Ponto | Destinos de Maria Zélia

Publicado em: 24/07/2012

No início do século 19, o empresário carioca Jorge Street idealizou a primeira vila operária do Brasil. Batizado com o nome de sua filha, Maria Zélia, o local, situado no bairro do Belenzinho, zona leste de São Paulo, sobrevive impregnado de história e de arte.
 
A Vila Maria Zélia tinha um estrutura completa: casas, creches, armazém, salão de baile, capela, colégio, fábrica de tecido e… até um teatro. Tudo para receber operários italianos, espanhóis e portugueses. 
 
No entanto, o tempo passou e a vila não prosperou. Em 1931, a fábrica contraiu muitas dívidas e foi desativada. Antes, a vila já havia sido vendida para a família Escarpa e, logo após, para o Grupo Guinle. 
 
Com a tentativa de golpe contra o governo de Getúlio Vargas, chamada Revolta Vermelha, em 1935, as instalações da fábrica foram transformadas em presídio político. Durante quase dois anos, o local prendeu suspeitos e inimigos do Estado Novo.
 
Um deles foi o escritor, historiador e cineasta Paulo Emilio Salles Gomes. Enquanto estava detido, o militante escreveu “Destinos”. A peça reflete o passado histórico e político do Brasil, época agitada por protestos, greves, perseguição policial e tortura.
 
Em 1939, a fábrica foi comprada e, no início da década de 1990, a vila foi tombada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat). 
 
Inspirado no texto de Paulo Emilio, o Grupo XIX de Teatro realizou, em 2004, uma oficina com atores de outras companhias para dialogar com o tempo e o espaço da vila. Fruto dessa pesquisa, em 2009, foi encenado “Destinos”, que utilizou a própria vila como cenário para o espetáculo. A peça, com direção de Luiz Fernando Marques, tinha palco na antiga escola de meninas. No enredo, os filhos de fazendeiros Carlos e Álvaro estão vivendo um período de transformações políticas. O primeiro deseja lutar ao lado do povo, mas, o segundo, gastar as fortunas do pai com diversão.
 
Hoje, o Grupo XIX mantém sua sede nas antigas ocupações do armazém da Vila. Foi ali, inclusive que o grupo encenou as peças “Hysteria” (2001), “Hygiene” (2005) e “Arrufos” (2008). A segunda também foi desenvolvida a partir de uma pesquisa na Vila Maria Zélia e traz uma reflexão sobre os imigrantes, operários, comerciantes e o povo do Rio de Janeiro, no final do século XIX. 
  
Atualmente, o local, que também já foi palco de filmes do cineasta Amácio Mazzaropi, sofre com o abandono e aguarda restauração de seu patrimônio e de sua arquitetura. A Sociedade Amigos da Vila Maria Zélia tem um site no qual costuma publicar suas reivindicações e movimentos para a preservação do lugar. Clique aqui para conhecê-lo. 
 
 
Texto: Leandro Nunes
 

 

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