Experimento do módulo Vermelho por Mário Viana

Publicado em: 09/12/2014

* por Mário Viana, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

Luz no túnel do teatro

 

O desafio imposto aos grupos do módulo Vermelho não era fácil: avançar e aprofundar suas reflexões cênicas sobre o tema do dinheiro e poder no Brasil. Tendo as teorias do economista francês Thomas Piketty e a montanha-russa biográfica do empresário Eike Batista como fios condutores, os oito núcleos se atiraram na tarefa com disposição. Alguns se deram bem, outros se chamuscaram no caminho, mas isso não tem nada de anormal. Primeiro, porque estão numa escola, em pleno processo de formação e, portanto, com pleno direito a quebrar a cara aqui pra acertar ali (norma, aliás, que serve pra vida profissional, é só aguardar). Em segundo lugar, e com grande relevância, está a dificuldade do tema em si.

 

Talvez por estar quase sempre do lado que carrega pedras, o teatro pisa no fio da navalha quando fala da relação entre ricos e pobres. É a tentação do maniqueísmo, no qual o rico sempre será o malvado e o pobre, o bonzinho. As reações dos aprendizes a esse comentário mostram que há, sim, uma preocupação em dramaturgos, atores e diretores pra tentar se desviar da armadilha. Reconheça-se que, num país em que 1 por cento da população detém boa parte do dinheiro nacional, fica realmente difícil tratar essa minoria com isenção. Mas a função do teatro é justamente impor-se desafios e jogar luz em áreas pouco comuns do espírito humano (mesmo daqueles tipos que, em nossa ampla maioria, conhecemos pouco: os muito, muito ricos). É disso que vem nossa matéria-prima.

 

Nesse aspecto, o tema proposto no módulo Vermelho merece mais que aplausos. Objetivo e seco, ele força o artista a se debruçar sobre a relação com o poder financeiro e, mais que isso, obriga o aprendiz a discutir o mundo ao redor. Seja qual for sua vertente – onírica, satírica, absurda, performática –, o núcleo vai conversar com o mundo real, o ambiente ao redor, vai constatar que nosso trabalho teatral se relaciona, sim, com a vida e dela não pode escapar. Fazemos teatro pra atingir o Outro, o espectador, o passante, o sujeito que não nos conhece mas que, por insondáveis motivos, vem nos assistir. É com esse contemporâneo que vamos conversar, trocar ideias, viver alguns instantes. Seja qual for nossa linguagem, o destinatário será sempre o Outro, O Que Não Nos Conhece. É o fascinante de nosso trabalho.

 

Estimulante e desafiador, o tema dos experimentos também conduz os núcleos por caminhos já percorridos por nosso teatro, mas que, por alguma razão, deixamos de considerar como ainda factíveis. É possível, na passagem de 2014 pra 2015, refazer o teatro que se fazia nos anos 70? Dá pra trabalhar com metáforas numa época em que as pessoas demonstram impaciência e incapacidade pra decifrar a linguagem figurada? Será que a geração habituada aos 140 toques do Twitter consegue esmiuçar as possibilidades de uma situação?

 

Núcleo 6 (Foto: André Stefano)

 

Os resultados apresentados pelos oito núcleos mostram que tudo é possível quando se faz teatro. Mas que o fantasma da superficialidade assombra, e assombra muito. Alguns grupos mostraram ter ouvido o galo cantar, mas não descobriram onde. Explico-me: é relativamente fácil aprender a forma descoberta, usada ou desenvolvida pelos artistas-pedagogos – mas isso não basta. É fundamental aprofundar a pesquisa, verticalizar o ensinamento que esses artistas inspiradores deixaram e, só assim, regurgitá-lo pras gerações contemporâneas. É dessa autofagia constante que vive o teatro.

 

Núcleo 1: sem saber que o artista-pedagogo era o grupo Dzi Croquetes (mais uma porção generosa de Ariano Suassuna), assisti ao experimento com a sensação de ter voltado no tempo. Em vários momentos, para o bem e para o mal, a estética do experimento remetia ao teatro musical que se fazia no Brasil do final dos anos 70. Mas naquela época havia censura e a linguagem era forçosamente figurada. Ainda não havia o preparo técnico das novas gerações de atores e os musicais eram sempre acanhados ou esculachadinhos mesmo. Fazer o texto do experimento em rimas é uma ótima saída, mas os atores precisam tratar cada rima com intimidade de antigo namorado. Elas têm de sair fáceis da boca. Mas isso pode ser atribuído ao nervosismo da estreia. Entretanto, copiar o corpete e a maquiagem não faz do novo personagem um dzi croquete. Recorram ao documentário, descubram porque os atores agiam daquela maneira e tracem um paralelo com o Brasil de hoje. Especialmente agora que forças conservadoras ganham fôlego no mundo inteiro. Trabalhem melhor as passagens do texto em que o personagem sofre mudanças. E cantem, cantem à vontade, puxem o espectador com o olho. Somos um povo que gosta de música e não se intimida facilmente. Conduzam o espectador junto com o personagem principal para que, mais tarde, a queda seja mais impactante.

 

Núcleo 2: em linhas gerais, foi um dos que melhor trabalharam gestual e adereços. Figurinos e maquiagem também estavam perfeitamente integrados ao projeto. Agradavam, davam o recado e não chamavam a atenção mais que o necessário. Nos primeiros instantes, o maniqueísmo deu as caras, mas logo o trabalho de palhaço correu com ele. As cenas em que a família “vítima” se deixa seduzir pelo dinheiro são ótimas e vão além de simplesmente “denunciar” que pobres também são corrompíveis. A ingenuidade aparente de Charles Chaplin (o artista-pedagogo) valoriza ainda mais a malandragem dos que sobrevivem no andar de baixo.

 

Núcleo 2 (Foto: André Stefano)

 

Núcleo 3: Dos oito experimentos, foi o que menos conseguiu passar o tema ao palco. Mesmo contando com uma atriz de forte presença cênica, o experimento não acontecia: o texto dá poucas brechas pro espectador seguir, fornece pistas falsas e confunde os códigos – há rubricas que acontecem de verdade e outras que são lidas; ao espectador fica a tarefa de descobrir o motivo da alternância. Proteger-se sob o realismo fantástico de Gabriel García Márquez não garante nada: o texto do colombiano, mesmo quando coloca um homem cercado de borboletas amarelas em meio aos outros homens, não descola o pé do realismo e nos faz acreditar que aquilo é possível. No experimento, a situação que poderia render muito acaba se confundido, quem assiste não acompanha os personagens e, muito menos, entende seu papel na história. Momentos poéticos bonitos, como o da mulher dançando com o manequim, acabam diluídos na nossa tentativa de entender o que se passa. Vale tentar de novo e aumentar a generosidade da dramaturgia.

 

Núcleo 4: De longe, o mais bem resolvido em uso de cenários, figurinos, atuação e história. Tudo está a favor da trama, ou melhor, do espectador. Ao se apropriar do Silva que Eike Batista “esquecia” em seu nome, a dramaturgia aproxima uma enorme porcentagem de brasileiros do personagem. Todos somos Silva, é o que insinua a montagem, com razão. Todos sonhamos com a mulher gostosa e sacolejante, com o poder de ser mais que rico – o canto da sereia para o Silva é fazer a própria fortuna, é construir-se rico. A demora em montar certos cenários e elementos de cena foi o único reparo, na minha opinião, porque nos distrai da história. Fora isso, experimento impecável.

 

Núcleo 5: A capacidade de criar figurinos a partir de elementos que já cansamos de conhecer – fitas demarcadoras, copos plásticos – é a primeira grande qualidade desse experimento. Por que não ousar, por que não carnavalizar a história de um atropelamento? O tom caricato do começo ameaça levar o experimento pro maniqueísmo, mas ele logo escapa da ratoeira e mergulha num certo clima surrealista coerente com a montagem toda. Mesmo assim, dramaturgia e direção podem se entender melhor quanto ao uso de repetições em cena – repetir por repetir é bobagem, é melhor que haja um degrau em cada replay. O experimento parte do espírito raivoso do artista-pedagogo (o cineasta Sergio Bianchi) pra uma espécie de antropofagia tropicalista. Ótimos atores, boa técnica vocal, presenças seguras. O público sai muito satisfeito.

 

Núcleo 6: Outro exemplo de apropriação superficial do artista-pedagogo sem a devida verticalização. Embora o experimento tenha cumprido bem sua tarefa e, mais ainda, tenha sabido aproveitar o espaço do Satyros II em pouquíssimo tempo, fez falta o “espírito” do Teatro da Vertigem. O grupo pilotado pelo diretor Antonio Araújo não ocupa por acaso os espaços não convencionais: há um estudo, um motivo (ou vários), o ambiente faz parte do espetáculo, quase como um personagem, uma dramaturgia cenográfica em si. A inspiradora história real do falso herdeiro da Gol é um prato cheio de possibilidades, a começar pelo engodo geral em que todos parecem querer cair. Tem tudo a ver com a noite das baladas, das drogas e dos seres absurdos que a povoam. Menos megafone vocal e mais garimpagem dramatúrgica, pra aprofundar o tema, podem ajudar. E cuidar da segurança dos espectadores o tempo todo é fundamental.

 

Núcleo 7: O experimento mais bem acabado, com figurinos e cenários caprichados e, mais que isso, em perfeita sintonia com a direção e a dramaturgia. Fica visível ali que todos remaram na mesma direção – o bom resultado nunca vem à toa. Assumir a farsa ajudou a digerir melhor as situações que beiravam o maniqueísmo de ricos tão amorais. Se o “teatro pobre”, feito aos trancos e barrancos, do jeito que dá, tem sua força inegável, também o “teatro bonito”, com cara de rico, cumpre sua função. Toda aquela aparente riqueza esconde um lado estranho, surreal, amoral – e foi essa a apreensão que o experimento fez de Fellini e do filme “A grande beleza”. O tom extremamente afetado do dono da festa poderia ser menos gritante, acho que surtiria até mais efeito. Mesmo na farsa, nem tudo precisa ser sublinhado com pincel atômico.

 

Núcleo 8 (Foto: André Stefano)

 

Núcleo 8: Samuel Beckett e Fernando Arrabal finalmente deram as caras nos experimentos. Discutir o dinheiro e o poder no Brasil sem pelo menos arranhar o Teatro do Absurdo é quase impossível – a leitura dos escândalos nos jornais torna inocente qualquer estilo teatral. Apesar das interpretações um tanto forçadas (as gargalhadas de vilão de filme antigo, os gritos fora de hora), a situação prende a atenção. A simbologia do sal e do gelo também é boa. Mas é preciso atentar pros detalhes: um figurão rico como aquele jamais se orgulharia de um estúdio em Paris – o studio francês nada mais é que nossa quitinete, moradia de estudante pobretão, indigna daqueles miliardários. Quando se pesquisa o mundo dos muito ricos é preciso pensar grande mesmo.

 

* Mário Viana é jornalista e dramaturgo 

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