Papo com Paroni | Tudo Muito Limpinho

Publicado em: 20/02/2017

 
Mauricio Paroni, especial para a SP Escola de Teatro
 
Hoje, é comum falar, propagar, discursar, perorar, gritar, até mesmo agredir em defesa da suposta dialética entre performance e narratividade, drama e pós drama, entretenimento consumista e engajamento social, big brother parlamentar e marquetagem eleitoreira, projeto de poder e política esvaziada, fé cênica e esquizofrenia, religião e descrença.
 
Esquece-se, na laicização desse gênero de homilia,  de dois componentes sagrados que lhe confeririam alguma credibilidade: a Vida inerente ao fato teatral e a Morte enquanto sua metáfora. Esta foi uma idéia levada ao ápice formal  por Tadeusz Kantor (1915-1990).
 
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Atores, acompanhamos Heiner Müller (1929-1995) a um espetáculo de Kantor – este, no palco. Era 1988. Ao final, ele acendeu o seu charuto, distribuiu goles de sua garrafinha de bolso e perguntou: – What do You think? a kind of slave’s theatre, isn’t it? [O que vocês acham? uma espécie de teatro de escravos, não é?]. Não soubemos responder, mas a pergunta não era pejorativa se entendermos o Teatro da Morte como uma metáfora da vida.
 
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Para além da obra de arte, a morte é uma metáfora feita de matéria vital, a única que podemos chamar de real por trazer consequências concretas e inelutáveis para todos. Diante dela, tudo vira ficção. Sobretudo a performance. Isso me leva a acreditar que esta seja a metáfora e a narração final de uma biografia. A dicotomia que opõe narratividade à performance não é fictícia, embora seja falaciosa. A dramaturgia, escrita ou de cena, vira maneirismo ao se remover a componente “morte”.
 
As tumbas, os testamentos, os templos, os cemitérios, o sexo público das ruas e prostíbulos, os espasmos privados da lascívia moral nas alcovas coletivas e as perorações dos pacientes terminais são uma magnifica história da Morte, contada pelos territórios urbanos que, via alegorias e metáforas, transforma superstições em arte dinâmica; são a base criativa da cultura teatral de qualquer civilização, seja ela antiga, moderna, contemporânea, oriental ou ocidental.
 
São, portanto, o terror de qualquer sistema autoritário.
 
O desafio atoral na tumba dionisíaca, as entidades do Candomblé, a dança do Sol Nascente para Amaterassu, as provações de Rosvita de Gandersheim (*), a mitologia do teatro balinês, a lucidez de Artaud (**) diante da peste, as pequenas mortes dos orgasmos femininos, as cópulas idealizadas por Jose Celso Martinez Correa, o palco apolíneo de Antunes Filho e o sem numero de lendas do universo da direção teatral mundial são emblemas do relógio da morte incrustrados no panteão da arte vital.
 
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Os autocratas de qualquer ideologia fazem uso deliberado da visão da morte real enquanto verdade absoluta e definitiva. Assassínios e genocídios comparecem como solução heroicizante para a existência e a História. É fácil reconhecer tal trama. Começa sempre por construir e perseguir um inimigo externo e outro interno. A falsificação “Os Protocolos dos Sábios de Sião” inspirou Hitler  a criar os campos de extermínio; A Contrarrevolução justificou os Gulags. O uniforme laranja de Guantánamo colore as execuções do Daesh. Trump, Putin, e vai saber quantos mais, estão soltos por aí, procurando inimigos.
 
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Honoré de Balzac (1799-1850) incluiu, em sua Comédia Humana, ficção realista, filosofia, ensaios e estudos históricos; fez reviver entre si personagens-chave de muitas obras, umas dentro das outras. Dominou a eternidade sem jamais ter ignorado a linha da morte, esse supremo desafio humano à idéia de deus. Ainda na Idade Media, Dante Alighieri (1265-1321) narra a sua viagem além da morte na Divina Comédia – que passou a ser chamada assim para ser diferenciada da Comédia de Balzac.  Machado de Assis (1839-1908) e Sergio Sant’Anna (1941) caminham por labirintos capazes de libertar a infinidade temporal do Eu (Principal referencia do Budismo) na mente dos seus leitores.
 
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A dramaturgia e o teatro não estão em crise letal, embora não sobrevivam à ignorância da existência do “outro de si” se uma guerra sem batalhas – já descrita por Müller – for travada por aparências vazias, falaciosas e desprovidas de sentido.
 
A única certeza que temos durante uma representação é a de que o que se vê acontece factual e concretamente diante de nós. Criamos o restante através de metáforas. Se alguém morre de verdade no palco ou na plateia, a realidade faz-se presente imediatamente.
 
O que confere concretude ao fato estético e ao fato real? A morte, desde que jamais cancelada do imaginário. A consciência disso é a única coisa que nos diferencia dos animais; aprendemos a respeitar o diverso com a metáfora do mal e não com o mal em si. Quem estabelece o “bem” e o “mal”? O “belo” e o “feio”?
 
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Para quem escolhe ver a questão somente de um ponto de vista, aqui vai uma sugestão: Inclua-se, no rol do “bem”, demônios, loucos, abismos sexuais, e algumas aberrações onde – metaforizadas ou alegorizadas -, um adjetivo vira um substantivo.  A obra de arte acabará por beirar o sublime: pela fealdade espiritual, pelas desfigurações da doença,  pela brutalidade, pela fraqueza, pela covardia, pelo grotesco, pelo arbitrário, pelo odioso, pelo imundo, pelo criminoso, pelo satânico, pelo abominável, pelo amável, pelo indecente, pelo mal abjeto, pelo que a todos aterroriza.
 
Não mexer com tais adjetivos substantivados equivale a presumir-se um chef  de mãos intocadas pelas entranhas da natureza. Trata-se do insípido inútil. Os maniqueísmos rasos do “eu contra você” e do “nós contra eles”, disfarçados de dialética – ou pior, de “História” -,  atrasam o futuro. E tudo continua muito limpinho.
 
 
 
(*)Rosvita de Gandersheim (cerca de 935 – cerca de 974) É considerada a primeira poetisa alemã da história, embora tenha escrito apenas em latim. Os primeiros textos dramáticos do Ocidente são dela também.
 
 
 
(**)Antonin Artaud (1896 -1948) dramaturgo, ator, escritor e diretor de teatro francês. Em seu  O Teatro e seu Duplo, esquadrinhou a fisicalidade ritualizada e codificada da dança/teatro balinês, nas teorias do “Teatro da Crueldade”. A crueldade aqui não se leia por sadismo ou dor, mas por catarse pura causada por uma sensação aguda de desconforto interior vivida durante toda a representação proposta.
 
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