Luz! Luz! Luz! por Cadu Witter

Publicado em: 03/05/2012

O ator e professor de teatro Cadu Witter acompanhou o segundo Experimento do Módulo Azul da SP Escola de Teatro  – Centro de Formação das Artes do Palco, no último sábado (28), e relatou suas impressões sobre cada um dos oito núcleos. Veja abaixo suas palavras sobre os grupos 5 e 6.
 

 

Vários grupos haviam sido divididos por cores. Alguns atores aglomeram-se diante de nós em busca de luz. Há um jogo bem-humorado que se revela nessa busca, pelo qual os atores necessitam da luz e a buscam no refletor a pino que estiver aceso. Disputam-na, desejam-na, clamam a ela por algo que desconhecemos.

 

Cristiano Oliveira, do núcleo 5 (Foto: André Stefano)

Figurinos ricos, ambiente interessante, atores presentes no aqui e no agora nos hipnotizam com suas sedes, sendo a mais óbvia pela luz, que naquele instante se apaga por completo! Atrás, ao centro, um lugar é revelado! Tudo é bem cuidado e cria-se uma atmosfera que instiga o desvendar dos vários ambientes que podemos ver, todos criados a partir da luz e por ela delimitados. Essa magia de penetrar no desconhecido é quebrada pelos guias da exposição, que reúnem os grupos em torno das pequenas cenas desenhadas com luz. Eles irão nos conduzir por cada uma das instalações até a última, no sentido anti-horário.

Coelho! Coelho! Coelho… Não! É uma borboleta. Borboleta, não!

O coelho, conhecido pela rapidez e símbolo de fertilização, e a borboleta, imagem da beleza e do renascimento, estavam presentes em quase tudo. As apreciações de cada instalação eram rápidas, mas férteis, e as belas imagens instigavam o germinar de novas ideias.

Bolinhas que brilham e acendem. Muitos lápis. Um balde de água. Você já ajudou alguém hoje? E já matou alguém hoje? A lâmpada acende e vai apagando lentamente na mão do ator. Vejo um cu!

Sede pela descoberta, pelo prazer, por água, por morte. De instalação em instalação visitamos reinos sedentos por algo, mas nunca por alguém, que interagem e instigam e por vezes até convidam.

Mas por que tão rápido? Seria por causa do coelho? Ou é isso que fazemos com nossos desejos? Será que os conduzimos com tamanha rapidez que nem sequer notamos que tivemos a chance de não realizá-los? Não fertilizamos nada, ou quase nada… E aí é que entra a borboleta. Sim, a beleza do pouco que tivemos pode nos bastar? Mas o fundamental é que ela veio da lagarta, assim podemos nos transformar e ter a chance de não fazer de novo.

Então, somos conduzidos novamente ao salão de entrada e lá esperamos por mais luz enquanto sofremos com a busca dos atores no mesmo jogo inicial, tentando roubar pra si a luz do refletor.

Saio com minha mente a mil! Enquanto caminho, não tenho o que anotar, ficam apenas as sensações.

No próximo experimento ouço “sensatez”. Aqui é um lugar bem mais escuro.

Um caminho feito com jornal diz por onde posso passar e ficar. Garrafas no chão são utilizadas como xilofone. Um quadrado desenhado no chão propõe um jogo que não existiu. Escuridão.

 

Fabíola Nabbout, do núcleo 6 (Foto: André Stefano)

Dois projetores, um fixo e outro móvel, nos dizem: estrela, saber, passos, queda.

As atrizes se movem livremente pelo espaço onde estão desenhadas as linhas. Há um desenho vocal muito interessante, sai do particular, beira o histerismo e termina por produzir uma engrenagem sonora. A voz atinge lugares que a imagem não alcança! Mas imagem é tudo?

Não há zona de conforto pra quem está em cena, há confronto. Um confronto velado consigo mesmo e com o espaço sonoro disputado com os outros que também estão falando.

Para mim também foi desconfortável. Não consigo aquietar minha atenção, meu olhar. Acho que eu ainda buscava alguma luz.

Porque é muito mais fácil se locomover no claro, se ver na luz. A escuridão nos obriga um outro olhar, uma busca pelas coisas que não estão ou são óbvias em nós. É um caminho que não estamos habituados a fazer, um percurso que no mínimo nos causa inquietude.

É a inquietude da alma que nos leva a uma outra reflexão, que não consigo reproduzir, mas que encontro numa conversa com minha amiga Moira Toledo que me traz uma  história que escolho para terminar este artigo, tentando trazer um pouco do que me aconteceu naquele dia:

“Discípulo:O que devo fazer?
Mestre: Tem que aprender a esperar.
Discípulo: Como se aprende a esperar?
Mestre: Desaprendendo-se de si mesmo, deixando para trás tudo o que se tem e o que é, de modo que do senhor nada restará, a não ser a tensão sem nenhuma emoção.
Discípulo: Quer dizer que devo, intencionalmente, perder a intenção?
Mestre: Confesso que jamais um aluno me fez tal pergunta, de maneira que não sei respondê-la de imediato.”
(HERRIGEL, Lo Zen e il tiro con l’arco, 1991, p. 43)

 

 

Veja a opinião de Cadu Witter sobre os outros núcleos do Experimento:


A Performatividade e seu Rastro por Cadu Witter

A Performance e a Magia por Cadu Witter

Meu Reino por um Pote de Baunilha por Cadu Witter

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