Maria Della Costa por Maurício Paroni de Castro

Publicado em: 26/01/2015

Maria Della Costa (Foto: Reprodução)

 

* Texto escrito pelo dramaturgo, diretor e coordenador da Biblioteca da SP Escola de Teatro, Maurício Paroni de Castro, para a Folha de S.Paulo 

 

“Eu não acredito em vocês. (…) O que está acontecendo aqui? (…) Eu não sei o que vocês são. Eu vou entrar no mar e vou chorar tudo o que eu tenho de chorar por vocês e por mim. Eu tenho esse direito. (Desaparece no fundo em direção ao mar. Silêncio)”

 

A fala final da peça que dirigi em 1992, “Típico romântico”, de Otavio Frias Filho, diretor de Redação da Folha, foram as últimas palavras de Maria Della Costa ditas num palco. Jamais entenderam a verdade que ela dizia ali.

 

Ela não agia como personagem. Sentia-se sozinha, pois seu público já não ia mais a teatro, temeroso da violência antissocial assenhorada em nossa cidade.

 

Era logo depois do impeachment de Collor. Desconfiada dos jargões dos falsos esquerdistas, dos fascistoides de sempre, gostava de falar disso depois dos ensaios, aos quais chegava pontualmente, com texto decorado, dicção impecável.

 

Sorria, feliz por voltar ao palco. Sofria muito ao ver Sandro Polloni, seu marido, quieto na plateia: onde estava o grito “bravo, Maria!”?

 

Em atitude de rainha, ensinava tudo o que sabia – não era pouco – a colegas em início de carreira; fazia projetos que sabia não poder realizar: seja pela situação acre a qualquer teatro que vive de seu público, seja pelo grave prognóstico de saúde de Sandro.

 

A história deles era um triângulo indissolúvel: o teatro era o amante. Seus diálogos traziam intensos silêncios que os dois se divertiam a decifrar para mim no infalível jantar que seguia o trabalho.

 

Nenhum subtexto poderia substituir a verdade de suas últimas réplicas. Não se despediu com a dramaticidade de Cacilda, com o sorriso leonino de Tônia ou com o silêncio de Berta Zemel. Escolheu a elegância de um auge pirandelliano e melancólico.

 

Dois anos depois, diante de um risoto milanês com Sandro, Maria e o diretor Gianni Ratto, senti na alma o quanto todos sofriam com o pouco caso que se passou a dar ao palco, com o desrespeito ao artesanato, à disciplina e ao humor. Trabalhar num ensaio era como ter uma boa companhia à mesa.

 

“Típico romântico” narrava, na verdade, a futura viuvez de Maria: a cenografia inicial – fotos de uma mesa de jantar suspensa – desaparecia lentamente no alto do palco.

 

Exatamente como na realidade.

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