Experimento do módulo Verde por Gustavo Sol

Publicado em: 18/03/2014

* por Gustavo Sol, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

Anotações sobre as dúvidas e sobre os afetos

Trabalhando com personagens e conflitos, os núcleos de aprendizes e formadores da SP Escola de Teatro mobilizaram-se ao longo de todo o dia e a tônica da maratona criativa foi conduzida pelo desafio da lida com textos dramatúrgicos.

 

Núcleo 2 (Foto: André Stefano)

 

Cada trabalho refletiu muito claramente as escolhas coletivas e os procedimentos adotados para superar as dificuldades que apareceram. É prazeroso perceber quando, na experiência laboratorial, as resoluções logísticas marcam profundamente o clima da cena. Quase sempre a necessidade do que é simples provoca e conduz o artista até a beleza da síntese. É aqui que a escuta é fundamental no laboratório.

 

O nível de maturidade dos textos impressionou na medida em que a escrita potencializava a ação do corpo e dos elementos da linguagem cênica, abrindo espaço para múltiplos planos de significado, sem deixar de ser permeável ao espectador.

 

Do trabalho forçado à malícia, da descoberta do amor à capacidade de brincar em um ambiente de guerra, a temática da infância apareceu sob diversos horizontes na medida em que o jogo, a memória, a imaginação e a fisicalidade do corpo no espaço, que são elementos próprios da criança, eram mecanismos criativos das cenas. Ou seja, aspectos próprios dos modos pelos quais as crianças aprendem e agem no mundo, eram operadores metodológicos e laboratoriais, por isso as cenas não somente tratavam da criança, mas também continham, em diferentes graus, a potencialidade da experiência infantil de provocar em nós diferentes afetos.

 

Núcleo 4 (Foto: André Stefano)

 

Mas durante esse encontro incrível em que me foi confiada a deliciosa responsabilidade de apreciar e comentar as experiências cênico pedagógicas da Escola, tive a impressão de que o trabalho visível das turmas era o de “materializar” o texto dramatúrgico, como foi dito pelos próprios artistas antes de alguns dos experimentos.

 

Nessa perspectiva, de um modo bastante genérico, a impressão é que o esforço durante o processo consistiu em descobrir quais ações e objetos melhor concretizavam pensamentos e ideias que já existiam previamente e precisavam de materialidade. Esse paradigma dualista separa mente e corpo e por conta disso, separa também pensamento e ação.

 

Trabalhar cenicamente a partir de uma perspectiva laboratorial implica em relativizar a expectativa com relação à construção de discursos espetaculares em função da instabilidade. Uma coisa é usar a fisicalidade da cena para materializar ideias sobre o mundo, a outra, é deixar que a materialidade das experiências físicas construa novas ideias e com isso novos mundos de conhecimento.

 

A potência do experimento artístico cênico depende da sensibilidade do olhar e da generosidade da ação, para que uma área potencialize e afete a outra. É um paradoxo inerente à experiência criativa, porque quanto mais um elemento se coloca a favor do outro, mais o outro torna imprescindível a sua existência estética. Com o tempo percebe-se que ambas perspectivas se interpenetram em uma dinâmica contínua e não linear que denominamos como laboratorial.

 

Núcleo 8 (Foto: André Stefano)

 

Imaginar que as propostas cênicas, insipientes pela natureza própria do trabalho experimental, estão em cena porque foram concebidas por uma ideia que pode ser elaborada de outra forma, e não somente através da própria cena, é jogar contra a noção de laboratório criativo, cujos mecanismos de ação metodológica encontram-se nas dinâmicas fluidas entre sensações, intuições e palavras mais do que na hierarquia entre hipótese e experimento.

 

De outro modo, se experimentação em arte consistisse estritamente em uma série de tentativas e erros, o problema seria mais simples. Alguns resultados aparecem porque sempre é possível tentar e errar até conseguir o que se espera. Mas isso, além de sugerir que o importante  na arte é acertar, pode esconder algo ainda mais sutil e importante: as ideias podem permanecer imutáveis e inabaláveis pela experiência. Mudam-se os operadores e procedimentos para que eles se adequem às ideias que existem previamente e que não se transformam com os resultados das experiências. Isso faz com que o processo padeça pela ansiedade, porque ouvir exige a quietude de uma não ação como metodologia criativa. É nesse sentido que a falta de tempo ou de um motivo claro por trás da cena podem ser apenas falsos problemas.

 

Uma das coisas mais discutidas em artes cênicas no Brasil, e talvez no mundo, nos últimos anos, é a ideia de presença. E não é à toa que em um mundo de tanta virtualidade e simulacro a ideia de presença cause tanto interesse. Hoje em dia, pelo avanço das tecnologias e seus entrelaçamentos com o corpo humano, há uma infinidade de experiências de presenças. O teatro parece potencializar a presença de um modo particular, justamente porque, de algum modo, propõe experiências com as presenças das pessoas.

 

A proposta pedagógica da SP Escola de Teatro, através dos encontros experimentais articula-se para potencializar a experimentação estética, mostrando aos seus artistas em formação que é preciso de generosidade para escutar, mais do que grandes materializações de ideias. A impressão que tenho é que isso está impresso inclusive na escolha do tema criancismo, que pede escuta para as questões das crianças.

 

Essa capacidade de escuta é uma capacidade de afetação e é onde se pode perceber a ação operacional da estética, afetando o espectador em seus sentidos e potencializando a sua presença no laboratório. O que me move e o que move o outro? O que move as minhas sensações durante os experimentos? Como determinada iluminação move o meu olhar e as minhas sensações? Como isso modifica a minha pele? Como o outro me afeta e como eu afeto o outro? Como isso potencializa o nosso encontro?

 

Um laboratório é construído com perguntas, porque as hipóteses não surgem das certezas, mas, sim, das dúvidas. E se indagar nos mantém abertos para sermos afetados e vivos na busca por respostas que nos levem a outras dúvidas criativas, não é difícil compreender que a beleza da experimentação laboratorial emerge da sensação de que a melhor certeza é quase sempre a dúvida.

 

 

Gustavo Sol é ator, diretor, dramaturgo e pesquisador

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