O primeiro nu frontal a gente não esquece

Publicado em: 16/07/2013



Ítala Nandi, ao centro, momentos antes da cena do estupro, em “Na selva das cidades” (1969), do repertório do Teatro Oficina (Fotos: Arquivo)

 

Ir hoje ao teatro e se deparar com uma cena de nudez já não assusta mais ninguém. Mas, na verdade, vai longe o ano em que o palco recebeu seu primeiro nu frontal. Ele foi protagonizado em 1969, no revolucionário Teatro Oficina, de José Celso Martinez Corrêa, pela atriz Ítala Nandi, na peça “Na selva das cidades”, de Bertolt Brecht.

Na verdade, a montagem foi a última criação do Teatro Oficina, em que atuaram os principais integrantes do grupo e traz, em seu próprio processo de elaboração, a profunda crise que atravessa o País e a equipe artística.

Em meio a um Brasil dominado por uma ditadura repressiva, após o decreto do Ato Institucional nº 5 e com a luta armada trazendo a violência para as principais capitais e São Paulo, “Na selva das cidades” chega com a missão de conciliar contradições artísticas existentes no próprio grupo, entre os “representativos” (antigos fundadores e detentores dos rumos da equipe) e o “coro” (jovens oriundos da montagem “Roda Viva”, sem voz nas decisões).

A encenação pede uma  total remodelagem do espaço físico do Oficina, conduzida pela arquiteta, cenógrafa e figurinista Lina Bo Bardi. As cadeiras são retiradas e o palco giratório, desmontado, dando lugar a um espaço amplo, cujo centro é ocupado por um ringue de boxe. Nessa plataforma elevada ocorre a maioria das cenas. A peça chega a ter cinco horas de duração no período de ensaios, motivando o desejo de encená-la em capítulos diários. Mas é compactada para cerca de três horas de espetáculo. A violência, tema do texto, atravessa toda a encenação. Razão pela qual, ao final de cada cena – denominada round – os adereços e elementos cenográficos em cima do ringue são estraçalhados pelos atores, ao grito de: “Quebra!!”.

A peça é ambientada numa fictícia Chicago americana, onde uma família de emigrados tenta sobreviver. O jovem Garga (Renato Borghi) torna-se empregado de uma livraria e vai experimentar um insólito desafio: o de vender sua opinião para o poderoso malaio Schlink (Othon Bastos), controlador da prostituição e do tráfico locais. Isso abre a guerra entre os dois, que atravessa toda a trama. Ambos são caçados pela polícia e o texto explora todas as etapas da desarticulação da família Garga. A irmã Maria (ítala Nandi), estuprada pelos capangas do malaio, se entrega à prostituição, caminho que também a namorada de Garga trilhará. Os pais, reduzidos quase a objetos, chafurdam no lixo à cata de comida. Fernando Peixoto encarna um dos capangas, sendo os demais papéis distribuídos entre os elementos do “coro”. Uma faixa onde se lê “São Paulo, a cidade que se humaniza”, pende do teto, criando a conexão com os fatos apresentados.

Apresentada na capital paulista e no Rio de Janeiro, “Na selva das cidades” tem sua carreira interrompida em Belo Horizonte, com um significativo incidente. Na cena da curra, quando os capangas giram Ítala Nandi completamente nua, ela é lançada a metros de distância sobre a plateia, sofrendo escoriações em todo o corpo. O incidente encerra a temporada e marca o aguçamento da crise de um elenco que já não pode mais contracenar…

(Fonte: Enciclopédia de Teatro Brasileiro do Itaú Cultural)

  

Texto: Esther Chaya Levenstein

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