Ponto | Da Lei Áurea aos palcos

Publicado em: 13/05/2014

Há exatos 126 anos, no dia 13 de maio de 1888, a Lei Áurea era sancionada pela princesa Isabel de Bragança, extinguindo (ao menos, oficialmente) a escravidão negra no Brasil.

 

No teatro, entretanto, levou tempo para que o negro ganhasse espaço. O ingresso só aconteceu décadas depois, graças ao Teatro Experimental do Negro (TEN). Fundado e dirigido por Abdias do Nascimento, em 1944, no Rio de Janeiro, o TEN foi o primeiro a levar ao palco um elenco de atores negros e/ou mestiços, fazendo parte da formação do teatro moderno brasileiro, ao lado de grupos importantes como o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), em São Paulo, e Os Comediantes, no Rio de Janeiro.

 

Valorizar o negro com um trabalho de cidadania era o grande objetivo do grupo, que mirava a conscientização social e a alfabetização de seus integrantes. Os atores eram todos vindos de um universo pobre: empregadas domésticas, favelados sem profissão e alguns funcionários públicos.

 

 

Cena de “O Imperador Jones”

 

O trabalho inaugural do grupo se deu em uma colaboração com o Teatro do Estudante do Brasil (TEB), na peça “Palmares”, de Stella Leonardos. Depois disso, no entanto, o TEN se deparou com a diculdade de encontrar algum texto nacional que fosse de encontro à sua proposta. Como solução, Abdias do Nascimento recorreu a um texto de Eugene O’Neill, “O Imperador Jones”, que retratava a situação do negro após a abolição da escravatura. O espetáculo estreou, em 1945, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com boa recepção da crítica e elogios ao ator Aguinaldo Camargo. 

 

Diante da ausência de novos textos, foi encenada outra peça de Eugene O’Neill, “Todos os filhos de Deus têm asas”, com a participação da atriz Ruth de Souza, que passou a ser integrante da companhia. 

 

Na tentativa de criar uma dramaturgia brasileira que servisse aos seus objetivos, o Teatro Experimental do Negro (TEN) recebeu de Lucio Cardoso o texto “O filho pródigo”, que chegou à cena em 1947, com cenários de Tomás Santa Rosa e protagonizado por Ruth de Souza e Aguinaldo Camargo. Nesse mesmo ano, atuaram em “Terras do sem fim”, de Jorge Amado, adaptação de Graça Mello com direção de Zigmunt Turkov. A montagem foi feita em parceria com Os Comediantes. 

 

Em 1949, finalmente foi encenado o primeiro texto escrito especialmente para o grupo: “Filhos de santo”, de José de Morais Pinho, que combinava elementos da cultura religiosa negra a uma crítica social. Em 1950, foi a vez de “Aruanda”, de Joaquim Ribeiro, que contava a lenda do amor entre Rosa Mulata e o Deus Gangazuma.

 

Apesar de ter uma ideologia de conscientização, o grupo não chegava a ser um teatro popular nem popularizava sua plateia, na medida em que se apresentava quase sempre no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Expandido seu campo de atuação, Abdias do Nascimento promoveu um concurso de beleza para negras e um concurso de artes plásticas com o tema Cristo Negro. Em 1945, realizou uma Convenção Nacional do Negro; em 1950, o 1º Congresso do Negro Brasileiro; e, em 1955, a Semana do Negro. Também editou o jornal Quilombo, que circulou no Rio de Janeiro entre 1948 e 1950, sendo pioneiro na luta pela igualdade racial no País.

 

A trajetória do Teatro Experimental do Negro (TEN) incentivou a criação de outras companhias negras, como o Teatro Popular Brasileiro, de Solano Trindade, no Rio de Janeiro. Em São Paulo, Geraldo Campos de Oliveira, que havia integrado o TEN, criou outro Teatro Experimental do Negro, que ficou em atividade por mais de 15 anos.

 

Mesmo com o empenho de seu diretor artístico e elenco, o Teatro Experimental do Negro (TEN) não chegou a ter uma grande importância social junto à população negra, mas serviu, até o encerramento de suas atividades, em 1961, para a criação de uma dramaturgia negra e o surgimento de novos atores e grupos negros.

 

No mês passado, o grupo esteve em evidência na SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, em uma mesa de discussão promovida pela Instituição. Gratuito e aberto ao público, o evento foi uma homenagem ao centenário de Abdias Nascimento (1914-2011).

 

Os convidados ao debate foram: o historiador, pesquisador e aprendiz de Dramaturgia da Escola, Christian Fernando dos Santos Moura; a escritora, mestre em Direito e em Ciências Sociais e doutora em Psicologia, Elisa Larkin do Nascimento; o ator e bailarino Haroldo Costa; e o bailarino e coreógrafo Rui Moreira.

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