e até tentado a participar. E ainda mais curioso em ver como essa dramaturgia sintética será encenada. 

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