Olhar

Publicado em: 09/10/2013

* Texto publicado por Alberto Guzik em seu blog, no dia 09/02/2008

 

chego ao itaúcultural. norma bengell está no café, tomando uma coca zero. ela me chama. está nervosíssima com a estréia. como eu também. conversamos sobre esse nervosismo, que não passa nem com décadas de experiência e idade. é condição permanente do ator. lembro de trabalhos antológicos que vi com norma no cinema e que me deixaram pasmo pelo que tinham de intenso, de profundo. “o pagador de promessas”, do anselmo duarte, “crônica da casa assassinada”, do paulo césar sarraceni. ou saraceni. nunca sei. a nina que ela fazia no filme do sar(r)aceni era abissal. lembro que não gostei muito do filme. mas amei o desempenho da norma e do carlos kroeber, o carlão, ator mineiro que já morreu, e que fazia no filme uma bichona imponente e louca. lembro da expressão da norma, alguma coisa entre a perplexidade e o desespero, mas tudo contido, entre ameaças de sorriso, provocações. pergunto a ela onde foi buscar aquele olhar. e norma me olha, linda como é, e diz com a maior sinceridade: “não sei”. e não sabe mesmo. engraçado que o ator nunca sabe. busca, procura, pesquisa, mas se precisasse detalhar passo a passo como chegou a um determinado gesto, como conquistou uma expressão, não conseguiria. o ator sabe atingir as emoções de que precisa. mas onde elas estão, quais experiências o levaram até lá, tudo isso pertence ao terreno do não-racional, do intuitivo. é um território sagrado sobre o qual não se pode falar. na verdade não se tem o que falar. estão ali o ator, sua sensibilidade, o personagem. e quando os canais certos estão abertos o encontro se dá. norma está sendo absolutamente verdadeira quando diz “não sei”. diz ela que está tendo aulas de teatro conosco. não percebe que é ela quem está nos dando aulas e exemplos. sua clessi é cheia de nuances,de pequenos gestos, de intenções. tudo foi intensamente buscado, ensaiado, e cada mudança de intenção leva-a a pedir permissão ao rodolfo pra dizer tal coisa assim, e não assim. é lindo isso. e agora tchau. vou pro teatro mais uma vez. fazer “vestido de noiva”. mas antes tenho que comprar pó compacto e demaquilante, que os meus acabaram. fui.

 

Reunião do elenco de “Vestido de noiva”, peça que teve participação especial de Norma Bengell

 

 

 

Veja também:

“Norma, doce Norma”, por Ivam Cabral 

“Vou me lembrar disso pra sempre”, por Cléo De Páris

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