Papo com Paroni | Recado “Utodistópico”

Publicado em: 27/01/2017

Mauricio Paroni de Castro, especial para a SP Escola de Teatro
 
Dois pensadores da arte, aparentemente antagônicos, possuíam uma visão mística do tempo e da condição humana muito além das próprias diferenças ideológicas. 
 
Vamos ao primeiro: Editada para simplificar a fluidez de leitura, esta visão metafísica é do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986). Aparece logo no inicio da sua Historia da Eternidade:
 
(…) o tempo é uma imagem móvel da eternidade; e isso é apenas um acorde que a ninguém distrai da convicção de ser a eternidade imagem  feita de substância de tempo. (…) Que flui do passado para o  futuro  é  a crença comum,  mas não  mais ilógica  é  a  contrária, aquela que  Miguel  de Unamuno gravou em verso espanhol: Noturno, o rio das horas flui /de seu manancial, que é o amanhã eterno… Ambas são igualmente verossímeis –e igualmente inverificáveis. Bradley(*) nega as duas e adianta uma hipótese pessoal: excluir o futuro, que é uma simples construção de nossa esperança, e reduzir o “atual” à agonia do momento presente desintegrando-se no passado.  (…) Bradley  nega  o  futuro;  (…)”
 
Ela corre paralela à citadíssima alegoria da Historia que o segundo autor mencionado, o alemão Walter Benjamin (1892-1940), descreve em seu Angelus Novus:
 
“Existe um quadro de Klee intitulado “Angelus Novus”. Nele está representado um anjo, que parece estar a ponto de afastar-se de algo em que crava o seu olhar. Seus olhos estão arregalados, sua boca está aberta e suas asas estão estiradas. O anjo da história tem de parecer assim. Ele tem seu rosto voltado para o passado. Onde uma cadeia de eventos aparece diante de nós, ele enxerga uma única catástrofe, que sem cessar amontoa escombros sobre escombros e os arremessa a seus pés. Ele bem que gostaria de demorar-se, de despertar os mortos e juntar os destroços. Mas do paraíso sopra uma tempestade que se emaranhou em suas asas e é tão forte que o anjo não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, para o qual dá as costas, enquanto o amontoado de escombros diante dele cresce até o céu. O que nós chamamos de progresso é essa tempestade.”
 
Sugiro que você, leitor, vire um terceiro autor. Procure olhar para a própria biografia e o conceito de utopia que teve até aqui. Autor de um futuro sonhado, viva uma eventual distopia da simbologia ficcional ou histórica – qual lente para ver a realidade por meio da metáfora que nasce de sua criação. 
 
Pausa. 
 
Vislumbrou uma distopia de sinal invertido no tempo? Se houver dificuldade, vamos ao mais prosaico: tentemos uma ideia forte (**)de trás para frente. Ao seguirmos o exemplo de inversão lógica sugerido por Borges e Benjamin, topamos com realidades bem mais terrificantes que as nossas mais fantasmagóricas fantasias. Numa lista de genocídios, tente imaginar com precisão as ideias e micro contextos que as fundamentaram.
 
– Suicídios religiosos induzidos por quaisquer exemplos de fundamentalismo religioso assumido por Estados.
–  A Shoah judaica, a “solução final” do Estado nazista.
– As dezenas de milhões de mortos da segunda grande guerra: os assassinatos da população civil foram milhões de poloneses não judeus também, além de russos, homossexuais, comunistas e todo gênero de minorias.
– Os genocídios da grande fome e dos expurgos de Stalin, da Armênia, do Khmer Vermelho de Pol Pot, de Ruanda, as dizimações de populações autóctones da África e da América, pré e pós-colombiana. 
 
Por serem infinitos, os micro contextos privados de seus milhões de protagonistas são inomináveis. Há, ainda, muitos mais potenciais genocídios e protagonistas no presente. É quase impossível imagina-los. Por que? Borges raciocina sobre a imprecisão de situarmo-nos no tempo: “(…) uma  das  escolas  filosóficas  da  Índia  nega  o  presente,  por  considerá-lo inapreensível. “Ou a laranja está prestes a cair do galho, ou já está no chão”, afirmam esses simplificadores estranhos. “Ninguém a vê cair.””
 
Distópicos, os genocídios atuais e contínuos são uma realidade em curso de banalização: pugnam a religião e o credo associados a uma improvável raça, como se as houvesse na espécie humana, ou fosse mera condição física e não fruto de uma complexa cultura política perversa. 
 
Pelo nosso lado, não estamos imunes. Demoliu-se o melhor do teatro: o temor do desconhecido futuro. As pessoas que perdem totalmente o temor desconhecem a capacidade de entrar em crise a ponto de não terem mais nada a perder; um tal desespero faz  de cada um de nós possa ser uma causa e uma vitima do terror homologado pelo fanatismo.
 
Inquietante por seus infinitos pontos de vista, Hamlet nos envia, a propósito desse assunto, seu recado “utodistópico”:
 
“Ser ou não ser: Eis a questão. (…) Quem sofreria os relhos e a irrisão do mundo, o agravo do opressor, a afronta do orgulhoso, toda a lancinação do mal-prezado amor (…). Quando alcançasse a mais perfeita quitação com a ponta de um punhal?” (***)
 
 
(*) Francis Herbert Bradley (1846-1924), filosofo do idealismo britânico.
(***) Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos.
 

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