Ponto | Calabar e a Traição

Publicado em: 08/02/2011

Entre 1972 e 1973, sob a pressão da Ditadura Militar, no período do governo do general Emílio Medici, Chico Buarque e Ruy Guerra escreveram a peça “Calabar: o Elogio da Traição”. Eram duros tempos, nos quais se vivia diante da repressão de quaisquer movimentos ideológicos, ditos, contra o regime.
 

A peça, que se passa na época das invasões holandesas, aborda questões como lealdade e traição, em uma evidente alusão à conjuntura política do período em que foi escrita.
 

O espetáculo relata a história de Domingos Fernandes Calabar, que preferiu se aliar aos holandeses contrapondo-se, assim, à coroa portuguesa.
 

Calabar, que foi um homem de duvidosos e questionáveis negócios, nasceu em Porto Calvo, em Alagoas. Mais tarde, se tornou senhor de terras e engenhos.
 

Tempos depois, ao notar a vantagem e as frequentes vitórias dos holandeses sobre os portugueses, Calabar se pôs ao lado dos que, até então, estavam vencendo.
 

Na montagem, Chico Buarque e Ruy Guerra relativizam a posição de Calabar no episódio. Com direção de Fernando Peixoto e investimento que beirou, na época, US$ 30 mil dólares, a peça traça uma analogia com o regime ditatorial vigente no País àquele momento.
 

Ao todo, cerca de 80 profissionais estavam envolvidos com o espetáculo, sendo 40 atores e 40 técnicos. Os ensaios tinham duração média de 14 horas por dia. Apesar de todo o esmero na produção, a montagem não foi vista com bons olhos pelo Conselho Nacional de Censura.
 

Embora tivesse sido aprovada pela censura prévia, oito dias antes da estreia, o general Antônio Bandeira proibiu a peça, o nome Calabar e, até mesmo, que essa proibição fosse divulgada. Um dos homens fortes da Censura, Rogério Nunes, disse que a peça fazia apologia à traição e exaltava a figura execrável do, para ele, traidor Domingos Fernandes Calabar.
 

Além das cenas que proporcionavam debates ideológicos de forma provocativa e irônica, fizeram parte desta montagem canções como “Anna de Amsterdã”, “Bárbara” e “Tatuagem”, entre outras.
 

Com a proibição, os prejuízos financeiro e cultural foram imensuráveis para o período. A história, após certo tempo, foi publicada em livro e virou best-seller. Só em 24 de janeiro de 1980 a peça finalmente pode ser encenada. E, hoje, 38 anos depois, a montagem ainda é considerada um marco da repressão ao teatro.
 

Relacionadas:

Ponto | 14/ 07/ 2015

Ponto | Regras para montar um currículo de ator

SAIBA MAIS

Ponto | 30/ 06/ 2015

Ponto | O nu coletivo no teatro brasileiro

SAIBA MAIS

Ponto | 23/ 06/ 2015

Ponto | Pequena biblioteca para atores

SAIBA MAIS