Papo de Teatro com Renata Calmon

Publicado em: 12/11/2012

Renata Calmon, que teve seu primeiro contato com o teatro na escola (Foto: Acervo Pessoal)

 


Renata Calmon
é atriz 

Como surgiu o seu amor pelo teatro?
Quando tinha dez anos, me mudei para Vila Velha, no Espírito Santo, e passei a estudar em um colégio que oferecia curso de teatro. Como havia chegado bem no meio do ano, eles já estavam com uma montagem em andamento, e estava faltando uma pessoa para fazer o papel da bruxa na peça infantil da escola. Ensaiamos duas semanas e a única coisa que eu fazia era entrar no palco, ver as crianças dormindo e soltar uma gargalhada de bruxa. Quando apresentamos a peça, lembro claramente que todo mundo riu de mim quando eu soltei a gargalhada, o que me fez morrer de vergonha. E minha professora na época disse que aquilo era bom, que fazer as pessoas rirem era positivo porque elas tinham se envolvido de alguma forma. A partir daquele momento comecei a fazer várias peças no colégio e a me apaixonar cada vez mais pelo métier.

Lembra da primeira peça a que assistiu? 
Acho que meu primeiro contato com o mundo do espetáculo foi o circo. Meus pais me levavam ao circo desde que eu era bem pequena e eu ficava fascinada com todas as atrações apresentadas.

Um espetáculo que mudou a sua vida foi… 

“Apocalipse 1,11”, do Teatro da Vertigem.

Um espetáculo que mudou o seu modo de ver teatro foi…
“Melodrama”, da Cia. dos Atores.

Você teve algum padrinho no teatro? 

Zé Henrique de Paula, que foi meu professor quando eu tinha 14 e com quem eu voltei a trabalhar no espetáculo “O Contrato” e em “No Coração do Mundo”. Tenho muito respeito e admiração pelo seu trabalho e fico muito feliz de poder trabalhar com ele.

Já saiu no meio de um espetáculo? 
Já, mas foram raríssimas vezes. Acho que faço isso quando percebo que não só o espetáculo é entediante, como também foi “feito nas coxas”.

Teatro ou cinema? 
Amo os dois, mas acho que quando você assiste a uma peça fantástica, que o toca profundamente, é uma experiência inigualável.

Cite um espetáculo do qual você gostaria de ter participado. E por quê? 
Se eu fosse homem, queria ter feito “In on It”, com direção do Enrique Diaz. Adoro a dramaturgia do Daniel MacIvor e a encenação magistral e ao mesmo tempo simples do Enrique Diaz.

Já assistiu mais de uma vez a um mesmo espetáculo? E por quê? 
É muito difícil eu ver uma peça duas vezes, porque sempre há muitas peças de amigos na fila para eu assistir. Mas quando eu era mais jovem, já devo ter assistido mais de uma vez a uma mesma peça.

Qual dramaturgo brasileiro você mais admira? E estrangeiro?
Conheço pouco os dramaturgos brasileiros contemporâneos. Nunca tive a oportunidade de encenar nenhum texto recente brasileiro. E hoje, no Brasil, muitos grupos constroem os textos de forma colaborativa, então, não sei se há algum nome de destaque. Gostei muito da peça “Agreste”, do Newton Moreno, mas não conheço seus outros trabalhos.

Acho que o Nelson Rodrigues ainda é o grande expoente da dramaturgia brasileira, o mais montado, mais lido e que escreveu inúmeras obras consistentes. Dos dramaturgos estrangeiros, sou fã do Mike Bartlett, um inglês. “O Contrato”, que eu montei e traduzi, é dele. Ele tem uma dramaturgia seca, e ao mesmo tempo densa e envolvente, além daquele típico sarcasmo inglês, que eu adoro.

Qual companhia brasileira você mais admira?
Núcleo Experimental, Teatro da Vertigem, Cia. dos Atores, Sutil.

Existe um artista ou grupo de teatro que você acompanhe todos os trabalhos?
Como estou trabalhando com o Núcleo Experimental, tenho acompanhados todos os últimos trabalhos deles, que são excelentes.

Qual gênero teatral você mais aprecia? 

Não tenho um favorito. Da tragédia à comédia ligeira, eu gosto de tudo, quando bem feito, claro.

Em qual lugar da plateia você gosta de sentar? Qual o pior lugar em que você já se sentou em um teatro?
Gosto de sentar em um lugar centralizado, geralmente, não muito próximo do palco. Em teatros muito grandes, odeio ficar nos andares superiores, porque os atores ficam parecendo playmobils.

Existe peça ruim ou o encenador é que se equivocou? 
Claro! Existe muito texto ruim, que não deveria ser montado nunca. Como a dramaturgia é a base do espetáculo, se ele for frágil, o diretor tem de fazer milagres. Por isso, quando você combina um texto ruim com um diretor ineficiente e um elenco fraco, aí é bomba na certa. Acho que o primeiro passo para se montar um espetáculo de qualidade é procurar um texto bom, pertinente, que o toque.

Como seria, onde se passaria e com quem seria o espetáculo dos seus sonhos? 
Theatro Municipal de São Paulo, uma peça do Shakespeare, com direção do Peter Brook.

Cite um cenário surpreendente.
“Avenida Dropsie”, da Daniela Thomas.

Cite uma Iluminação surpreendente. 

Preciso confessar que nunca reparo muito na iluminação. Só fico incomodada quando os atores ficam muito no escuro, mesmo que isso faça parte de uma proposta superelaborada de luz.

Cite um ator que surpreendeu suas expectativas.
Acho o Eric Lenate um ator surpreendente, capaz de se transformar completamente a cada papel e de emocionar o público com a sua sensibilidade.

O que não é teatro? 

Aquilo que não toca, não comunica, nem leva o público a pensar. Quando você vê uma peça e entra no teatro do mesmo jeito que saiu.

A ideia de que tudo é válido na arte cabe no teatro? 
Não acho que tudo seja válido na arte. Não suporto quando os artistas fazem uma obra completamente hermética que, para ser entendida, é necessário um estudo prévio por conta do público. Lembro quando fui assistir a uma peça do Frank Castorf e fiquei extremamente irritada, com a sensação de que ele havia feito uma peça para agredir o público. Em vez de um programa, recebíamos antes da peça um livro, porque acho que aquela era a única forma de o público se aproximar daquele material.

Na era da tecnologia, qual é o futuro do teatro? 
Não tenho ideia. Mas acho que as novas tecnologias têm de ser usadas com parcimônia no palco, senão fica uma salada mista e a arte da representação se perde. Eu sou fã da caixa preta, de um texto bem dito, de partituras lindamente construídas… Isso não tem por que acabar.

Em sua biblioteca, não podem faltar quais peças de teatro?
A obra completa do Shakespeare e do Tchekhov.

Cite um diretor (a), um autor (a) e um ator/atriz que você admira.
Cris Couto, uma grande atriz, muito generosa e com uma belíssima carreira. Sou fã dela.

Qual o papel da sua vida?
Queria muito fazer a Lady MacBeth só pra dizer aquela frase famosa: “Homem fraco, dá-me os punhais.”

Uma pergunta para William Shakespeare, Nelson Rodrigues, Bertold Brecht ou algum outro autor ou personalidade teatral que você admire.
Na verdade, eu perguntaria pra Cacilda Becker: “Se você pudesse ver a cena teatral de hoje, diria que qualidade das peças aumentou ou não?”.

O teatro está vivo?

Definitivamente.

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