Óscar Silva

Publicado em: 24/06/2013

Óscar Silva é ator, diretor e assistente da diretoria executiva da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco

Como surgiu o seu amor pelo teatro?
Não sei bem. Há quem diga que nunca tive amor por ele, o que em certa medida é verdade. Mas, quanto a isso, posso dizer que comecei a fazer teatro em 2001 e, a partir daí, sempre fui fazendo coisas com regularidade, sendo que a maior parte delas foi feita por “amor à camisola”. Mas amor pelo teatro… o teatro durante grande parte da minha vida foi sempre segunda opção porque desde cedo entendi que se a minha vida fosse pelo caminho teatral, eu iria me ferrar. Mas temos de tomar opções na vida, e quando chegou a hora de decidir, decidi o mais difícil… O teatro. E isto é amor, no mínimo.

Um espetáculo que mudou o seu modo de ver o teatro.
Quando os espetáculos são bons, eles alteram sempre o meu modo de ver o teatro. Já vi muita coisa boa, e não sei se consigo enumerar tudo o que vi e me fez questionar sobre o teatro. No entanto, a peça “Antítese, Anti-ética, Antibiótico” foi um trabalho que estilhaçou a minha visão em relação ao teatro, também porque fiz parte do seu processo criativo, no elenco. Mas tendo outros nomes como referência, o trabalho do Pipo del Bonno ou Philippe Quesne, ou mesmo Jerome Bel ou Alain Platel, na dança, colocam-me num patamar de entendimento muito interessante em relação ao teatro e à vida. No entanto, creio que o teatro está dentro de uma redoma que ele próprio construiu e isso o desgasta e o torna chato. Os espetáculos que mudam vidas são tão raros, que quando isso acontece ninguém acredita. Acredito que para mudarmos este panorama temos de ser mais duros com o Teatro, e deixarmos de alisá-lo como se ele fosse o papa. Atenção! Não afirmo aqui que devemos guerrear uns contra os outros. É importante não gostar de tudo, sempre, e muito menos defendermos o teatro como a “arte dos coitadinhos”. Seríamos muito mais corajosos se desmascarássemos o teatro. É por isso que o que mais me faz questionar sobre o teatro são as artes plásticas, o cinema, a dança, e tudo aquilo que está fora do teatro.

Um espetáculo que mudou a sua vida.
“Traumatheatre”. Mudou e ainda está mudando.

Você teve algum padrinho no teatro? Se sim, quem?
Tive e tenho. São Os Guerreiros e Bórgia, em Portugal; Rodolfo García Vásquez e Ivam Cabral, no Brasil.

Teatro ou cinema? Por quê?
Teatro. Porque é muito mais divertido observar as pessoas sofrendo. Quero dizer que, no teatro, entre o espetador e o ator existe, obviamente, uma relação humana. No cinema, é uma projeção de uma relação humana. E projeção aparece aqui num duplo sentido. Ora, como eu sou pela relação – trágica, de preferência – , mais do que pela projeção de uma relação, prefiro o teatro.

Qual dramaturgo brasileiro você mais admira? E estrangeiro? Explique.
Vou ser sincero: não conheço a dramaturgia brasileira muito bem. Consigo listar uns quantos nomes de dramaturgos brasileiros dos quais gosto, mas não me sinto preparado para poder destacar um como o que mais admiro. Seria até injusto. E quero aproveitar este espaço para expressar a minha angústia por não existir uma maior comunicação entre os países de língua portuguesa, o que faz com que pouco se conheça do Brasil em Portugal e vice-versa. Não quer dizer que ela não exista, só a classifico como fraca. A dramaturgia da língua portuguesa não está mapeada e muito menos consolidada, e isso faz com que os países se enclausurem em si mesmos. Prova disso é a controvérsia que existe em torno do acordo ortográfico. Fico sempre com a sensação de que poderíamos fazer mais pela língua portuguesa como patrimônio lusófono… se é que isso existe ou alguma vez existiu. Quanto ao dramaturgo estrangeiro… neste caso, poderia falar de um brasileiro (risos)…  

Qual companhia brasileira você mais admira?
Os Satyros
, pelo seu trabalho exímio para, e com, a sociedade, e por não terem o reconhecimento devido. Gosto do que a maior parte das pessoas não gosta.

Existe peça ruim ou o encenador é que se equivocou?
Existe peça ruim, existem equívocos dos encenadores e existem encenadores equivocados. No teatro há de tudo.

Como seria, onde se passaria e com quem seria o espetáculo dos seus sonhos?
Não posso dizer, senão me roubariam a ideia e ganhariam milhões com ela (risos).

Cite um cenário surpreendente.
“La triologie des dragons”, de Robert Lepage.

Cite uma iluminação surpreendente.
“La triologie des dragons”, de Robert Lepage.

Cite um ator que surpreendeu suas expectativas.
Alivise Camozzi, no espetáculo “O Feio”.

A ideia de que tudo é válido na arte cabe no teatro?
Tenho dúvidas de que tudo é válido na arte. Não sei se isso é bem assim. É preciso o artista ter uma certa validade para que algumas de suas coisas sejam válidas ou não. Não é chegar ali e fazer o que nos dá na telha. Muitas vezes ouço algo do gênero: “Cagar num copo e dizer que é arte, também eu faço”. Pois este é um tipo de pensamento com o qual eu não me relaciono, porque ele é totalmente exclusivo da possibilidade de cagar num copo e elevar a merda ao status de “obra de arte”. No teatro é exatamente a mesma coisa. Para alguns profissionais do teatro, é possível fazer coisas que para outros não é. Nós temos de saber filtrar as coisas e se eu achar que há limites, então, eu tenho que saber bem quais são esses limites, e escolher muito bem o que vou ver, para não ficar pregando sobre o que cabe ou não na arte e no teatro.

Na era da tecnologia, qual é o futuro do teatro?
O teatro tem o seu caminho e percorre-o de forma natural. Quando faço o exercício de imaginação sobre como será o teatro daqui a 150 anos, eu não consigo imaginar nada muito diferente daquilo que é hoje. Se compararmos o teatro com a ciência, notaremos que a evolução do teatro em 2 mil anos foi muito pouco significativa. Em 2 mil, anos a ciência (ou tecnologia, se quisermos) sofreu mudanças astronômicas, que alteraram inclusive com a condição humana: desde a física Aristotélica, a teoria heliocêntrica, a gravidade de Newton, a lâmpada de Thomas Edison, a máquina a vapor, a relatividade de Einstein, o bosão de Higgs (com toda a controvérsia que lhe cerca)… Muitas mudanças e descobertas que, de tão grandiosas, alteraram a percepção do ser humano. Talvez a mudança mais drástica que aconteceu na história do teatro está diretamente associada à tecnologia, com a invenção da luz elétrica. Por isso eu acho que as coisas caminham de forma dissociada e uma coisa não elimina a outra. Obviamente que, se formos espertos, podemos usar as descobertas da ciência no teatro e, com isso, trabalhar sobre novas linguagens, talvez. Mas daí a questionar-lhe o futuro… Acho demasiado exagero.

Em sua biblioteca não podem faltar quais peças de teatro?
Agora estou a ler a peça “Torquato Tasso”, de Goethe, mas não sou de me agarrar a um livro e tê-lo com indispensável da minha biblioteca. Não que eu dispense livros. Acho que ter um pouco dos gregos, um pouco de Shakespeare, um Pirandello, um Ionesco… etc são bons e importantes.

Cite um diretor (a), um autor (a) e um ator/atriz que você admira.
Atriz: Scarlett Johansson, sem margem de dúvidas. Autor: Homero. Diretor: Alain Platel (coreógrafo).

Uma pergunta para William Shakespeare, Nelson Rodrigues, Bertold Brecht ou algum outro autor ou personalidade teatral que você admire.
Caros Bertolt Brecht e Antonin Artaud, quantas voltas já deram nos seus caixões por serem mal interpretados?

O teatro está vivo?
Agora, não. O teatro só está vivo quando ele acontece, e fico assustado quando afirmamos que o teatro está sempre vivo, como se estivéssemos tratando da militância “O teatro está mais vivo que uma alface”. O teatro é uma arte condenada a morrer e não há nada a fazer para o salvar. Falar de teatro é falar de morte e a única maneira de o manter vivo é fazer. É nesse ato performativo que o teatro se assume como vivo, de tal modo que a única coisa que ele nos deixa é a memória. É esta a natureza do homem: vivemos, morremos e deixamos memórias, e é por tudo isto que o teatro é um lugar único e ambíguo. Há que saber estar nesse lugar.

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