Quem Tem Medo de Cris Negão?

Publicado em: 31/01/2013

Imagine você morrer e, depois, virar tema de documentário. Mas, no filme, todo mundo fala mal de você, com direito a tiradas do tipo: “Dela, só ouvi as piores histórias. Ela era diabólica. Tirava as coisas das pessoas. Roubo mesmo, sabe? Se alguém estivesse usando um brinco e ela gostasse dele, arrancava da orelha da criatura, sem dó”. Pois foi isso que aconteceu na noite de ontem (30), na Sede Roosevelt da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, durante a exibição do documentário “Quem tem Medo de Cris Negão?” (Brasil, 2012, 25 min.).

A sessão fez parte da programação da SP Transvisão – Semana da Visibilidade Trans, que acontece nesta semana, na Escola. Dirigido por René Guerra, o filme narra a história de Cristiane Jordan, ou Cris Negão, uma travesti e cafetina do Centro de São Paulo, conhecida por seus métodos violentos. Odiada e temida, também cultivava fãs. Foi assassinada tragicamente, em 6 de setembro de 2007, em frente ao bar Elenice, na esquina das ruas Rego Freitas com Major Sertório. A partir dessa história, o curta propõe um mergulho no submundo paulistano, reunindo depoimentos de quem conviveu com Cris Negão, como Phedra D. Córdoba, Divina Núbia, Thalia Bombinha, Greta Star e Roberta Gretchen.

Após a sessão, Ivam Cabral, diretor executivo da SP Escola de Teatro, chamou, à frente da plateia, a atriz e musa da Cia. de Teatro Os Satyros, Phedra D. Córdoba, as travestis Adriana Silva, da Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo, Flavia Carvalhaes e Maria Midori. A partir dos relatos das experiências delas sobre o convívio com Cris Negão, iniciou-se um debate, repleto de histórias um tanto violentas e (por que não dizer?) um tanto cômicas. “Certo dia, eu estava numa mesa, com minhas lentes de contato verdes, quando a Cris chegou e disparou: ‘Quem é essa neguinha de olhos verdes? É muito abusada’. Jogou a cabeça pra trás e riu. Eu, que estava gelada de medo dela, relaxei quando a vi gargalhar”, contou Maria Midori.

“Eu me lembro da Cris Negão antes de ela se tornar travesti. Era faxineira na boate Nostro Mondo, da qual eu era uma das grandes estrelas. Não gostava dela. Ela era grossa, sem cultura, não sabia nem falar direito. Não se fazia querida. Um dia, ela ficou louca da vida porque eu a mandei limpar meu camarim. Mas era essa a função dela, não?”, disparou Phedra D. Córdoba. “A Cris era diabólica. Graças a Deus nunca a vi pessoalmente”, confessou Flavia Carvalhaes.  

Divina Núbia, em cena do documentário “Quem Tem Medo de Cris Negão?” (Fotos: SP Escola de Teatro)
 


E diante de tantas declarações que revelam o caráter forte de Cris Negão, o público passou a fazer perguntas. Dentre elas, sobre o fato curioso de a cafetina ser tão famosa e, mesmo assim, nunca ter ido presa. “Querem saber por quê? Eu conto: pouca gente sabe, mas a Cris tinha uma irmã que era casada com um policial. Daí, ela tinha passe-livre pra fazer o que bem entendesse”, entregou Phedra.


Aos curiosos, o assassino de Cris Negão foi um garoto, aparentando 16 anos, que estava em uma bicicleta e disparou três tiros em seu rosto, fugindo em seguida – rezava a lenda que, por ter o corpo fechado, ela só morreria se fosse atingida na face. O criminoso nunca foi encontrado.

A SP TransVisão segue hoje (31), excepcionalmente às 21h, com a sessão da peça “Inferno na Paisagem Belga”, nova montagem da Cia. de Teatro Os Satyros, no Espaço dos Satyros Um. Sob a direção de Rodolfo García Vázquez, os atores Ivam Cabral, Robson Catalunha, Henrique Mello e Tiago Capela Zanotta mergulham na poesia dos franceses Paul Verlaine e Arthur Rimbaud para contar a relação amorosa vivida pelos dois poetas, na Europa do início do século 19. A peça busca relacionar o trabalho desses autores com a sensibilidade contemporânea e traz influências de bandas como The Doors, Joy Division e de artistas como Marina Abramovic. Depois da sessão, o público é convidado a debater com o elenco e a direção da montagem, com participação de Cássio Rodrigo, da Assessoria de Cultura para Gêneros e Etnias, da Secretaria da Cultura. A entrada é gratuita e todos estão convidados!

Sobre a SP TransVisão

Em uma iniciativa inédita, a SP Escola de Teatro sedia a SP TransVisão – Semana da Visibilidade Trans. O evento, que reúne debates, exposição, filme, teatro e performances,  é promovido pela própria Escola, em parceria com a Comissão da Diversidade Sexual e Combate à Homofobia da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção de São Paulo (OAB – SP); a Coordenação de Políticas para a Diversidade Sexual da Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania; a Assessoria de Gêneros e Etnias, da Secretaria da Cultura; a Associação Brasileira de Transgêneros (Abrat); a Associação Brasileira de Homens Trans (ABHT); a Companhia de Teatro Os Satyros; a Associação dos Artistas Amigos da Praça (Adaap), e o Governo de São Paulo.

 

O objetivo do encontro é abrir mais um espaço para o debate sobre a tolerância e a diversidade.

 

Serviço

Evento: SP TransVisão – Semana da Visibilidade Trans

Quando: De segunda (28) a sexta (1º), às 19h

Onde: SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco

Praça Roosevelt, 210 – Consolação

Tel. (11) 3775-8600

 

Peça: “Inferno na Paisagem Belga”

Hoje (31), às 21h

Onde: Espaço dos Satyros Um

Praça Roosevelt, 214 – Consolação

Tel.(11) 3258-6345

 

Toda programação do evento tem entrada gratuita.

Leia mais sobre a SP TransVisão:

Laerte Traz “Muriel Visível” Para a SP Escola de Teatro

SP TransVisão: O Assunto É Mercado de Trabalho

 

Texto: Majô Levenstein


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