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Participantes da oficina Olhares: poéticas críticas e escrita criativa sobre teatro escrevem críticas sobre peças da 23ª Satyrianas

Publicado em: 24/11/2022 |

Como parte da oficina Olhares: poéticas críticas e escrita criativa sobre teatro da Extensão Cultural, ministrada em novembro, os participantes acompanharam a programação da 23ª edição do festival Satyrianas, que aconteceu no penúltimo final de semana, de 12 a 15 de novembro. Neste ano, o evento retomou todas as suas atrações de forma presencial, ocupando a região da Praça Roosevelt.

A oficina se estruturou em três dias de trocas teóricas e, durante o festival, os participantes desenvolveram críticas de obras escolhidas dentro da programação.

O coletivo foi coordenado pelo crítico e professor Amilton de Azevedo, que ministrou a oficina e acompanhou a escrita dos textos.

Confira as críticas:

Quando a solidão se desfaz, ou a falsa ilusão de felicidade que o coração sente ao encontrar outro que bate no ritmo do seu

Crítica de “Noites Brancas”, da Cia. Bípede de Teatro Rupestre, escrita por Fernanda Abegg – participante da oficina Olhares: poéticas críticas e escrita criativa sobre teatro, ministrada por amilton de azevedo.

Um problema técnico segurou a entrada por poucos minutos, e já na fila, entre burburinhos e cortinas era possível enxergar uma cascata de luzes ao fundo do palco. Aos meus olhos, aquelas estrelas revelavam a noite clara da praça. O palco, composto por um banco branco de madeira e uma luminária preta, dessas hexagonais, que são facilmente encontradas em parques e jardins por aí, trouxe a lembrança que tenho das noites de lua cheia no interior. Mais tarde, percebi que havia também uma escada, com um paletó pendurado. Acho que inconscientemente ignorei estes últimos elementos, porque a cenografia me transportou diretamente para a memória que eu tinha do conto.

Há muitos anos li “Noite Brancas”, e já não me lembrava mais de muitas coisas, só da praça. A imagem imaculada que eu havia criado na minha imaginação, estava ali, materializada. A iluminação, que desde o corredor já puxava meus olhos, desenhou as cenas durante todo o espetáculo. Para além da criação da atmosfera, recortava momentos e apontava o foco de atenção, sempre que necessário. Talvez pareça óbvio dizer isso, mas é importante ressaltar a afinação dos elementos, que se revelou desde o instante que pisamos na sala. Era uma sala, mas não parecia. Não sentia como sala, sentia como uma praça do interior, desenhada pela luz e pela penumbra, típica dos espaços públicos que não tem a quantidade necessária de postes a cada não sei quantos metros, mas tem a lua, enorme e clara.

Assim, de princípio, a simplicidade e os detalhes anunciavam que havia um acabamento harmonioso entre as informações dadas. A surpresa – e a perspicácia – estética veio quando os dois atores, Thiago Winter e Alana Oliveira, entraram em cena. Ambos trajavam branco, e usavam uma maquiagem inspirada na palhaçaria. Embora não estivessem de nariz, que é supostamente a tal máscara que “autoriza” o palhaço a ser quem ele é, a dinâmica do jogo e do texto desses recém conhecidos-amigos-enamorados, ressalta a ingenuidade do narrador, que é por si um homem bobo, e que torna-se mais ainda quando se percebe apaixonado.

A escolha da maquiagem pode remeter à figura do que conhecemos por “Augusto”, na comédia. O Augusto é esse palhaço trouxa, submisso, contente em ser e servir. Essa imagem, dentro do contexto da peça, acrescenta mais uma camada sutil aos seus códigos visuais, revelando a relação de poder intrínseca entre as personagens. Paradoxalmente, a postura de um romântico tolo, que possibilita que o Thiago construísse esse ser enamorado, gentil e otário, também traz o seu oposto, que relincha e pulsa frente ao ciúmes que só a dor de amor é capaz de causar.

Alana também tinha no rosto elementos da maquiagem inspirada no palhaço, e grandes cílios pintados, tal qual uma boneca de pano. Nastienka, sua personagem, porém, nada tem de manipulável; ao contrário, ela controla a trama. Nela está contida outra figura do humor: o Branco. O Branco é o palhaço que induz o Augusto ao erro, eles são complementares. E essa escolha, curiosa e perspicaz, aponta para o enredo do conto, reforçando a dramaturgia na estética da cena.

A experiência foi um gole de amor romântico. Música, luz, atuação, cenário e figurino me transportaram para dentro da memória que eu tinha do livro. O elenco, presente e verborrágico, soou fluido, muito diferente do que as páginas truncadas daquele romance russo de 1848. E a palavra que fica é “afinado”. O espetáculo, inclusive nas suas interações com o público, é pontual, sem sobras, excessos, ou faltas na direção de Felipe Sales. Quanto à pertinência de montar tal texto em 2022, penso que tem coisas (como um coração partido, que vive sozinho) que nunca vão sair de moda. Uma lembrança aos que amam e aos que não são correspondidos, que duas ou três noites, contém o sonho do “felizes para sempre” que nem sempre teremos.

 

Satyrianes, vocês tem fome de quê?

Crítica de “Recortes Quase Poéticos de Uma Bad Trip Brasileira”, da Cia. Quase Poética, escrita por Fernanda Abegg – participante da oficina Olhares: poéticas críticas e escrita criativa sobre teatro, ministrada por amilton de azevedo.

A Cia. Quase Poética, grupo formado a partir de um experimento cênico realizado no semestre passado na SP Escola de Teatro, fez sua apresentação no final do domingo, na praça Roosevelt. Era recém-passado das 18h quando a praça, com toda sua vida autônoma, foi cortada pelo ruído de uma caixa de som que falava sobre engolir objetos; sobre coisas que não foram feitas para serem colocadas na boca. Se uma pilha entra, por onde ela sai? Estômago é um negocinho tão sensível. A gente que é bicho sabe disso.

A temática da fome, um dos assuntos centrais do número, foi abordada com humor em uma ação que os próprios integrantes nomearam de “quase performática”. O cenário, uma rede de cordas coloridas ao fundo do espaço, trazia colado uma placa com preços e ofertas que de tão reais, absurdas. No centro, uma carrinho de compras, ovacionando o deus mercado. Atravessa a cena um bicicleteiro, entregador de aplicativo, que lança pacotes com salgadinhos ao público. Na embalagem, há a paródia de uma música muito conhecida pelos brasileiros, que será cantada mais adiante.

Enquanto os performers faziam uma adoração obscena com seus corpos animalescos às multinacionais ligadas à alimentação e redes de fast foods, ouviam-se áudios narrando a situação da Amazônia, dos povos originários e também ações recentes do governo. Embora já tenhamos passado pelas eleições, o grupo manteve uma cena com um simulacro de votação, na qual convidava integrantes do público para escolher entre direita e esquerda.

Esse chamamento para a cena, assim como o rompimento entre palco e plateia que ocorria sob comandos do elenco, transformou, por vezes, o ato em festa. A sensação era de que estávamos na micareta da democracia, como aquela que aconteceu no dia segundo turno das eleições. Cantamos juntos a versão alterada de “Evidências”, proposta pelo grupo. Ela falava do “imbrochável”, e enquanto isso o elenco jogavam M&M’s azuis no público, representando os 35 mil comprimidos de Viagra que Bolsonaro comprou para as forças armadas.

O corpo cênico ora atuava um grupo de soldados do mercado, ora destacava a figura do mestre de cerimônias como condutor do evento. O grupo, às vezes condensado e às vezes como performers isolados, soube abarcar a escritura da dramaturgia típica do teatro de rua, que quase sem querer, engloba cachorros, passantes, crianças, famílias e um ou outro pensador ébrio que insiste em aparecer.

Esse pot-pourri brasilis ficou particularmente indigesto quando o real encontrou o drama. Pois essa característica, de rir de desespero, que é o que nos foi possível fazer nos últimos anos, fincou raízes profundas. E assim, mesmo que a besta tenha ido, ficaram seus filhotes desgarrados. Gente que vive como bicho é a herança desse governo. E essa gente come o que encontra, e não, não cheira. Porque bicho sabe distinguir, o podre, o tóxico, o indigesto. Mas há toda uma população, há toda uma metade do Brasil que não. E é lamentável que um governo que já esteja indo, em transição, ainda vá gerar muito material para o caldo dos quase poetas.

 

Maníaca

Crítica de “Maníaca”, performance de Bruna Custódio, escrita por Gustavo Parreira – participante da oficina Olhares: poéticas críticas e escrita criativa sobre teatro, ministrada por amilton de azevedo.

No início do trabalho, a performer está deitada no chão com alguns globos de discoteca em sua volta. Seu corpo parece cansado. No desenvolvimento de Maníaca, é possível perceber que se trata de uma viagem de consciência, como se a protagonista estivesse presa dentro da própria cabeça

Por ser um solo, entendo que pode ser mais difícil prender a atenção do público com os acontecimentos da cena, e em raros momentos a performer traz texto pra boca, utilizando-se principalmente de gritos e movimentos corporais. Levando em consideração o título da obra – Maníaca – dá pra perceber que houve uma tentativa de demonstrar e compartilhar seu desequilíbrio com o público. Em muitos momentos, por exemplo, é utilizado um barulho de sirene; isso, de modo particular, me trouxe um pouco de desconforto de estar assistindo.

Quando a performer faz uso de textos, são sempre frases curtas e rápidas – o que talvez dificulte um pouco a compreensão do público.

Senti alguns fios desconectados durante a apresentação, como nas interações com o público, muitas vezes confusas. Eu, por exemplo, não consegui identificar quando a performance realmente começa ou termina. Ao final, a atriz não permite que os espectadores batam palmas. Dá pra ver que o trabalho tem alma, mas seria bem-vinda uma maior lapidação.

 

Ainda sou teu

Crítica de “Ainda sou teu”, texto de Eddy Fernandes com direção de Rodrigo Ferraz, escrita por Gustavo Parreira – participante da oficina Olhares: poéticas críticas e escrita criativa sobre teatro, ministrada por amilton de azevedo.

Ao entrarmos no teatro, estão dispostos livros e um toca-discos, como que representando a sala de uma casa. Nos primeiros diálogos, se revela um casal de amantes que discutem as situações desgastantes do casamento.

Os textos estavam claros e durante a peça a relação está muito explícita. É possível enxergar perfeitamente os conflitos entre o casal de protagonistas. Porém, durante o desenvolvimento do enredo, a potência dos atores parece não se sustentar.

Muitos fatores podem influenciar para quebra de ritmo na peça; a disposição das pessoas que estão assistindo, o tamanho e a ergonomia da sala, as luzes e etc. É notável a propriedade dos atores daquilo que estão falando, mas a perda de tônus nas ações é evidente e significativa.

 

OS CONDENADOS

Crítica de “Os Condenados”, da Cia. Os Satyros, escrita por Alexandre Nicoletti – participante da oficina Olhares: poéticas críticas e escrita criativa sobre teatro, ministrada por amilton de azevedo.

Uma praga entra em casa, domina todos os aspectos da vida e se espalha pelo mundo. Não seria difícil resistir, se proteger, mas ela não consegue, não tem as ferramentas para isso. Vive apática, manipulada por uma figura que a engana, distorce a realidade, destrói seus afetos mais íntimos, seus vínculos familiares.

A história de Antena, mulher solitária e compulsiva, cuja única atividade é alimentar as pombas da praça das condenadas e repentinamente se vê dominada por elas, sua casa ocupada pelas aves, assemelharia-se ao teatro do absurdo, não fosse a realidade que vivemos.

A peça coloca o espectador dentro do palco, as cenas usam toda a extensão da sala, o mezanino, as pombas que se empoleiram em escadas. Uma tela serve de anteparo para algumas cenas em que só se veem as sombras. A montagem assusta e engana, é preciso virar-se para enxergar, tentar entender, decifrar. Como Antena, só nos é permitido ter uma visão restrita, influenciada.

Essas ferramentas aproximam o espectador da protagonista, que teve a vida dominada pelo absurdo. Os Condenados nos faz refletir, pela ótica da compaixão, sobre como pudemos chegar a uma realidade dominada pelo absurdo.




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