Ponto | Dzi Croquettes, entre plumas e paetês

Publicado em: 06/08/2013

Ao olhar o petisco que tinham à mesa do bar em que estavam, tiveram a ideia de batizar com o nome da guloseima o grupo de teatro musical que estavam formando, o Dzi Croquettes. A trupe surgiu na década de 1970, em pleno regime militar, com a proposta de reunir 13 homens atuando e cantando, ora trajando vestidos, ora apenas enormes asas de borboletas, sempre com muita maquiagem e brilho, tinham algo de andrógino. Uniam textos cômicos a números de dança, combinando linguagem de cabaré com samba e bossa nova. O dançarino americano Lennie Dale, então recém-saído da Broadway, encontrou no grupo seu paraíso e acrescentou profissionalismo aos corpos talentosos.

Os Dzi Croquettes lotaram cabarés e teatros cariocas em uma época de repressão. Tiveram até as primeiras tietes brasileiras. Aliás, o termo foi criado por eles, designando as garotas que não perdiam uma apresentação sua. As mais fiéis chegaram a formar um grupo secundário: As frenéticas, de sucessos como “Perigosa” e “Dancing days”.

No documentário “Dzi Croquettes” (2009), de Tatiana Issa e Raphael Alvarez, o músico Gilberto Gil chega a afirmar que o grupo talvez tenha sido “a primeira manifestação do movimento gay brasileiro, ao mesmo tempo com discurso político”. As bandeiras ali eram da inovação, revolução de comportamento, libertação sexual.

Não demorou para que surgissem problemas com a censura do governo militar. A comunidade Dzi, que vivia na mesma casa, embarcou para a Europa, sem produtor ou agenda. Em Paris, o grupo virou coqueluche. “No dia em que eu morrer, quero que o espetáculo que substitua o meu seja o do Dzi Croquettes”, elogiou Josephine Baker. Ninguém esperava que a vedete morresse mesmo e que sua vontade fosse cumprida. Assim, ela tirou os artistas da penúria. De volta ao Brasil, acabaram se desfazendo, apenas três anos depois de sacudir do Rio a Paris.

No Teatro Glauce Rocha, no Rio de Janeiro, ficou em cartaz, de 29 de junho a 28 de julho deste ano, o musical Dzi Croquettes em “Bandália”, numa reedição da trupe. O espetáculo, com texto e direção de Ciro Barcelos, um dos Dzi da formação original, reúne novos integrantes, com a proposta da retomada da linguagem cênica irreverente e libertária que marcou a trajetória do turma, nos anos 70.

Na história, inspirados no documentário de Tatiana Issa e Raphael Alvarez, jovens atores se reúnem decididos a viver uma experiência teatral baseada na filosofia do grupo. Para isso, se juntam a um remanescente da formação original, que assume a direção e com o qual se lançam na aventura de viver em comunidade numa garagem abandonada. Adaptada para realizar suas performances, a garagem é espaço onde tudo pode acontecer, desde teatro até um cabaré clandestino.

No palco, coreografias de jazz, bossa nova, samba, flamenco, bolero, tango, le parkour e wacking, construindo uma versão pop do Teatro Musical Brasileiro, também sustentado por uma trilha de sonoridade eletrônica. Em cena, três Dzi Croquettes originais: Ciro Barcelos, que juntamente com sua filha Radha Barcelos na assistência de direção e roteiro, assina a autoria, coreografia, direção geral e ainda atua. O veterano e premiado Claudio Tovar, que responde pelo figurino. E Bayard Tonelli, em participação especial.


Texto: Esther Chaya Levenstein

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