Ponto | Teatro Épico

Publicado em: 08/11/2011

O Experimento do Módulo Amarelo do último semestre da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco se baseou no teatro épico e na narratividade, que também exerce influência sobre os estudos deste semestre. No entanto, você conhece os elementos do gênero? Já leu sobre sua origem e desenvolvimento? Para entender melhor essa influente escola teatral, vamos adentrar sua história.

 

Características do gênero podem ser encontradas logo nos primórdios do teatro, mas a conceituação desta linguagem cênica foi criada apenas no século XX, a partir do trabalho prático e teórico do poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Sua essência era composta por textos retratando conflitos e problemas sociais sob uma visão marxista, e pelo método do Distanciamento criado por Brecht.

 

Segundo suas ideias, “distanciar um acontecimento ou um caráter significa antes de tudo retirar do acontecimento ou do caráter aquilo que parece óbvio, o conhecido, o natural, e lançar sobre eles o espanto e a curiosidade”. Dessa maneira, com os artifícios da representação cênica explícitos, eram destacados os valores ideológicos das obras, desenvolvendo, consequentemente, o senso crítico do público. Brecht também se opunha ao teatro dramático, alegando que este levava o espectador a uma ilusão da realidade, prejudicando sua percepção crítica.

 

A narrativa dos espetáculos épicos utiliza técnicas particulares, como a comunicação direta entre ator e público, o emprego da música servindo de comentário da ação, a ruptura de tempo-espaço entre as cenas, a exposição do urdimento, das coxias e do aparato cenotécnico, o posicionamento do ator como um crítico das ações da personagem que interpreta e como um agente da história.

 

 

O Épico no Brasil

 

O primeiro texto de Brecht a estrear no Brasil foi “A Exceção e A Regra”, em 1956, na Escola de Arte Dramática – EAD. Já a primeira montagem profissional se deu com “A Alma Boa de Set-Suan”, pelo Teatro Maria Della Costa – TMDC, em 1958. Nos anos seguintes, o Teatro de Arena e o Teatro Nacional de Comédia (TNC) foram outras companhias a produzir espetáculos a partir de textos do alemão.

 

Nos anos 1960, José Celso Martinez Corrêa, fundador do Teatro Oficina, descreveu o gênero épico da seguinte maneira: “O teatro épico, tendo um caráter demonstrativo, usa muitos elementos visuais e não só literários, o que o torna mais comunicativo para o público moderno, acostumado ao cinema e à TV. O teatro épico é gostoso como um filme”.

 

Nos espetáculos “Arena Conta Zumbi” e “Arena Conta Tiradentes”, do Arena, Augusto Boal, renomado diretor, autor e teórico, viu seu “sistema coringa” ser colocado em prática. Nele, elementos brechtianos, como o distanciamento, a música como comentário, a troca de papéis entre atores, são adaptados para a realidade brasileira. 

 

Já na década de 70, o Pessoal do Cabaré retoma o teatro épico e o sistema coringa, mas desenvolvendo uma linguagem própria. No mesmo período, o Teatro do Ornitorrinco se aprofunda em Brecht, realizando montagens de espetáculos e recitais de poemas e canções baseadas no trabalho do alemão, que perduram até os anos 1980.

 

O dramaturgo Luís Alberto de Abreu é responsável, na década de 1990, por uma renovação dos conceitos e técnicas brechtianas no Brasil, realizando, junto com o diretor Ednaldo Freire e a Fraternal Companhia de Arte e Malas-Artes, uma série de comédias do próprio Abreu, que tinham como público original um circuito de trabalhadores e sindicatos.

 

 

Desse período em diante, o momento de ressurgimento de Brecht no País acontece junto com a retomada do trabalho em grupo. Em São Paulo, essa passagem é representadas por coletivos como Companhia do Latão, Folias D’Arte, Parlapatões, Teatro Ágora, Teatro da Vertigem, Fraternal Companhia de Arte e Malas-Artes, entre outros grupos, que tinham como referência o trabalho do autor.

 

No novo milênio, com o teatro buscando, cada vez mais , um sentido para o Homem, as montagens de textos de Brecht continuam. A Companhia do Latão monta “Santa Joana dos Matadouros” e “O Círculo de Giz Caucasiano”. Em 2008, Denise Fraga revisita o primeiro texto do dramaturgo encenado no Brasil, “A Alma Boa de Set-Suan”, desta vez com adaptação de Marco Antônio Braz.

 

Se a ideologia que existia por trás das obras de Brecht ainda existe nos dias de hoje, é difícil comprovar, mas uma coisa é certa: o teatro épico ainda é muito presente no cenário teatral, para alívio dos fãs de Brecht.

 

 

 
Texto: Felipe Del

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