Intercâmbio em Cabo Verde: explorando a musicalidade do arquipélago africano

Publicado em: 18/11/2014

Os laços culturais entre Brasil e um país insular africano que também adota o português como idioma oficial têm se estreitado cada vez mais. Este país é Cabo Verde, um arquipélago na região central do Oceano Atlântico, composto por dez pequenas ilhas vulcânicas. 

 

Estimular trocas artísticas e culturais potentes com os carismáticos cabo-verdianos  é missão da SP Escola de Teatro já há alguns anos. Essa aproximação se concretiza de diferentes formas, dentre as quais destacam-se parcerias em eventos e intercâmbios, como o que foi lançado em maio deste ano, destinado a aprendizes atuais ou egressos da Escola, preferencialmente do curso de Sonoplastia.

 

Promovido com o apoio da Associação Artística e Cultural de Mindelo (Mindelact), o intercâmbio tinha como objetivo proporcionar uma pesquisa na área de sonoplastia. Mais especificamente, fazer um mapeamento sonoro no país, em que o intercambista se debruçaria sobre as diversas sonoridades cabo-verdianas – como música, musicalidade da língua, sonoridade dos lugares, etc.

 

Depois de um processo seletivo com os interessados na oportunidade, Renato Navarro foi escolhido. Aprendiz egresso de Sonoplastia, ele enviou um projeto de pesquisa que tinha como recorte o contemporâneo e a aculturação no país. O ponto de partida era a música tradicional, mas a ideia era investigar a sonoridade da música e do idioma crioulo – idioma de base portuguesa que é a língua materna da grande maioria dos cabo-verdianos – atualmente, por meio das novas misturas dos ritmos e temas tradicionais com a influência de outras estéticas musicais e discursos, como o pop, o metal e a cultura hip hop.

 

“A ideia de abordagem e formato de coleta do material partiu inicialmente de uma prática de aula que tive na Escola, orientada por Eugenio Lima, em que fizemos uma cartografia sonora do bairro do Brás, através da gravação de entrevistas e sonoridades dentro da tradicional feira boliviana da rua Coimbra”, ele comenta. “Essa experiência somada à influência dos filmes de Fermín Muguruza (cineasta e produtor musical basco) me inspiraram a não apenas gravar sons de performances musicais e entrevistas, mas a mostrar também com imagens os rostos, as histórias, os toques dos ritmos, as formas dos instrumentos.”

 

Oficina de dramaturgia sonora

 

Durante dois meses e meio, do início de agosto até meados de outubro, ele maturou essas pesquisas no arquipélago. E afirma: Cabo Verde é um país profundamente musical no seu dia a dia, sendo comum encontrar desde cafés com música ao vivo, até apresentações de dança no meio da rua em plena segunda-feira.

 

Ele descobriu que a forte relação entre as sonoridades e a identidade desse povo é potencializada pelo fato de o crioulo cabo-verdiano ser transmitido apenas pela tradição oral. Assim, ritmos contagiantes como morna, coladeira, sanjon, batuque, tabanca e funaná refletem, cada um a seu modo, o jeito do crioulo.

 

“Conversando com Tito Paris (um dos mais conhecidos músicos, compositores e cantores cabo-verdianos) sobre essa identidade crioula, ele me disse: ‘Alguma vez viu uma crioula bonita a sorrir? Isso é morna. Se viu um pescador aqui no mar com a rede a pescar; isso também é música. Se viu um cabo-verdiano muito contente, alegre, aqui a passar na rua; isso é uma coladeira’”, diz o intercambista.

 

Além de conduzir o projeto de pesquisa, Renato ministrou oficinas de trilha sonora para teatro e cinema, compartilhando os conhecimentos que acumulou com sua formação em Sonoplastia e em sua experiência profissional como técnico de áudio e produtor musical. 

 

Ao todo foram três oficinas. Uma na ilha de Santo Antão, apresentando os fundamentos básicos de áudio, e duas na ilha de São Vicente – uma de foley art, realizada como parte do Festival Internacional de Teatro do Mindelo, o Mindelact; outra, de dramaturgia sonora, realizada no Centro Cultural Português em Mindelo, e organizada pelo diretor do centro, João Branco (que também assina uma coluna no portal da Escola).

 

Renato conta que todas as oficinas tiveram grande adesão e interesse dos participantes: “Pude perceber, pela interação e pelo debate durante os momentos mais expositivos, e pela dedicação durante as atividades práticas, que há um grande potencial a ser desenvolvido na área de Sonoplastia em Cabo Verde. Apesar de alguns espetáculos com que tive contato terem um trabalho sólido quanto à trilha sonora, vejo que o papel da música na cena ali tem um caminho pela frente para evoluir ainda mais”.

 

De volta a São Paulo, o aprendiz está editando o material gravado, que deverá se transformar em documentário no início de 2015. Ainda neste ano, ele apresentará na Escola um teaser com trechos das filmagens e um relatório analítico da pesquisa. Além disso, irá complementar o recém-criado módulo Prata fazendo a trilha sonora original para o espetáculo “A confissão de um masoquista (ou Labirinto do mundo e o paraíso do chicote)”, que será apresentado no final de dezembro e é fruto de outro intercâmbio da Escola, este com a Polônia.

 

E, claro, o aprendizado não acaba nunca. “Sigo refletindo sobre o tanto que cresci nesses dois meses e meio, tanto profissionalmente quanto pessoalmente. Foram lições diárias de respeito e paixão pela própria cultura e pelo próprio povo, sempre contando com acolhimento e generosidade ao estrangeiro. Tenho diversos motivos para voltar a Cabo Verde, desde rever os amigos e minha família cabo-verdiana até continuar com minha pesquisa pelas demais ilhas que não pude conhecer. Na primeira oportunidade que aparecer, volto voando”, arremata.

 

Texto: Felipe Del

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