O Puro Creme do Ar

Publicado em: 04/05/2012

Um grupo de pessoas vestidas de preto e com máscaras de ar caminha por uma avenida movimentada do Brás. Nas costas, carregam filtros de ar de caminhão presos em alças de mochilas e nas mãos garrafas vazias rotuladas de “Ar Puro. Quanto Vale?”. Ao som ritmado de um megafone, eles seguem pela calçada como um exército, em silêncio. Na rua, ainda úmida pela recente garoa, os passantes não ficam indiferentes. Mulheres arrastando sacolas imensas esbarram nas figuras e param para olhar. Donos de lojas seguem a fila com o olhar e, enquanto isso, os vendedores ambulantes calam seus anúncios por um momento e observam concentrados. Seja por curiosidade ou qualquer outra coisa, àquela hora não adiantava gritar “água gelada, um real!”, porque ninguém iria perceber. Por um pouco, o tempo parecia ter parado.

 

Intervenção “Você me Deixa sem Ar” (Foto: Arquivo SP Escola de Teatro)

“O que está acontecendo?”

Um senhor chamado Leonildo rompeu essa bolha e decidiu perseguir o bando. O morador estava a caminho do trabalho e entre comentários e sugestões ele repetia “Porque vocês não chamam o Groisman para ver ? Ele vai gostar disso…”.

O grupo caminhou mais alguns metros até chegar a um cruzamento. Nesse ponto, celulares sobrevoavam as cabeças buscando espaço para registrar o momento. O farol fica vermelho. A onda de soldados negros toma a faixa de pedestres, alguns se espalham entre os carros parados segurando as garrafas com ar. Uma faixa aberta com os dizeres “você me deixa sem ar” é estendida à frente dos automóveis e a frase cantada pela garota que segura o megafone.

A cada abrir-fechar do farol, eles vão para a outra faixa e trocam de ações. Dona Valdete encostou ao lado com o filho para observar enquanto afirmava: “Não existe mais espaço para carros, precisamos de metrô e de ar puro”.

E foi assim que os bolsistas do Programa Kairós da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco foram às ruas experimentar suas primeiras ideias para o projeto São Paulo com Arte. Sob o tema “Sustentabilidade”, o Módulo Azul foi orientado pelo ator, diretor e dramaturgo Roberto Audio, que acredita que eles já colheram boas reflexões. “Eles foram bastante ágeis e se organizaram bem no espaço. A atitude de enfrentamento fez diferença e mudou a relação com o lugar e as pessoas”, explica.

O próximo passo agora é juntar o grupo para avaliar a ação, repensar ideias que funcionaram e receber novas propostas para as próximas intervenções. O Módulo Verde se prepara para uma ação em que vão pintar os postes de uma rua com desenhos de folhas moldadas com chapas de raio-X. 

 

 

Texto: Leandro Nunes

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