Experimento do Módulo Vermelho por Tânia Pires

Publicado em: 02/12/2013

A parresiasta

* por Tânia Pires, especial para o portal da SP Escola de Teatro 

 

“Eu gostaria de deixar ver meus pensamentos, em vez de traduzi-los pela linguagem. (…) Acima de tudo, eu gostaria de te fazer compreender que tudo que me acontecer de dizer, eu o penso, e não apenas penso, mas amo. (…) O essencial é dizer o que se pensa, pensar o que se diz; fazer com que a linguagem esteja de acordo com a conduta.” (FOUCAULT, 2001a, p.384-385)

 

Me foi confiado escrever sobre o experimento vivenciado por mim durante três intensos dias do módulo Vermelho da SP Escola de Teatro, tendo os aprendizes autonomia para trabalhar a proposição da parresia como ponto de partida para seus experimentos. Como espectadora exercitei olhar, sentir e escrever como uma “parresiasta”.

 

Muito ouvi sobre a dificuldade de trazer a parresia para o teatro, já que cabe a nós atores, anos de estudo e prática para tornarmos verossímil algo que não é real. Mas o palco, nada mais é que uma arena de provocação, reflexão e de interpor verdades sem medo de correr riscos. Diante dessa crença, me atrevo a dizer que o teatro é o templo da parresia. 

 

Agora, depois acompanhar oito núcleos, chegou a minha hora de ser um aprendiz nesse experimento. 

 

Núcleo 1 (Foto: Cristiane Camelo)

 

Meu primeiro contato foi com o Núcleo 1, “Bonecas Russas”, com atores espalhados em cadeiras pelo palco. Um rapaz entra com um microfone, que depois compreendi que era o dramaturgo, narrando um texto onde não se compreendia as palavras ditas. Na sequência se inicia a narrativa dos atores em um coro que se limitava a pedir permissão com a frase “eu posso”? Traçam um paralelo da rotina de partidas e chegadas, começo e recomeço, oferta e consumo em forma narrativa. Senti falta de vitalidade nos atores desde o início, talvez pelo esforço de estar em cena logo pela manhã. As ações me pareceram desconectadas, tomando um pouco de forma em uma única cena em que uma família aparece em sua rotina matinal tomando café. Existia um ritmo na repetição de gestos da mãe que servia a todos, que eram quebrados por imprevistos inusitados. Apesar de um pouco de exagero nessas repetições, foi em um curto momento que a luz da parresia acendeu, deflagrando de fato uma crítica mais visível ao automatismo em que as pessoas vivem sem interagir com o outro. Existiu durante o experimento a tentativa de abordar a verdade através de uma exposição de cenas fragmentadas, traçando uma análise à prisão do consumo e da necessidade de se inserir nas tendências ditadas pela sociedade, mas não convence. As ações dos atores no palco estavam soltas e desconexas, fator agravado ainda mais, quando de forma desnecessária, nos afastando mais uma vez da verdade, entram pessoas em cena, que se pressupõe não serem atores, para colocar placas de madeira escritas nas cadeiras. O figurino é neutro em tons pastéis, sem chamar muita atenção, com a proposta de igualar os atores em personagens sem nomenclatura, apenas povo. A luz não cria diálogo com as cenas, por vezes saindo do foco. Proposital? Talvez. O cenário, com cadeiras, biombo e mesa, passa uma impressão de improviso que dificulta um pouco as ações dos atores. A música executada se aproxima de um clima “new age” que me remete a alienação das personagens. Como continuidade desse experimento eu proporia entregar a cena exclusivamente para os atores, com um texto menos irônico e sem medo de encarar as consequências das abordagens. 

 

Núcleo 2, “Distopia” 

Já na entrada sou surpreendida por um caminho lúdico até o teatro. Um corredor de panos e borboletas coladas por toda parte faz fundo para um som de violino que nos remete a um mundo de fantasias. Atores estáticos, em posições diversas, se vestem com belas roupas que traçam o perfil individual de cada personagem. Todo esse banquete é servido na entrada, causando uma curiosidade no que está por vir, já que tudo está tão bem cuidado. A luz compõe o jogo de cena, por vezes jogando o tom amarelo como raios de sol que despem os atores. A trilha musical proposta, que determina o tempo, orquestra os movimentos das atrizes, que com belos vestidos, uma delas de calça e blusa, propiciam leves movimentos. Todas com óculos escuros ainda não se desvendam. Um narrador/diretor dessas atrizes entra vigorosamente e provoca a plateia, iluminando no escuro o rosto de cada um. Uma sensação de incômodo já é provocada, expondo o público. O narrador, em prosa, começa a exteriorizar sucessivamente temas sobre o narcisismo e a verdade que reside na mentira. Em seguida, as atrizes começam a se movimentar quase que em um balé de leveza e harmonia, seguindo na tentativa de evoluírem nesses movimentos. Conflitos individuais começam a aparecer e angustiar a todas. A verdade da qual não se pode fugir. Lidar com temas como uma doença ou como a complexidade da idade são situações que afloram a reflexão do espectador em conflitos individuais que todos vivenciam. A intervenção do narrador é contínua até chegar ao ponto de desnudar a verdade nua e crua de uma das atrizes. Seguindo suas ordens, ela se desnuda e se aproxima da plateia, expondo seu corpo com total desconforto e ultrapassando esse obstáculo. Um experimento que trabalha a fantasia de forma imagética e lírica contrasta com temas tão árduos e ásperos. É doce e apimentada a sensação que o público experimenta, tornando o teatro vivo e pulsante. É parresia! Seria instigante se o experimento nos segurasse aí. Há uma quebra quando a cena se encerra e é solicitado ao público se manifestar em um microfone colocado no palco. A magia de algo tão forte, que foi proposto, é chamada à realidade de que estamos no teatro. Eu dispensaria essa participação do público, mas talvez até isso seja parte do banquete da inquietação!

 

Núcleo 3, “Partysía” 

Este experimento ocorreu pela manhã. Ainda despertando para o dia, entro em uma sala negra tocando músicas dançantes às alturas. O cheiro do rum já nos embriagava. Repentinamente entra na antessala um transformista, que abre a cortina e começa a escolher um a um para entrar na festa.

 

Ao entrar, já estão vários atores na festa bebendo, dançando e beijando. Me encaminhei para a área vip e sentei para apreciar aquele estado real. Já não sabia se era noite ou dia. Quer dizer, acreditei que era noite. Um dos atores que estava dançando me deu um gole de sua bebida e no meio de sushis que eram servidos eu me comportei como se estivesse integrada à cena. As luzes piscavam e acompanhavam o frenesi da festa. Os convidados (atores) vestidos adequadamente para uma noitada evoluíam com o passar do tempo se embriagando e “pegando” um ao outro sem limites ou pudor. A noite esquentava e inesperadamente o aniversariante toma frente da festa com um microfone e oferece presentes em troca de submissão. Um dos convidados, capaz de qualquer coisa, é colocado à prova sendo humilhado. Traição, sexo, drogas, briga, poder, exibição e alucinação chegam ao seu limite quando o caos é instalado. Um “blackout” ocorre e gritos de socorro estabelecem consequências trágicas. Ao acender as luzes todos estão ao chão e o transformista cruza a sala com o anfitrião em uma mala com a cabeça para fora dizendo “eu só queria fazer teatro”. Nesse exato momento há teatro! Existe “cenicidade”. A atuação dos atores se torna questionável, a partir do momento em que eles bebem de verdade, talvez para ter coragem de encarar a cena. Mas eu deixo a proposta para que eles ousem realizar esse experimento absolutamente sóbrios, encarando o exercício verdadeiro do ator. A convicção de estarmos de fato em uma noitada pode esbarrar na parresia, mas a dramaturgia se encarrega de criar situações de atrevimento e de irresponsabilidade que não conotam verdade e franqueza colocadas adequadamente. Nesse aspecto vale repensar o fundamento da parresia no experimento. 

 

Núcleo 4, “Fome, farsa e Fartura” 

Na sala branca sou surpreendida com várias cabines e com uma grande cruz no fundo da sala. O cenário propõe, paralelamente à luz, o clima de uma vila ou praça onde as cabines com luzes coloridas não são aproveitadas cenicamente, servindo apenas de abrigo para o público. A fome é o fio condutor da dramaturgia que prostitui as mulheres por alimento. Um pastor ou um senhor desfruta de seu poder usando-as para seu prazer em troca de comida. As cenas são fragmentadas sem continuidade. Símbolos como a maçã, a carteira de trabalho e o vinho tentam dar sentido à provação da fome e a tudo ao que homens podem sucumbir por ela. A atuação dos atores não é integrada à cena, que por muitas vezes se limita a preocupação da exposição do corpo para a platéia. Um banquete é oferecido a todos no final da experimentação na tentativa de integrar o público, mas tropeça no risco de interagir sem um sentido real. A luz é bem executada, acompanhando a escolha do figurino que imprime a sensualidade e a luxúria. As personagens narram situações que permeiam a realidade dura do ser humano, em se vender por necessidade de sobrevivência, mas não é perceptível uma revelação no experimento.

 

Núcleo 4 (Foto: Cristiane Camelo)

 

Núcleo 5, “Entre Crânios e Vedetes: A História da Ascensão e Queda de Escolindo na Terra do Blablablá” 

Cheguei à Universidade de Direito muito impressionada com a arquitetura e a suntuosidade do local. O experimento ocorreu na sala dos estudantes, que possui cadeiras de alunos no plano baixo, um palco no plano superior com uma grande mesa e cortinas de veludo vermelhas. O experimento iniciou com vedetes saindo do fundo da sala, cantando e brincando com o público. Eu estava diante do teatro de revista acontecendo dentro de uma sala da Universidade de Direito, onde se estuda leis e julgamentos. A irreverência estava instalada e os atores começavam a se apossar da sala como parte da cena. Saíam personagens das janelas, do chão, do palco e das grades, discursando um texto adequadamente irônico e delator. Um líder chamado “Escolindo” é a personagem central que representa toda a hipocrisia do poder. O povo simbolizado por atores vestidos de operários também tinha suas narrativas delatando injustiças e mentiras. Um cenário perfeito para uma escolha acertada. A música conta com instrumentos ao vivo tocando marchinhas cantadas em coro pelas vedetes e demais personagens. As letras compostas com retóricas acompanham bem todo o experimento. 

Brincadeiras com diversos sentidos da palavra “ferro” são uma boa forma de se declamar a verdade. Os figurinos são bem coloridos e brincam com luz na própria roupa, instalando o clima do teatro de revista. De forma alegre e despojada a parresia se apresenta ao público. Escolhas acertadas propiciam uma provocação, que poderia ser ainda maior por parte da direção, em relação ao espaço que é um convite à tentação do insulto.

 

Núcleo 6, Experimento 

A proposta do núcleo 6 me causou um desconforto, a começar por um cubo com próteses de espuma exposto. No fundo, uma mesa apropriada para a manipulação de um boneco. Nos dois cantos da sala, confeccionados por cortinas e biombos de plástico, uma simulação de máquinas transformadoras. Com interpretações inverossímeis, os atores são jogados nessa sala com total estranhamento de tudo. São recebidos por uma enfermeira que leva um a um para serem atendidos por um dublê de “cirurgião plástico ou esteticista”, que é um boneco manuseado pela própria enfermeira. O cirurgião fica tentando convencer as pessoas de seus defeitos ou de suas insatisfações físicas para propor uma plástica transformadora. Encerra com uma catástrofe em todas as cirurgias e as personagens se revoltam. Durante a encenação fica claro que o experimento ficou em função da experiência de trabalhar com o boneco como símbolo manipulador, deixando em segundo plano os atores, que ficam visivelmente perdidos. A tentativa provavelmente parte para uma crítica à estética e padrões físicos estabelecidos pela sociedade. O texto é frágil, pressupondo um clima de “triller” que beira o infantil. Deixo a proposta de exercitar a composição dramatúrgica e a encenação com a exclusão do boneco, a fim de experimentar a condução dos atores trazendo o clima de terror como denúncia de padrões e indução de comportamento.

 

Núcelo 7, Smells Like Spring Spirit 

O experimento inicia com o vigor de um narrador pastor que declama pensamentos e filosofias, mesclando versículos da Bíblia com pensamentos sobre a cultura e a arte. Um cenário com chão de estrelas, um painel branco rasgado com projeção da “Roda da Bicicleta” de Duchamp, representando a quebra de paradigmas em relação ao conceito da arte. Do outro lado, um painel prateado define o espaço em um corredor mágico. Personagens vão entrando e narram questionamentos e visões irreverentes sobre fazer arte. Fica claro que são arquétipos dotados de humor, que brincam com a dramaturgia de forma livre e criativa. O narrador faz intervenções proféticas sobre o futuro da cultura. O público é envolvido nas provocações e brincadeiras das personagens. A luz funciona corretamente com o espaço e com o plano aberto para a exposição dos arquétipos. A crítica à decadência do conceito artístico fica um pouco confusa com a tentativa de novos pensamentos. A sinergia do público com a proposição da comédia flui claramente, mas por vezes tira o ator da personagem, perdendo um pouco a estrutura dos arquétipos. A exceção fica por conta do ator que interpreta o pastor, que com muita vitalidade mantém acesa a hipocrisia de seu discurso. A proposta funciona bem, mas deixa um desejo de aperfeiçoamento no tema e na dramaturgia para fluírem com mais clareza. O encontro desses arquétipos simboliza uma nova forma de transpor os erros e as dificuldades estabelecidas pelo homem no próprio fazer da arte dentro de vãs teorias. É uma forte chamada “parresiastica”! 

 

Núcleo 7 (Foto: Cristiane Camelo)

 

Núcleo 8, Metápolis

Convidados para um ritual de manifestação na rua, o experimento é penalizado pela chuva e se adequa à uma sala que é invadida por sete atores vestidos de forma padronizada por um macacão verde, tocando instrumentos e cantando repentes que manifestam a voz do povo. Tudo acontece na cidade de “Metápolis”, um lugar sem referência de tempo e de espaço. A necessidade de se ter um líder é logo manifestada para que tudo possa se organizar. Vários candidatos surgem, mas o grande líder vem de outra cidade. Logo ele é “tomado” pelo poder e começa a negociar e a manipular os cidadãos. O coro dos atores acontece de forma alegre e afinada, convidando o público para essa interação. No final, após muitos acontecimentos diante do crescimento da cidade, todos cantam “Um novo tempo” na esperança de transformação. O povo reclama e protesta sem ser ouvido. A cena encerra com um tiroteio repressor que mata a todos. O tom de voz dos atores, em alguns momentos, fica exagerado, parecendo uma imposição às suas personagens, que conotam uma interpretação um pouco autocentrada. O maior cuidado vem daí, pois o tom imperativo e contundente nos distancia da parresia, que precisa de fraqueza e sinceridade. Fica evidente que se a apresentação ocorresse na Praça Roosevelt, cresceria muito e se tornaria mais coerente com a proposta.

 

Considerações finais 

Encerrando essa experiência teatral que me foi oferecida, me jogo neste experimento que é só meu, solitário e compreendido pela minha vivência, e me atrevo a dividir essas sensações, que estão longe de serem verdades, e bem mais próximas de serem uma provocação.

 

Os aprendizes deixam comigo algumas questões. Todos os experimentos foram executados na forma narrativa, que parece declamar com mais propriedade as denuncias e reflexões das verdades abordadas. Será que por ser uma linguagem mais eficaz para a proposição, acabem se afastando do diálogo? Como abordar todos esses temas se distanciando do público e ao mesmo tempo os convidando para essa contradição da vida? Dói mais a parresia na alma se abordada na primeira ação e reação dos seus próprios personagens? O distanciamento é uma zona de conforto para lidar com a parresia?

 

Os aprendizes tiveram a oportunidade de sair de sua zona de conforto e encarar o confronto, suposta verdade e suas consequências. O caminho aqui iniciado vai se apresentar mais adiante como um rico alicerce material de trabalho. A SP Escola de Teatro é terra fértil. Pisem com vontade. Sucesso a todos nessa jornada e obrigada por me despertarem!

 

* Tânia Pires é atriz, idealizadora do FESTLP – Festival Internacional de Teatro da Língua Portuguesa e diretora geral da Talu Produções.

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