Papo com Paroni | Utilidade e distopia

Publicado em: 13/12/2016

Mauricio Paroni, especial para a SP Escola de Teatro
 
Há uma comparação – típica do senso comum – entre as duas Américas: a colonização hispânica teria instalado o subdesenvolvimento no Sul e o desenvolvimento do Norte do Continente dever-se-ia a ingleses, franceses e holandeses. Por ser um maniqueísmo raso, não perderemos o tempo de rebate-la. Serve, entretanto, notar que a colonização francesa, inglesa e holandesa presentes nas Guianas não livrou a Guiana (Inglesa), o Suriname e a Guyanne (França ultramarina) dos problemas comuns a todos os países latino-americanos. Trata-se de um modo de narrar do ponto de vista utópico. 
 
Um modo distópico precisaria da valoração centrada na natureza exploratória da colonização em si. A metrópole explora uma colônia unilateralmente para satisfazer as suas próprias necessidades. Muitas ainda estabelecem um grupo social que coloniza o outro dentro dos estados que se fizeram independentes da metrópole.  Tendem a uma “solução final” depois de assimilar e usurpar totalmente a cultura do grupo a suprimir. Disso foram consequências horrores como o nacional socialismo nazista ou o comunismo polpotista. 
 
Narrá-los enquanto distopia intrínseca ao sonho de riqueza do mundo novo – e utópico – evita esse raciocínio viciado pelo preconceito; areja a discussão com pensamento lógico; evita o misticismo daquele senso comum. Entretanto, pode-se facilmente cair na mística de relacionar a causa de uma ou de outra na “maldade” intrínseca aos projetos coloniais, ou a qualquer projeto de domínio – ou a uma trama dramático-politica. 
 
***
 
A questão da ligação entre os fatos e da linguagem que representa ou que mostra é fundamental na distopia e utopia. Qual a chave da diferença entre as duas categorias expressivas que fugir da essa armadilha?
 
O Filosofo austríaco Wittgenstein (1889-1951) pode nos ajudar com a sua proposição sobre qual a relação existente entre as coisas: “As coisas, por si só, não têm sentido, pois elas ganham significado quando relacionadas com outras coisas. Da mesma forma como não conseguimos pensar em algo fora do espaço e do tempo, “também não podemos pensar em nenhum objeto fora da possibilidade de sua ligação com outros” (Tractatus, 2.0121).” (*)
 
***
 
Para não ficarmos somente na colonização que se efetivou, examinemos uma que faliu:  a representação de uma incursão de oficiais nazistas da SS disfarçados de exploradores na Amazônia, ocorrida em 1936 por exemplo. Hitler tinha planos de colonizar as Guianas e o Norte do Brasil, em busca do “espaço vital para a raça ariana superior”, além de base estratégico-militar contra a “ameaça amarela” representada pelo Japão – um próximo passo da guerra entre as “raças”.
 
“O nazismo tinha uma legenda organizada no Brasil. Membros do partido andavam com carteiras de identificação, jornais nazistas circulavam sem restrições e materiais racistas eram veiculados em escolas. [Getúlio] Vargas tinha uma clara identificação ideológica, principalmente com as noções de uma nação forte e uma raça pura”. (***) 
 
Pode ser uma utopia ou uma distopia, dependendo da posição de quem a observa. A que se propõe o jogo de linguagem de Wittgenstein: O que se pode mostrar ou representar nas fotos abaixo?
 
Índios posam diante um túmulo cristão e nazista. Nativos ajudam alemães a trafegar livremente por rios amazônicos sob uma suástica. Como costumavam justificar suas incursões, expedicionários faziam pesquisa “cientifica”. Ainda não haviam tido a desfaçatez de justificar o horror de seus lagers como tal. Estavam em embrião; até então, eram supostamente movidos pela força utópica de um sonho de emancipação cientifica. Podemos crer que os nazistas fossem ajudados por índios; e que os pretendiam massacrar depois. Ainda há massacres de indígenas ali, SS ou não. As latifundiárias permanecem. A destruição da floresta continua. Essa é uma conquista do pensamento filohegeliamo de projeto de sociedade ideal e futura. Não é necessariamente daquela dialética, mas pode ser parte importante dela. Neste estágio, estamos no projeto nazista do ideal de “raça pura”: é utopia para o nazista e distopia para o antinazista. Mas jamais poderemos crer que os índios tivessem suprimido aqueles alemães, numa distopia para os nazistas.
 
Aqui está a extrema utilidade do raciocino utopia x distopia na arte; trata-se de uma via alternativa de criação que pode nos livrar da fantasmagórica “verdade” histórica rasa, de um muro real para a liberdade de expressão individual, de crítica social e de representação política. Nesse território muita coisa se pode representar e quase nada que se pode mostrar, como dizia Wittgenstein
 

“Joseph Greiner morreu aqui” – inscrição na cruz
.
 
Bibliografia principal:
 
“Nazistas na Amazônia”, Frederico Füllgraf, 2009, revista BRASILEIROS
 
 
(*) Josué Cândido da Silva, Wittgenstein e a figuração do mundo, especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação, publicada pela Folha de São Paulo em 18/10/2007
 
(**) Credito Lúcio Costa Leite; Ilustração retocada pelo The New York Times para melhor legibilidade https://tokdehistoria.com.br/tag/joseph-greiner/ Trechos do material – histórico também pesquisado naquele artigo:
 
[Heinrich Himmler, chefe do Departamento Central de Segurança do III Reich, a SS, acreditava que era possível encontrar na Amazônia, descendentes da Atlântida, de “raça pura” e vestígios genéticos da “raça ariana”. Ele já havia organizado e enviado expedições cientificas a várias regiões da terra com este propósito. Em 1934, chegou a relacionar entre os enviados ao Tibet, o pesquisador Otto Schulz, filiado ao partido nazista, mas este não topou a empreitada. Entretanto, aceitou compor uma expedição formada com apoio de Herman Goring, cujo destino era o vale do rio Jarí, na região norte do Brasil. Otto Schulz-Kampfhenkel era de família rica, formado em geografia e ciências naturais. Tinha paixão pela aviação e integrou a missão cientifica como piloto de hidroavião “Seekadett”, apelidado “Águia Marinha”. Apenas quatro alemães faziam parte da expedição que chegou a Belém no início de 1935. O chefe era Gerd Kahl. Joseph Greiner cuidaria da segurança do grupo e guarda do material vindo da Alemanha. (…) Indagados sobre tanto interesse pela região do rio Jari, os membros da expedição afirmavam: “Aqui é oferecido um espaço suficiente para imigração e o estabelecimento dos povos nórdicos. Para a mais avançada raça, oferece infinitas possibilidades de exploração”. Comentava-se, entretanto, que a expedição tinha a missão de explorar a região fronteiriça do Brasil com a Guiana Francesa e colonizá-la para o “Terceiro Reich”.]Description: Macintosh HD:Users:mauricioparoni:Desktop:primeiro art witt g disst:sdc3-5.jpg
 
(**) De “Rätsel der Urwaldholle” (“Mistérios do Inferno na Mata Virgem”), 1939, Berlim, Deutscher Verlag, diário do geólogo e piloto Otto Schulz-Kampfhrnkel. Na edição de 1938, há 60 fotografias. Algumas mostram a suástica nazista. Na reedição de1953, as fotos foram banidas.)   
 
(***)Maria Luiza Tucci Carneiro, coordenadora do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação do Departamento de História da USP, em http://super.abril.com.br/historia/nazistas-na-amazonia/
 
(****)
 
 
 
[Sepultura nazista no Brasil resiste como registro de plano secreto de colonização16
 
The New York Times Simon Romero /versão publicada pela folha de São Paulo
 
Um persistente ar de mistério cerca uma grande cruz com uma suástica gravada em um cemitério próximo da remota cidade brasileira de Laranjal do Jari, no Amapá. Uma inscrição na cruz diz, em alemão: “Joseph Greiner morreu aqui de febre em 2 de janeiro de 1936, a serviço da pesquisa alemã”.
 
Por que há um túmulo nazista no interior distante da floresta Amazônica brasileira?
 
Pesquisadores documentaram meticulosamente como criminosos de guerra nazistas fugiram para a América do Sul após a Segunda Guerra Mundial. Mas muito menos se sabe sobre um plano que se enraizou antes e durante a guerra: os nazistas esperavam estabelecer uma cabeça de ponte alemã na América do Sul, conquistando um trecho da bacia do rio Amazonas.
 
O plano secreto, chamado Projeto Guiana, teve sua origem em uma expedição à Amazônia liderada por Otto Schulz-Kampfhenkel, um zoólogo de Berlim, cineasta documentarista e membro da SS de Hitler.
 
Por 17 meses, de 1935 a 1937, exploradores nazistas guiados por Schulz-Kampfhenkel percorreram as florestas próximas da fronteira do Brasil com a Guiana Francesa. Eles coletaram crânios de animais e joias indígenas, assim como estudaram a topografia ao longo do rio Jari, um afluente de 790 quilômetros do rio Amazonas.
 
“A expedição teve início com as habituais pretensões científicas”, disse Jens Glusing, um antigo correspondente no Brasil da revista alemã “Der Spiegel”, que escreveu um livro sobre o Projeto Guiana. “Mas ao voltar para a Alemanha, com o início da guerra, Schulz-Kampfhenkel fez uso da ideia para fins da expansão colonial nazista.”
 
Schulz-Kampfhenkel apresentou seu plano em 1940 para Heinrich Himmler, o chefe da SS e da Gestapo. Ele via o empreendimento como uma forma de reduzir a influência regional dos Estados Unidos, ao assumir o controle da Guiana Francesa e das colônias vizinhas holandesa e britânica (atualmente os países independentes do Suriname e Guiana).
 
Mas o sonho de forjar uma Guiana Alemã fracassou. Talvez isso tenha acontecido porque a Guiana Francesa já tinha caído nas mãos amigas do regime colaboracionista de Vichy.
 
Ou talvez tenha sido devido à própria expedição malfadada ao Jari.
 
A expedição contava com um hidroavião Heinkel He 72 Seekadett, que era promovido como um exemplo da inovação industrial nazista. Mas o avião virou após atingir madeira flutuante algumas poucas semanas após o início da expedição.
 
Ao longo de toda a jornada, os exploradores da auto descrita “raça superior” tiveram que depender das tribos indígenas para sobreviver e encontrar seu caminho na selva.
 
Os alemães sofreram com a malária e outras doenças. Schulz-Kampfhenkel enfrentou uma difteria severa, e uma febre não especificada matou Greiner, o capataz da expedição. Seu túmulo permanece até hoje como testamento da desafortunada incursão nazista na Amazônia.
 
Tradutor: George El Khouri Andolfato]
 
 

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