Ponto | O coringa na manga de Augusto Boal

Publicado em: 25/11/2014

Augusto Pinto Boal (1931-2009) não se tornou uma das maiores referências do teatro brasileiro à toa. Diretor, dramaturgo e teórico, o artista participou de uma série de produções importantes sem abandonar a reflexão teórica acerca de seu ofício.

 

Grande líder do Teatro de Arena de São Paulo nos anos 1960, Boal foi criador do teatro do oprimido, método cujos exercícios e técnicas que propunha um diálogo entre teatro e ação social. 

 

Nos espetáculos “Arena conta Zumbi” e “Arena conta Tiradentes”, do Arena, o artista viu outra de suas invenções ser colocada em prática. Era o “sistema coringa”, em que elementos brechtianos, como o distanciamento, a música como comentário e a troca de papéis entre atores são adaptados para a realidade brasileira.

 

Augusto Boal

 

No coringa, os atores se revezavam em cena para dar o enfoque de todo o palco e da história sempre que preciso. Desaparecia a figura do ator principal e a relação entre ator e personagem. Assim, os atores iam à cena sob a perspectiva de narradores. A música também era presença certa nas produções do teatro épico de Boal, e auxiliava nas passagens de cena, conferindo tons poéticos aos textos.

 

“Arena conta Zumbi”, de 1965, revivia a história da luta por sobrevivência do Quilombo dos Palmares contra o domínio português, explorando a figura mítica de Zumbi, o último dos líderes do quilombo. A montagem abrigou a primeira experiência com o Coringa.

 

Curiosamente, os atores eram predominantemente brancos. No entanto, como diziam Guarnieri e Boal – “Os atores têm mil caras / fazem tudo nesse conto / desde preto até branco / direitinho ponto por ponto.” –, mais importante que as características físicas dos intérpretes era o valor simbólico dos personagens retratados e da trama.

 

O sistema foi aprofundado em “Arena conta Tiradentes”, de 1967, quando também foi apurado teoricamente por Boal. Nesta altura, o autor acreditava que o coringa já poderia ser aplicado a qualquer texto teatral – argumento que seria contrariado pelo crítico e teórico Anatol Rosenfeld.

 

Depois, voltaria a ser empregado por Boal em “A lua muito pequena e a caminhada perigosa” (1968) e em “Arena conta Bolivar” (1970). A partir dos anos 1970, uma série de grupos brasileiros, como o Pessoal do Cabaré, e latino-americanos trabalham com os pressupostos do sistema.

 

A invenção de Boal reflete as dificuldades encontradas pelos artistas que resistiam à Ditadura Militar instaurada em 1964. Havia pouco público, condições precárias de espaço e uma produção crítica era restrita a poucos grupos e artistas. Além de ir de encontro a uma desejada narrativa épica e dialética, o sistema coringa propiciava uma real economia com os gastos da produção teatral.

 

Reside aí um dos grandes méritos da trajetória artística de Boal: as notáveis soluções propostas por ele entraram para a história do teatro brasileiro como símbolo de um teatro aguerrido e contestador, que superava adversidades para criar e popularizar a arte.

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