Ponto | O Conceito Vanguardista da Peça “Vestido de Noiva”

Publicado em: 17/05/2011

A falta de dinheiro pode desencadear momentos de rara criatividade. E foi durante uma crise financeira que o teatro ganhou Nelson Rodrigues. Vislumbrando nas artes cênicas a oportunidade de melhorar de vida, o então jornalista escreveu, em 1941, sua primeira peça, “A Mulher sem Pecado”. 

 

De acordo com sua biografia, “O Anjo Pornográfico”, escrita por Ruy Castro, “A Mulher Sem Pecado” não ajudou o escritor a se livrar de seus problemas financeiros, porém contribuiu para que o autor conhecesse sua própria capacidade dramática. Em sua estreia a peça já rendeu debates. A plateia fez comentários diversos, intitularam-na de mórbida, inverossímil, monótona e a crítica da época conseguiu ser ainda mais ferrenha, declarando que a composição era de má qualidade. 

 

O próprio Nelson compreendeu exatamente porque era alvo de tantas rejeições: “Os críticos achavam minha linguagem pobre. O que eles queriam era a eloquência, a subliteratura, enquanto eu partia para a palavra viva, ainda, suada de vida, suada de rua, suada de cotidiano, suada de paixão. Se não tenho outras virtudes, tenho esta e a reivindico para mim: a de ter um diálogo extremamente teatral”. O sucesso, porém, viria dois anos depois, com “Vestido de Noiva”.

 

Com caráter psicológico, a peça foi encenada pela primeira vez em 1943. O diretor Zbigniew Ziembinski foi o responsável pela montagem, que é considerada por diversos historiadores como marco do teatro brasileiro moderno. Até então, as peças se davam de forma igual: o protagonista no centro do palco iluminado com luz ambiente. Nessa montagem, o artista polonês ressignificou o espaço, realizando três cenas simultâneas. Além disso, 132 efeitos de luz davam a impressão de que atores e objetos “flutuavam”, como observou o autor da peça.  

 

O texto trabalha em três planos intercalados: o da alucinação, o da realidade e o da memória. Na peça, a protagonista Alaíde é atropelada por um automóvel, vai para o hospital e, durante a operação, relembra a situação nada amigável que vivia com sua irmã Lúcia, de quem tomou o namorado Pedro. Em meio a essa lembrança, Alaíde começa a imaginar seu encontro com Madame Clessi, uma cafetina assassinada pelo namorado.

 

Segundo o diretor e dramaturgo Rodolfo García Vázquez, um dos fundadores da Companhia de Teatro Os Satyros, ao lado de Ivam Cabral, naquele período histórico – década de 1940 – não se podia pensar o teatro como uma alucinação. É por este fato que o autor teve de dividir os planos muito claramente. Em 2008, Vázquez dirigiu sua versão de “Vestido de Noiva”, encenada no Itaú Cultural, em São Paulo, declarando ter sido um dos textos mais difíceis que já montou, devido às “quebras” constantes de narrativa durante a peça.

 

Ruy Castro conta ainda que “Vestido de Noiva” trouxe toda a glorificação esperada por um escritor. Conquistou a plateia e o público em geral, mas após esta peça, o autor conheceu o peso de ser um gênio incompreendido, como afirmaria anos mais tarde: “Com ‘Vestido de Noiva’ conheci o sucesso; com as peças seguintes, perdi-o, e para sempre”.

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