Ponto | José Renato e o Teatro de Arena

Publicado em: 10/05/2011

Recentemente, o teatro brasileiro perdeu um de seus maiores expoentes: José Renato Pécora. Falecido aos 85 anos, o diretor foi um dos idealizadores do Teatro de Arena, grupo teatral de grande destaque nas décadas de 50 e 60.

 

A ideia de se criar um teatro brasileiro em forma de arena surgiu em 1951, no 1º Congresso Brasileiro de Teatro, em uma conversa entre o crítico Décio de Almeida Prado, professor da Escola de Arte Dramática (EAD), e seus alunos Geraldo Mateus e José Renato.

 

O início efetivo das atividades do grupo, porém, data de 1953, com a estreia de “Esta Noite É Nossa”, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, que precede um repertório de espetáculos realizados meses depois, com a direção de José Renato e Sergio Britto, encenados em salões, clubes e fábricas. Somente no final do ano, é inaugurada a sede do Teatro de Arena, na Rua Teodoro Baima, centro de São Paulo.

 

Deste período até 1956, o grupo procura compor um repertório com estética própria por meio da experimentação de diversos gêneros teatrais. A partir da fusão com o Teatro Paulista dos Estudantes (TPE) e da contratação de Augusto Boal para ministrar aulas sobre Stanislavski, o Arena verticaliza sua pesquisa.

 

Com dificuldades financeiras e conflito ideológico, o grupo é salvo em 1958, pelo sucesso de “Eles Não Usam Black-Tie”, de Gianfrancesco Guarnieri, também dirigido por José Renato. A montagem é considerada um divisor de águas para o Teatro de Arena e para o teatro brasileiro. Com cunho político, a peça narra uma greve operária, mostrando os problemas socioeconômicos de moradores de uma favela.

 

José Renato parte para a França para um estágio no Théâtre National Populair, e, quando retorna, no final de 1959, passa a imprimir uma ideia de popular aos clássicos da dramaturgia. Essa fase de nacionalização dos clássicos foi bastante influenciada por Bertolt Brecht. “Os Fuzis da Senhora Carrar”, de Brecht, sob a direção de José Renato, e “A Mandrágora”, de Maquiavel, dirigida por Boal, se destacam entre as obras de 1962. Nesse ano, contudo, José Renato se desliga do grupo e vai para o Rio de Janeiro, onde passa a dirigir o Teatro Nacional de Comédia (TNC). 

 

Em 1964, com a instauração da ditadura militar no País, era necessário criar algo inovador, que fosse capaz de retratar a situação e iludir a censura. Então, em 1965, Boal e Guarnieri escrevem “Arena Conta Zumbi”, estreando o chamado “sistema coringa”, modelo criado para permitir a montagem de peças com elenco reduzido, nas quais os atores representavam várias personagens cada um, alternando-as entre si. O modelo é baseado em uma proposta épica e crítica, que pode ser constatada no tema da obra, que remete aos tempos da colonização e narra a resistência dos quilombos.

 

Com excelente recepção de público e crítica, a peça foi apresentada durante dois anos. O espetáculo foi sucedido por outro dos mesmos autores: “Arena Conta Tiradentes”, que abordava a Inconfidência Mineira. 

 

Entretanto, com o decreto do AI-5 e conseqüente acirramento da opinião exercida pela ditadura, a situação do Arena é agravada, o que é refletido no número e na qualidade de espetáculos lançados pelo grupo. A última produção de considerável sucesso é “Teatro de Jornal”, onde o elenco, a partir da leitura de jornais, improvisa notícias e discute o problema sob vários pontos de vista.

 

Essa situação se estende até 1972, quando o Teatro de Arena fecha as portas. Em 1977, contudo, a sala é comprada pelo Serviço Nacional de Teatro (SNT), e volta sob o nome de Teatro Experimental Eugênio Kusnet. O espaço, que abriga até hoje elencos de pesquisa de linguagem teatral e mantém viva a memória do Arena, reconhecido como um projeto inovador e que tirou a hegemonia da atividade dramática do Teatro Brasileiro de Comédia, tornando-se a “casa do autor brasileiro”, conforme diz o crítico teatral Sábato Magaldi.

 

O próprio José Renato retornou ao teatro que havia fundado décadas atrás, em 2008, dirigindo a peça “Chapetuba F.C.”, de Oduvaldo Vianna Filho. O espetáculo marca a reinauguração do Arena após uma grande reforma realizada pela Fundação Nacional de Artes (Funarte), atual administradora do espaço. 

 

Depois de mais de 50 anos sem atuar, José Renato integrou, de 2010 até o último dia de sua vida, o elenco de “12 Homens e Uma Sentença”. 

 

O ator e diretor Oswaldo Mendes se emocionou ao lembrar que, em sua última apresentação, José Renato parecia pressentir o que estava por vir, pois cometeu um ato falho ao dizer seu texto. Em vez de dizer “o velho queria ganhar um pouco de atenção”, disse “o velho queria ganhar um pouco mais de tempo”.

 

Por pura ironia do destino, o tempo não realizou este desejo, que não era somente dele, mas sim uma vontade de todos que o admiravam. Na madrugada do dia 2 de maio, fecharam-se as cortinas para este homem que, mais do que colaborar com o teatro brasileiro, se tornou indispensável para ele.

 

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