Ponto | Dia do Artista de Teatro

Publicado em: 19/08/2014

Hoje, dia 19 de agosto, celebra-se, no Brasil, o Dia do Artista de Teatro.

 

Além de ser uma data pouco conhecida, poucos sabem a razão pela qual este dia foi dia escolhido para a homenagem: o aniversário de morte de Federico García Lorca (1898-1936), poeta e dramaturgo espanhol reconhecido como um dos mais importantes autores teatrais da história.

 

Nascido em 5 de junho de 1898, Lorca publicou uma série de livros de poesia e assinou peças como “A casa de Bernarda Alba”, “Bodas de sangue” e “Yerma”. No entanto, sua importância para a arte não se restringe a suas belas e potentes criações teatrais e literárias: ele foi uma das primeiras (se não a primeira) vítimas da sangrenta Guerra Civil Espanhola, por conta das posições republicanas que tomava frente ao fascismo franquista.

 

 

O artista tinha 38 anos quando foi fuzilado pelos homens do ditador Francisco Franco, perto de Granada. Pouco antes, ele havia sido preso por ordem de um deputado católico, sob acusação de ser “mais perigoso com a caneta do que outros com o revólver”. Afinal, as ideias do “Generalíssimo” e seus seguidores poderiam ser sintetizadas pelo grito proferido pelo General Millan Astray, um dos generais do ditador, na Universidade de Salamanca: “Abaixo a inteligência! Viva a Morte!”.

 

A execução ganhou repercussão mundial e deu início efetivamente à Guerra. O corpo de Lorca nunca foi encontrado, mas sua voz permanece viva e potente até hoje, representando a luta dos artistas por um mundo mais justo e humano.

 

Em homenagem à memória do gênio espanhol e à causa dos artistas de todo o mundo, segue, abaixo, um depoimento do próprio Lorca, retirado da peça “Pequeno poema infinito”, criada com roteiro de José Mauro Brant e Antonio Gilberto a partir de pensamentos, declarações e obras do próprio artista:

 

 

“O teatro foi sempre a minha vocação. Dei ao teatro muitas horas da minha vida. Tenho um conceito de teatro de certa forma pessoal e resistente. O teatro é a poesia que se levanta do livro e que se faz humana. E ao fazer isso, fala e grita, chora e se desespera. O teatro necessita que os personagens que aparecem em cena levem um traje de poesia e ao mesmo tempo é preciso que se vejam seus ossos, o sangue. Hão de ser tão humanos, tão horrorosamente trágicos e ligados à vida e ao dia com uma tal força, que lhes mostrem as traições, que se lhes apreciem os cheiros e que lhes saiam dos lábios toda a valentia de suas palavras cheias de amor ou de asco. O que não pode continuar é o que hoje sobe aos palcos levados pela mão dos seus autores. São personagens ocos, totalmente vazios, a quem só se pode ver através do colete um relógio parado, um osso falso ou um cocô de gato, desses que se encontram por aí. Hoje, na Espanha, a maioria dos autores e dos atores ocupam uma zona apenas intermediária. Escreve-se no teatro para os camarotes e não para o poleiro. Escrever para a plateia principal é a coisa mais triste do mundo. 

 

O público que vai assistir fica frustrado. E o público virgem, o público ingênuo, que é o povo, não compreende por que se fala no teatro de problemas desprezados por ele nos pátios da sua vizinhança. Em parte os atores têm culpa. Não é que sejam más pessoas, mas … “Ouça, Fulano, quero que você me faça uma comédia em que eu faça… eu mesmo. Sim, sim: eu quero fazer isso e aquilo. Quero estrear uma roupa de primavera. Adoraria ter vinte e três anos. Não se esqueça.” E, assim, não se pode fazer teatro. Assim, o que se faz é perpetuar uma dama jovem através dos tempos e um galã apesar da arteriosclerose. (…) 

 

O teatro é um dos mais expressivos e úteis instrumentos para a edificação de um país e o barômetro que marca sua grandeza ou a sua decadência. Um teatro sensível e bem-orientado (…) pode mudar em poucos anos a sensibilidade do povo; e um teatro destroçado, no qual as patas substituem as asas, pode embrutecer e adormecer uma nação inteira. 

 

O teatro é uma escola de pranto e riso e uma tribuna livre onde os homens podem colocar, em evidência, morais velhas ou equivocadas e explicar com exemplos vivos normas eternas do coração e do sentimento do homem. 

 

Um povo que não ajuda e não fomenta o seu teatro, se não está morto está moribundo; como o teatro que não colhe a pulsação social, a pulsação histórica, o drama de suas gentes e a cor genuína de sua paisagem e de seu espírito, com riso ou com lágrimas, não tem o direito de chamar-se teatro. Não me refiro a ninguém nem quero machucar ninguém; não falo da realidade viva, mas sim do problema levantado sem solução. 

 

Escuto todos os dias, queridos amigos, falar da crise do teatro e sempre penso que o mal não está diante dos nossos olhos, mas sim no mais escuro de sua essência: não é um mal de flor atual, ou seja, de obra, mas sim de profunda raiz, que é em suma, um mal de organização. (…) 

 

O teatro deve se impor ao público e não o público ao teatro. Para isso, autores e atores devem revestir-se, a custa de sangue, de grande autoridade, porque um público de teatro é como as crianças nas escolas; adora o professor sério e austero que exige e faz justiça e enche de agulhas cruéis as cadeiras em que se sentam os professores tímidos e aduladores que não ensinam nem deixam ensinar. 

 

Há necessidade de fazer isso para o bem do teatro. Há que manter atitudes dignas. O contrário seria matar as fantasias, a imaginação e a graça do teatro, que é sempre, sempre uma arte. Arte acima de tudo. Arte nobilíssima. E vocês, queridos atores, artistas acima de tudo. Artistas dos pés à cabeça, já que por amor e vocação subiram ao mundo fingido e doloroso do palco. Artistas por ocupação e preocupação, desde o teatro mais modesto ao mais importante se deve escrever a palavra “Arte” em salas e camarins, porque senão vamos ter que pôr a palavra “Comércio” ou alguma outra que não me atrevo a dizer. E trabalho, disciplina, sacrifício e amor. 

 

Não quero dar-lhes uma lição porque me encontro em condição de recebê-la. Minhas palavras são ditadas pelo entusiasmo e pela segurança. Não sou um iludido. Pensei muito e com frieza, o que penso, e, como bom andaluz, possuo o segredo da frieza porque tenho sangue antigo. Sei que não possui a verdade aquele que diz “hoje, hoje, hoje”, com os olhos postos nas pequenas goelas da bilheteria, mas sim o que serenamente olha lá longe a primeira luz na alvorada do campo e diz “amanhã, amanhã, amanhã” e sente chegar a nova vida que se derrama sobre o mundo. 

 

(…) Sabe outra coisa? Na arte não se deve nunca ficar quieto nem satisfeito. Há que ter a coragem de quebrar a cabeça contra as coisas e a vida… A cabeçada… depois a gente vê o que acontece… Já veremos onde está o caminho . Uma coisa que também é primordial é respeitar os próprios instintos. O dia em que se deixa de lutar contra seus instintos, esse dia em que se deixa de lutar contra seus instintos, nesse dia aprendemos a viver.”

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