Ponto | Dálias em Cena

Publicado em: 19/10/2010

Você sabia que a dália, flor originária do México, onde é muito popular, também está relacionada ao teatro?

 

No período asteca, os índios mexicanos já cultivavam as dálias, flores encorpadas de variadas formas e cores. Por volta do final do século XVIII, durante uma visita ao México, o diretor do Jardim Botânico de Madri, encantou-se com essas flores e levou essa espécie até a Europa, a flor se adaptou muito bem ao clima temperado.

 

O botânico sueco A. Dahl, que inspirou o nome dália, foi o responsável pela expansão dessas flores pela região nórdica européia, mas foi a imigração holandesa que contribuiu muito para a propagação desta flor no Brasil. Na sequência, unindo o útil ao agradável, as dálias foram enfeitar os cantos da cena de muitos espetáculos e programas de televisão.

 

Inspirada nos teatros gregos, inicialmente a televisão era ao vivo e havia pessoas contratadas para soprar o texto caso o ator se esquecesse da sua fala ou entrada. Porém, para se soprar um texto na televisão, era preciso ser discreto ao máximo, afinal, se o público ouvisse os sussurros desses ajudantes, a situação poderia ser vergonhosa.

 

O ator Ambrósio Fregolente, ao atuar em um programa de teatro ao vivo, na antiga rede Tupi de Televisão, no Rio de Janeiro, reconheceu sua dificuldade em decorar os textos e, para evitar constrangimento, pendurou suas falas num vaso de dálias instalado bem próximo da cena.

 

Como as folhas de papel e as flores não faziam parte do espetáculo, o contrarregra, desavisado, tirou tudo dali, inclusive o vaso, deixando o ator completamente desesperado com o programa em andamento e sem poder continuar a encenação. Fregolente grita:

 

— “Onde estão as minhas dálias?”

 

Desde então, o vaso de dálias é usado em espetáculos teatrais e nos programas de televisão, onde, escondidas atrás das flores, ficam camuflados “as colinhas” dos atores.

 

Assim, mesmo sem estar escondido entre vasos e flores, esses pedaços de papéis ou de cartolina, que ainda socorrem os atores em cena, receberam o nome de dália e, até na era dos pontos eletrônicos, não foram totalmente aposentadas.

 

Quem era Fregolente, o Inventor da dália?

 

Ambrósio Fregolente foi um ator brasileiro, nascido em São Paulo, Capital, no dia 15 de outubro de 1912 e falecido em março de 1979.

 

Começou sua carreira de ator aos 33 anos. Foi um dos artistas que mais encenou os personagens de Nelson Rodrigues no teatro e no cinema. Quando formou-se em medicina, no ano de 1964, aos 52 anos de idade, telefonou para seu amigo Nelson Rodrigues para contar a novidade. Esse episódio foi depois contado pelo escritor em uma crônica publicada em 1966.

 

Ao morrer, Fregolente já contabilizava uma herança que poucos atores brasileiros conseguiram: a participação em mais de cem filmes e peças de teatro. O auge de sua carreira foi nas décadas de 1950, com as chanchadas da Atlântida Cinematográfica e, de 1960, com filmes dos mais diferentes gêneros como “O Homem do Sputnik”; “Cala a Boca, Etelvina”; “Cidade Ameaçada”; “Assalto ao Trem Pagador”; “Bonitinha, mas Ordinária”; “Crônica da Cidade Amada”; “O Beijo”, “O Mundo Alegre de Helô”; “O Homem que Comprou o Mundo”; “A Penúltima Donzela” e “Os Paqueras”.

 

Também era pintor e músico. Na TV, atuou em “Dona Xepa”, “Sinhazinha Flô” e “Dancin’ Days”, onde interpretou o personagem Veiga. Na década de 1970, se destacou nos filmes “Sedução”; “O Ibrahim do Subúrbio”; “O Casamento”; “Anchieta, José do Brasil” e “Gargalhada Final”.

 

Foto: Simone Ezaki

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