Os fantasmas do nosso passado

Publicado em: 10/09/2013

A simbologia em torno do conceito de fantasma vai muito além da aparição de uma pessoa morta aos olhos dos vivos e pode ganhar diversos contornos e interpretações. Esse conceito está no cerne da residência artística que o dramaturgo e encenador de origem amazonense Francisco Carlos faz atualmente na SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco.

 

O projeto, que compreende um ciclo de seis conferências e a própria residência, servirá como base para a montagem de uma peça teatral, intitulada “Sonata fantasma bandeirante”.

 

Ontem (9) à noite, na Sede Roosevelt da Instituição, foi realizada a primeira conferência que integra o ciclo. Nela, a Profª. Drª. Ingrid Koudela falou sobre o tema “Vultos fantasmagóricos na poética teatral de Heiner Müller”. O encontro também contou com a participação de Danilo Silva Guimarães, professor doutor do Departamento de Psicologia Experimental do Instituto de Psicologia da USP, parceiro de Francisco Carlos no projeto.

 

Guimarães, Ingrid e Francisco durante a conferência (Foto: André Stéfano)

 

Guimarães abriu a palestra, falando sobre a natureza do projeto e os seus objetivos. Segundo ele, existem duas noções que norteiam o trabalho: a de memória, como “processo semiótico cultural que diz respeito ao nosso posicionamento no mundo”, e a de alteridade, que ao colocar-nos em relação com o outro desconstrói nossos preconceitos. 

 

Tomando como material a mitologia indígena, misturar linguagens em um cruzamento entre a linhagem indígena e o sertanismo bandeirante é uma das principais propostas do projeto, que de acordo com Guimarães “promove o encontro entre as culturas constitutivas do que somos e de como pensamos o mundo”.

 

Indrid Koudela passou, então, a falar sobre a presença de fantasmas na obra de Heiner Müller. “Ele acreditava que a história no teatro deveria vir com a simultaneidade entre passado, presente e futuro. Só assim a história se tornaria visível. Assim, é preciso desenterrar os fantasmas, porque eles farão diferença no futuro”, comentou.

 

Na sequência da fala dos convidados, foi realizada uma leitura cênica – ou ação cênica, como Francisco Carlos preferiu chamar – da peça “Vida de Gundling. Frederico de Prússia Sono Sonho Grito de Lessing”, de Heiner Müller, uma tradução inédita de Ingrid Koudela. 

 

No elenco, estavam André Hendges, Daniel Morozetti, Hélio Toste, Hércules Morais, Lu Vitti, Majeca Angelucci, Mauro Schames, Ondina Claiss Castilho, Paulo Gaeta, Ricardo Nash e Thiago Brito. 

 

Parte do elenco na ação cênica (Foto: André Stéfano)

 

A peça trata sobre Gotthold Ephraim Lessing, poeta, dramaturgo e filósofo alemão do século 18, considerado um dos maiores expoentes do Iluminismo. Lessing é um fantasma, assim como as demais personagens da obra, que, segundo a tradutora, tem dimensão autobiográfica.

 

A continuação do ciclo de conferências se dá no sábado (14), das 12h30 às 14h30, com duas palestras: Katia Maria Abud falando sobre “O bandeirante como representação da entidade paulista e o bandeirismo de apresamento e escravização indígena. Do seiscentos (século 17) à Chicago – SP do século 20. Símbolos e críticas”, e Emerson Oliveira sobre o tema “Ensino da história e cultura indígena em todas as escolas do Brasil, segundo o ponto de vista dos índios”.

 

Os encontros prosseguem nos dias 16, 23, 28 e 30 de setembro, acontecendo sempre na Sede Roosevelt da Escola, com entrada gratuita e aberta ao público.

 

Serviço

Ciclo de Palestras:

Dia 14 de setembro, das 12h30 às 14h30

Katia Maria Abud | O bandeirante como representação da entidade paulista e o bandeirismo de apresamento e escravização indígena. Do seiscentos (século 17) à Chicago – SP do século 20. Símbolos e críticas.

 

Emerson Oliveira | Ensino da história e cultura indígena em todas as escolas do Brasil, segundo o ponto de vista dos índios.

 

Dia 16 de setembro, das 19h30 às 22h30

Spensy Pimentel | A palavra-ação sagrada: a voz política e os movimentos coletivos Guarani. Cosmopolítica indígena.

 

Eloisa Leão | Performance vocal.

 

Dia 23 de setembro, das 19h30 às 22h30

Maria Inês Ladeira | Territórios, terra, mundo, espaço, migrações (mobilidade), míticas e o modo de ser Guarani.

 

Clissia Morais | Direção de arte em cinema e teatro indígena.

 

Dia 28 de setembro, das 12h30 às 14h30

Peter Pál Pelbart | Pensamentos e poéticas nômades e migrantes.

 

Dia 30 de setembro, das 19h30 às 22h30

Gianni Puzzo e Melina Bertholdo | Exibição do filme “Yvy Rupa – a terra é uma só! Visões Guarani da história da América”, de Jera Guarani e Gianni Puzzo, seguido por debate com os autores. 

 

Onde: SP Escola de Teatro – Sede Roosevelt

Praça Roosevelt, 210 – Consolação

Tel. (11) 3775-8600

Grátis

 

 

Texto: Felipe Del

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