Experimento do módulo Verde por Gabriela Mellão

Publicado em: 05/06/2014

* por Gabriela Mellão, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

A riqueza do mundo vista sob o olhar da criança – e do artista

 

Os experimentos mostrados na manhã do dia 31 de maio na SP Escola de Teatro buscam responder, entre outras questões, o que é ser criança no mundo contemporâneo. Ao utilizarem a linguagem teatral para tal feito, os aprendizes acabam invariavelmente se perguntando sobre o que significa ser artista na atualidade. A criança lança um olhar fresco sobre o mundo, através de uma leitura destituída de preconceitos e julgamentos pré-concebidos. Esta, curiosamente, se aproxima da visão do artista, a qual ele busca expressar em sua obra-de-arte.

 

A força do olhar da criança – tal como a do artista – se contrapõe às fragilidades do homem contemporâneo, cuja humanidade encontra-se minada pelo fenômeno da coisificação e valores distorcidos que regem a sociedade em que vivemos.

 

Nos experimentos “Colectomia com o Coração Batendo ou Uma Tentativa de Brincadeira e Cantiga de Roda”, “Eu Acho que Estou Sentindo Aquilo que Dizem ser Amor”, “Bolinha de Gude” e “Terapia do Imaginário” há, de maneira geral, uma tentativa de discutir a perda da humanidade do mundo atual. Ao elegerem abordar o tema através da perspectiva da criança, acabam por ressaltar a distância do ser humano de hoje de seu centro, evidenciar o quanto ele encontra-se deslocado de sua essência. Sob o olhar puro da criança, o mundo adulto parece ainda mais vazio e torto.

 

Núcleo 1, “Bolinha de Gude” (Foto: André Stefano)

 

O caminho de discutir as mazelas da sociedade através da ótica infantil, é, portanto, bastante instigante. Cada grupo conduz sua reflexão de forma diferenciada. “Bolinha de Gude” mostra-se o experimento capaz de misturar forma e conteúdo de maneira mais bela e eficiente. A peça busca materializar cenicamente a ruptura da infância de um garoto, apresentando sua entrada precoce na vida adulta. Também constrói uma discussão sobre desigualdade social e convida o espectador a refletir sobre como a inteligência ainda é capaz de vencer a posse.

 

As diferenças entre os universos adulto e infantil são evidenciadas sobretudo através de imagens. Esta é sem dúvida a grande força do espetáculo. A cena final desafia a efemeridade do teatro ao permanecer na mente do espectador após o término do espetáculo. Tem o mérito de sintetizar visualmente, e de forma poética, o debate da peça. Nela, pai e filho trocam signos simbólicos da vida adulta e da infância. O filho adoça a vida do pai, dando um brigadeiro a ele, que está habituado com saborear a amargura do mundo, sofrendo constantes humilhações em seu trabalho de palhaço de festa infantil. Este, por sua vez, não apresenta resistência para que o filho fume seu cigarro, e, portanto, compartilhe com ele os prazeres duvidosos da vida adulta.

 

A diretora de “Bolinha de Gude” também se esmera ao distender quadros que evidenciam poeticamente uma sociedade cindida entre as classes opressora e oprimida. Na cena em câmera lenta e sem diálogo, a criança aniversariante brinca de cavalinho montada nas costas do palhaço contratado para animar sua festinha.

 

Núcleo 5, “Terapia do Imaginário” (Foto: André Stefano)

 

O apuro estético, construído através de um cenário minimalista, de um palco despojado de elementos cênicos e de uma iluminação inspiradora dão o acabamento necessário à trama.

 

A atuação é um dos pontos frágeis do experimento. Aliás, a desafiante tarefa de um adulto encarnar uma criança mostra-se uma das dificuldades gerais dos experimentos. Não é preciso fazer caretas ou gestos infantis para dar vida a uma criança. Quanto mais o personagem for interiorizado, mais interessante ele será.

 

Esta empreitada me faz lembrar de “Histórias de Família”, espetáculo de 2011 da Cia. carioca Amok Teatro, cujos fundadores são o francês Stephane Brodt (integrante do Théâtre du Soleil nos anos 1990) e Ana Teixeira. O espetáculo em questão, da dramaturga sérvia Biljana Srbljanovic, constrói um retrato da guerra através de um olhar infantil. Como num jogo de faz de conta, intérpretes vivem crianças que brincam de reproduzir situações familiares. Encarnam pai, mãe, filho e cachorro de um clã, expondo cenas cruéis de violência, abuso de poder e repressão. Os atores corporificam em cena as emoções exacerbadas, próprias da criança, expondo somente o perfume de seus personagens. Em nenhum momento tentam imitar crianças, buscando apresentar apenas sua essência.

 

Em oposição ao minimalismo de “Bolinha de Gude”, “Colectomia com o Coração Batendo ou Uma Tentativa de Brincadeira e Cantiga de Roda” apresenta uma encenação pautada pelo excesso, mas não menos interessante. Mostra-se potente a atmosfera de caos construída em cena, composta por um palco coberto por destroços de um mundo apocalíptico, evidenciados de forma misteriosa com o apoio de fumaça e de uma luminosidade obscurecida. Não menos interessante foi a maneira como os atores estavam enraizados neste cenário de ruínas, surgindo como se nascessem dele, para depois andar sobre ele como se estivessem num campo minado – a qualquer momento uma bomba subterrânea (bexiga) poderia estourar.

 

Embora seja pertinente a discussão proposta pelo grupo, sobre o que é ser criança num mundo de guerra, a dramaturgia mostra-se frágil. O espetáculo é capaz de construir figuras dotadas de força visual, como a velha que surge em cena feito anjo caído do reino dos céus para auxiliar o homem ou a criança sem braço, mas estes personagens perdem impacto no decorrer das ações dramáticas.

 

“Terapia do Imaginário” também tem um relevante ponto de partida. O experimento se propõe a discutir temas como a perda das ilusões, consequência da passagem da vida infantil para a adulta, e a interferência que a imaginação exerce na realidade, que evidencia uma fronteira tênue entre ficção e verdade. Entretanto, não dá conta de desenvolver tais premissas, ou de delas extrair humor. As ações e os diálogos dos protagonistas, cinco amigos imaginários abandonados por um garoto que cresceu, são pouco significativos. Da mesma maneira, falta força simbólica ao cenário e o restante dos elementos cenográficos.

 

“Eu Acho que Estou Sentindo Aquilo que Dizem ser Amor” (Foto: André Stefano)

 

Se os eixos estruturais de “Terapia do Imaginário” parecem cambaleantes, em “Eu Acho que Estou Sentindo Aquilo que Dizem ser Amor” surgem plenamente alicerçados. Surpreende a qualidade de temas que o espetáculo aborda de maneira crítica, e com eficiência. Ao apresentar a descoberta do amor de um menino, a obra não poupa discussões sobre desumanização do mundo contemporâneo, os valores deturpados de uma sociedade coisificada, hipocondríaca, e acostumada a entupir-se de programas de televisão e bens de consumo para aplacar o vazio existencial.

 

O humor é popular, extraído pelos atores a partir de situações bem desenhadas e embasadas, apoiados por uma ambientação sonora de admirável criatividade, a qual é criada ao vivo por músicos.

 

A cenografia do espetáculo é competente, mas poderia se beneficiar de elementos menos realistas. A ideia de encapar o espaço com plástico para evidenciar a falta de liberdade do protagonista, que vive encarcerado numa bolha, é promissora, mas não foi levada às últimas consequências.

 

É uma alegria constatar que os trabalhos mostrados na manhã do último sábado na SP Escola de Teatro surpreendem pela qualidade e pertinência do tema que debatem. Também evidenciam o empenho dos artistas envolvidos e surgem como uma rara oportunidade de revelar aos jovens artistas que o aprendizado conquistado ao longo de um caminho é ainda mais importante do que o resultado final. Trata-se de uma lição de vida, sempre bem-vinda, ao adulto ou à criança.

 

* Gabriela Mellão é dramaturga e jornalista 

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