Papo com Paroni | Pensamento Frágil

Publicado em: 09/08/2016

Mauricio Paroni de Castro, especial para a SP Escola de Teatro
 
Estabelecer limites sobre o que chamo de ideia forte e pensamento frágil na comunicação dos dias de hoje é, para um artista, fundamental, se este quiser sair da improdutiva dicotomia ideológica “progressismo versus reacionário”.
 
Vamos logo ao cerne da questão.
 
O que seria uma ideia forte?
 
Um exemplo ótimo de ideia forte é o “não façais aos outros o que não quereis que vos façam”. Inventado por Jesus Cristo, é o centro da pietas que acabou com o racionalismo greco-romano; fez prevalecer o humanismo cristão, em particular o existencial, com ênfase em evitar o sofrimento sem causa para dar sentido ao sofrimento que é estar neste mundo, em si, para si, com si, para o outro, com o outro. Apesar do outro.
 
A metáfora subsequente foi o “Novo Testamento” e a intacta eficácia da arte que o divulgou, mesmo após dois milênios, das igrejas aos lençóis dos amantes, dos santos aos pecadores, da tradição da tragédia clássica antiga ao drama pós-moderno. Forte porque deitou as bases para dois mil anos de pensamento, História, dialética, modo de ser e estilo de vida de grande parte da humanidade ocidental. Dia após dia, pessoa após pessoa, década após década, século após século, grandes transformações de mentalidade como essa ocorrem silenciosamente, sem a ruptura das revoluções, embora sejam causa destas.
 
***
Falar de ideia forte, existências e mentalidades, remete-me a seu dialético antagônico, o pensamento frágil. Recém-diplomado pela Escola de Arte Dramática de Milão, na Itália, eu trabalhava como assistente de direção numa companhia de Turim; morava perto da universidade. Já que estava ali, bisbilhotava como ouvinte as aulas de Norberto Bobbio, que ensinava ali. Por puro acaso, topei com duas aulas sobre Gianni Vattimo, o professor catedrático que era uma grande sensação naquela escola, idealizador do conceito de pensamento frágil; de expor a intimidade que se fazia social. Não por acaso, era também o único político italiano que assumira publicamente a própria intimidade homossexual.
 
De propósito, vamos passear e macaquear por o que se escreve sobre aquele pensamento no meio mais condizente com a pós-modernidade (época que não sabe se definir): a mídia eletrônica.
 
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O “pensamento frágil” é uma forma pós-moderna de niilismo, que proclamou que Nietzsche e Heidegger causaram um curto-circuito no modo racionalista de filosofar. Acabaram com o “Eu penso que”, desenvolvido a partir da tradição ocidental do pensamento grego e pelos “ismos” criados pela visão judaico-cristã. Vai aí a listinha: racionalismo, empirismo, Kantismo, idealismo, positivismo, marxismo, historicismo, conservadorismo, tradicionalismo, e demais subsidiárias na moda como pragmatismo, positivismo lógico ou analítico, racionalismo crítico, estruturalismo, progressismo.
 
A contestação daqueles “ismos” deu importância enorme ao sujeito, tanto no nível ético como no do conhecimento. Gianni Vattimo, numa operação filológica sutil, redefine o Übermensch descrito por Nietszche como um “Superman”.
 
O Übermensch não é mais o tema forte do Cristianismo, aquele Homem dotado de livre-arbítrio, sempre capaz de escolher, sempre potencialmente culpado e sempre punível como pecador. O Superman assume, aceita e cria o seu destino, agindo sobre sua existência intima e frágil por meio de tudo o que acontece na natureza e na história. Daí o conceito de destino não como forte base sólida, fundação autoevidente, como o monolito de Parmênides da filosofia pré-socrática tradicional.
 
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Um momento. Se é fácil para todos ter-se ideia de quem foi Jesus Cristo, acreditando ou não, é bem mais difícil de se ter ideia de quem foi Parmênides de Eleia (Παρμενίδης ὁ Ἐλεάτης), que viveu na Grécia, entre 530 a 460 a.C., e deixou somente um poema filosófico como obra. Fala do que pode ser verdade ou mentira, das formas perfeitas que regem a realidade, ou do erro que rege a ilusão do mundo.
 
O poema, em fragmentos, chama-se “Sobre a Natureza e sua permanência”, e trata do caminho da verdade (alétheia) e do caminho da opinião (dóxa), ou seja, daquilo sobre o que não há nenhuma certeza. Dizia da Unidade e a imobilidade do Ser; que o mundo sensível é uma ilusão; que o ser é uno, eterno, não-gerado e imutável; que não se pode confiar no que se vê.
 
Vamos por simbologia: se Cristo traz uma cruz, Parmênides traz aquele monolito eterno e imutável que aparece no icônico filme “2001 uma odisseia no espaço”, de Stanley Kubrick. Invoca também um outro grande símbolo que é a música desse filme, o poema sinfônico de Richard Strauss “Assim Falou Zaratustra”, obra homônima à de Nietszche, posta ao final da presença onitemporal do monolito e da vida do astronauta herói da Odisseia espacial.
 
A imagem do deus eterno, onipotente, onipresente e onisciente dos hebreus não é prerrogativa somente cristã; está bem próxima da ideia de Parmênides. Se bem que – por isso mesmo – é exatamente antagônica àquela noção de benevolência central que tudo perdoa. 
 
Espero que essa digressão tenha provido o leitor de mais elementos para a compreensão dos pensamentos forte e fraco. Voltemos ao nosso passeio midiático eletrônico sobre Vattimo.
 
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Para Vattimo, o destino de “ser no mundo” é frágil e poroso, reinterpretável e reinterpretado. A necessidade absoluta do universo para Nietzsche, sujeito ao eterno retorno, é enfraquecida em Vattimo pela intersecção com o pensamento filosófico de Martin Heidegger.
 
Em “Ser e Tempo” (Sein und Zeit), Heidegger define a existência humana, ou seja, o estar lá (da-sein), como um planejamento específico por algo que é externo. Portanto, por circunstâncias externas do seu ser e existência. Por ser uma deriva aleatória e vagante, ideologias de grandes projetos históricos, como o marxismo e o cristianismo, seriam fundamentalmente inautênticas, pois a generalização externa fugiria da questão da impossibilidade de realização das suas finalidades.
 
Para Vattimo, a fragilidade do sujeito diante da existência do destino é a fragilidade de um ser poroso, contraditório, policêntrico, sem singularidade, abandonado a seu “destino sem destino”; é a fragilidade do próprio conhecimento sobre o mundo e suas vicissitudes. A sua sobrevivência só pode ser alcançada pela tolerância e pelo igualitarismo.
 
O pensamento frágil é uma negação do otimismo histórico eurocêntrico (como o iluminismo, o positivismo, o marxismo) por sua intolerância. Os pontos de vista e a intimidade dos indivíduos de civilizações diferentes têm direito a um determinado percurso histórico e/ou existencial. Em outras palavras: para “abandonar a ideia de uma racionalidade central da História”, o mundo da comunicação explode na multiplicidade de “racionalidades locais” – étnicas, sexuais, religiosas, culturais ou estéticas. Estas devem se manifestar sem serem silenciadas ou reprimidas pela ideia de que só há uma forma apta a perceber o mundo.
 
Mas isso tem um limite: não pode resvalar em fundamentalismos. Vattimo dirige aqui o seu pensamento em relação ao renascimento dos cultos religiosos, aos cultos vazios do “acreditar que acredita.” Rejeita o universalismo intolerante em qualquer crença religiosa e suas consequentes exigências radicais, como a pratica da perda do ser. 
 
***
 
Uma tal severidade com ideologias aguça violenta e salutarmente posições contrárias. O debate sobre o raciocínio frágil é muito delicado pelas implicações políticas que podem ser extrapoladas pelo enfraquecimento da razão e da concepção da história, ou melhor, pelo seu uso instrumental.
 
Até mesmo entre os filósofos pós-modernos o pensamento frágil é advertido por correr-se o risco de promover, direta ou indiretamente, a dissolução de alguns dos mitos sagrados da era moderna e acabar por jogar fora o bebê (o iluminismo libertário e a tolerância) com a água do banho (degenerações totalitárias).
 
A partir da visão que o pensamento frágil tem da interpretação dos fatos históricos, cada grupo político, social ou étnico pode reinterpretar e reescrever seu passado e redirecionar suas escolhas de ação e valores.
 
É grande a responsabilidade de pensar o futuro sem ajuda da ficção.
 
Bibliografia
 
Spinellii, Miguel. Filósofos Pré-Socráticos. Primeiros Mestres da Filosofia e da Ciência Grega. 2ª edição. Porto Alegre: Edipucrs, 2003, pp. 273-349.
 
Umberto Eco, Martin Heidegger, Friedrich Nietzsche, Richard Rorty, Mario Kopic.
 
Gianni Vattimo e Pier Aldo Rovatti, Il Pensiero Debole, Feltrinelli, 2010, Itália.
 
Nicola Abbagnano, Giovanni Fornero, Franco Restaino, Storia della filosofia, 1999 TEA, Itália.
 
Dario Antisani, Ragioni per il pensiero debole, em 1993, Borla, Italia .
 
Carlo Augusto Viano, Va ‘ pensiero, Torino: Einaudi, 1985.

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