Ponto | Afinal, o que é o deus ex machina?

Publicado em: 31/03/2015

Artifício usado por alguns escritores ou dramaturgos, o deus ex machina é uma expressão latina, de origem grega, que significa literalmente “deus surgido da máquina” e é utilizada para indicar uma solução inesperada, improvável e mirabolante para terminar uma obra ficcional.

No teatro grego, a técnica artificial de precipitar o desenlace das tragédias, apresentava subitamente uma divindade em cena, que surgia por meio de um mecanismo que a fazia descer do teto, com o objetivo de resolver uma situação ou desemaranhar um enredo. Usado exatamente para alinhavar as pontas deixadas sem solução no texto. Eurípides foi o autor que mais usou deste recurso, a tal ponto que foi criticado por Aristóteles, que o censurou em sua obra “Poética”. Segundo o filósofo grego, ao deus ex machina deve-se recorrer apenas em acontecimentos que se dão fora do drama ou no passado, fatos anteriores aos que se desenrolam em cena ou ao que o homem é vedado conhecer.

O crítico Sábato Magaldi, em seu livro “Panorama do Teatro Brasileiro”, referindo-se à obra de Martins Pena, diz: “Os finais são possibilitados, muitas vezes, por um deus ex machina inconvincente. Em “Os dois ou O Inglês Maquinista”, o marido, que se supõe morto há dois anos no Rio Grande do Sul, reaparece no momento oportuno. A carta é o deus ex machina que leva o diletante à morte, baixando em seguida o pano. Propicia o fim de “Os Três Médicos” a notícia de que morreu o chantagista, móvel dos acontecimentos. Ao oferecer cada aos dois filhos casados que moram com a sogra, o pai de “Quem Casa Quer Casa” traz o happy end da comédia. Em “Os Ciúmes de um Pedestre”, o deus ex machina é o mais inverossímel, por pretender, exatamente, ridicularizar o recurso comum no melodrama: o pai, que havia lançado a atual mulher do ‘terrível capitão do mato’ na roda, volta riquíssimo, proprietário de três navios, para fazê-la feliz o resto da vida”.

Tal recurso pode ter sido exaustivamente usado pelos gregos e pelos dramaturgos que deram origem ao teatro brasileiro. Contudo, atualmente, tal técnica, prontamente identificável em qualquer encenação, é fruto de críticas negativas. A utilização de um deus ex machina confere ao dramaturgo não uma qualidade ou um conhecimento sobre a escrita, mas uma incapacidade de resolução de sua construção dramaturgica e dos conflitos propostos em seu texto.

Ou seja, no teatro que se faz no século 21 – e mesmo no que se fez no século passado – recorrer ao deus ex machina revela apenas que o dramaturgo que lançou mão de tal artifício não resolveu sua trama a contento, mas chegou a um ponto em que diante do emaranhado de sua criação não conseguiu resolver o que sua imaginação criou. Ou apenas denota uma carência de talento dramatúrgico. Nesse caso, é melhor reler e reescrever o texto. Hoje em dia, utilizar um deus ex machina para descer a cortina não convence. É melhor escrachar de vez e chamar o Super Homem.

Texto: Carlos Hee

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