O futuro só ao futuro pertence

Publicado em: 19/07/2013

MARICI SALOMÃO
Especial para a SP Escola de Teatro

Geralmente demoro um tempo para ver um filme que está bombando. Evito filas, excesso de gente (geralmente mal educada e ruidosa) – (sim, estou já dando vazão à chegada dos meus 50…), comoções da moda etc. Logo, só fui assistir a “Amor” (Amour), do genial Michael Haneke meses depois do furor em São Paulo. Ainda por cima, confesso, preferi ver em vídeo, no velho e delicioso sofazinho marrom da sala. Ali, recebi um choque de apuro estético, força narrativa, economia nas interpretações, urgência temática.

Mas o melhor estava por vir. Aquele final não se harmonizava com o que tinha fruído até então. Burrice minha? Falta de sensibilidade? A essa altura eu já estava sentada no sofá, com as mãos nos joelhos, tentando compreender algo mais do que até então se mostrava a mim. Aquele final, não, não tinha nada a ver com as pistas que o filme tinha me fornecido. Lembrava-me dos amigos e colegas palpitando que aquele final era o suicídio dele, também. Mas, ok, alguém que se suicida, e cujo espírito vem à tona, precisa ter seus chinelos e roupão frisados? Precisa ter aquele quartinho sublinhado? Não, tinha alguma coisa errada com a minha compreensão.

Maluca que sou por narrativa (quer dizer, um pouco mais do que isso, sou uma estudiosa, também) e ciente de que qualquer ótimo roteirista ou dramaturgo não faz do seu final senão uma espécie de retorno geométrico ao início, voltei o DVD. Uma, duas, três vezes, para o acontecimento e a conversa que seguem, entre o casal ao entrar em casa, depois do recital de piano:

1.       1. Uma tentativa de arrombamento da porta de entrada do apartamento;

2.       2. Um comentário dela sobre os quadros de uma amiga que foram roubados sem as molduras;

3.       3. Um desejo dele de continuar bebendo;

4.       4. Ela dizendo a ele: fique à vontade para continuar bebendo (numa alusão de que ela iria dormir);

5.       5. Troca de roupas dele sob o nosso olhar – roupão e chinelos;

6.       6. Comentário sobre o pavor que uma invasão ao apartamento causaria neles.

Talvez haja mais detalhes nesse início, mas esses seis me chamaram a atenção. E no decorrer do filme tudo tão inebriantemente aterrador, distante, quase insuportavelmente irreal (e, paradoxalmente, tão transbordantemente real), e aquele assassinato súbito, ele caminhando pelo corredor no escuro – goteiras no corredor? –, aquela pomba invadindo o espaço, policiais invadindo o espaço, imagens em close dos quadros sem as respectivas molduras, e aquele final estranho, uma torneira novamente sendo aberta, ela impassivelmente normal, ele cansado, mas impassivelmente normal. E aí ambos vestindo suas roupas quentes para sair de casa para…? Comprar um CD? Avisar o porteiro da tentativa de arrombamento? Costumam tomar o café da manhã fora? Depois, a filha chegando para visitar os pais (claro, ela tem a chave de casa, como eu naturalmente tenho a chave da casa de meu pai)…

Tempo depois de rever e rever o início, o insight: tudo foi um pesadelo, ou desvario/devaneio/delírio. Ele bebe mais um pouco no quarto ao lado (comum os casais franceses dormirem separadamente) e acorda meio ressacado no dia seguinte. Um golpezinho de enredo? A mim, não. O diretor quis mostrar MUITO mais do que isso:

A mim, Haneke oferece o ponto de vista do pesadelo ou delírio para nos mostrar que a imaginação pode ser sempre muito mais atroz do que a própria realidade. Pensar no que pode acontecer comigo, no futuro, ou com meus familares e amigos (incluindo a cachorra), nunca é o que realmente vai acontecer. Ou melhor, não necessariamente. Imaginar ou sonhar com o pior é sempre apenas “imaginar ou sonhar com o pior”. Claro, o filme é muito mais um golpe sobre nossas emoções do que um artifício de narrativa (embora esse jogo de pistas seja o máximo).  A tal ponto o personagem do filme exemplifica isso que seu olhar intrigado ao ver a mulher do mesmo modo como se despediu dela na noite anterior (inclusive dizendo que ela estava bonita, quando voltaram para casa) é como dizer a si mesmo: eu vivi tudo isso mesmo num outro plano, que não o da realidade imediata? Com o filme, reforçou-se o sentimento em mim de não tentar dar ao futuro a cara que ele não tem. O futuro só ao futuro pertence.

E.T.: E o que são as interpretações de JEAN-LOUIS TRINTIGNANT e EMMANUELLE RIVA? Que grandeza o cinema poder proporcionar papéis dessa envergadura a atores octogenários.

MARICI SALOMÃO é jornalista, dramaturga e coordenadora do curso regular de Dramaturgia da SP Escola de Teatro e do Núcleo de Dramaturgia SESI-British Council.

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