Ponto | Zé Celso e as bananas profanas

Publicado em: 12/11/2013

A cidade de Araraquara, localizada no interior de São Paulo, nunca irá esquecer o mês de junho de 1995. Naquele mês, o consagrado diretor teatral José Celso Martinez Corrêa voltou à sua cidade natal com seu mais novo trabalho: “Mistérios gozosos”, adaptação de um poema de Oswald de Andrade, “O santeiro do mangue”.

 

Como não poderia deixar de ser, a montagem, ao melhor estilo Zé Celso, continha altas doses de ironia, crítica e muitas cenas polêmicas.

 

Tudo começou quando os artistas do Oficina foram pedir a Oswaldo Baldan, padre da paróquia São Bento, alguns objetos de culto para serem utilizados como cenografia. Assim, turíbulo, terços e imagens sacras foram emprestados ao grupo. 

 

O padre provavelmente não sabia que o próprio poema de Oswald já continha sérias críticas contra o cristianismo e tratava de temas “proibidos”, como prostituição. 

 

O resultado não poderia ter sido outro: a peça, que tinha no elenco nomes como Leona Cavalli, Pascoal da Conceição e Marcelo Drummond, causou espanto e chocou em níveis altíssimos, em cenas como as protagonizadas por Drummond, que interpretava o Jesus das Comidas. Ele descascava uma banana e, simulando um pênis ereto, dizia a outro que tomasse e comesse seu corpo. Para completar, a personagem de Pascoal abocanhava a fruta. Em outra cena, Leona simulava masturbação com a imagem de um santo.

 

Zé Celso comprou uma enorme briga contra a Igreja. Não tardou para que as consequências de sua ousadia chegassem. No dia 22 de setembro daquele mesmo ano, Zé Celso e seus atores foram intimados a prestar declarações. Eles estavam sendo processados pelo padre Oswaldo por “vilipendiar atos e objetos de culto religioso”. Ele solicitou que os artistas fossem enquadrados no artigo 208 do Código Penal, que trata de ofensas a cultos e objetos religiosos. A denúncia foi feita pelo promotor Nelson Barboza Filho.

 

No processo 985/95, a acusação alegava que, na montagem, “a cerimônia da consagração eucarística, ato máximo do culto católico e de outras religiões cristãs, foi encenada de modo completamente deturpado, sendo focalizada de maneira aviltante, debochada e chocante, contendo várias cenas libidinosas”.

 

Zé Celso, por sua vez, argumentou: “Respeito o rito de todas as religiões. O teatro também é uma religião. O que está havendo é uma visão unitária do mundo, uma interpretação que depõe contra a liberdade de culto”.

 

Após quase dois anos de briga judicial, em fevereiro de 1997, o juiz responsável pelo caso rejeitou a acusação e arquivou o processo. Como forma de celebrar a “vitória”, os atores deixaram o fórum em grande estilo: dançando e cantando em coro “Yes, nós temos bananas! / Banana pra dar e vender”. “É mais do que liberdade de expressão. Essa vitória deve ser transformada em materialização de sonhos dos artistas”, declarou Zé Celso na ocasião.

 

A novela, porém, não acabou por aí. O promotor decidiu levar o caso adiante, mesmo com o arquivamento do processo. Apenas cinco anos depois, os artistas do Oficina foram absolvidos de uma vez por todas. “Espero que a decisão do juiz sirva de exemplo contra a volta da censura, tudo em nome da liberdade artística”, disse o diretor. Acabava, assim, mais um polêmico episódio da saga de Zé Celso.

 

 

Texto: Felipe Del

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