Ponto | A Jessica é de Shakespeare

Publicado em: 01/07/2014

Há quem diga que William Shakespeare, com sua obra marcante e universal, inventou o humano. Clamado como o maior dramaturgo que já existiu e um dos escritores mais citados do mundo, Shakespeare tinha, é claro, enorme intimidade com as palavras. Mas seu talento não se restringia apenas ao trato com elas.

 

Ao longo de sua grandiosa trajetória artística, o autor demonstrou uma clara tendência a inventar palavras. Estudiosos chegaram a calcular números altíssimos: alguns diziam que suas invenções totalizavam 2.076; outros, que chegariam a incríveis 6.700.

 

Em sua época, a língua inglesa possuía aproximadamente 150 mil palavras (hoje, calcula-se que o idioma tenha entre 500 mil e 1,2 milhão de vocábulos). Dessas, Shakespeare usou cerca de 20 mil, o que leva a crer que ele teria inventado mais de 10% de seu próprio vocabulário. Nem é preciso falar sobre os méritos deste feito.

 

De acordo com o escritor, jornalista e historiador britânico Paul Johnson, em seu livro “Os criadores”, muitas das palavras criadas pelo Bardo eram substantivos transformados em verbo e vice-versa; várias também surgiram a partir do acréscimo de sufixos e prefixos, e às vezes “Shakespeare apenas se divertia com as palavras inventadas” ou “criava expressões de absoluta exuberância polissilábica”. Entretanto, apesar de ter recursos de sobra para impressionar com esses excessos, também lançava mão de “palavras curtas da língua inglesa de origem anglo-saxônica para conduzir a trama e produzir ação”.

 

Um nome próprio muito comum entre os brasileiros está entre as palavras extraídas da mente de Shakespeare. “Jessica” (assim, sem acento) apareceu pela primeira vez na peça “O mercador de Veneza” (1596), dando nome à filha de Shylock, o judeu rico responsável pela famosa fala “Hath not a Jew eyes?” (em tradução, “Um judeu não tem olhos?”).

 

Para criá-lo, o autor provavelmente se baseou no nome bíblico “Iscah”, cuja pronúncia, em seu tempo, pode ter sido próxima de “Jescha”. Jessica só passou a ser utilizado como nome próprio a partir da metade do século XX.

 

Está aí mais um dos infinitos motivos pelos quais a obra Shakespeare até hoje é estudada com tanto afinco e admiração.

 

Texto: Felipe Del

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