Experimento do módulo Azul por Matteo Bonfitto

Publicado em: 26/05/2014

* por Matteo Bonfitto, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

Do raccourci à des-colonização: o ‘criancismo’ visto pelo Módulo Azul 

 

Como transformar a noção de ‘criancismo’ em uma chave de leitura, em um dispositivo que pode ampliar e intensificar a nossa percepção em muitos níveis? Em que medida essa noção pode nos fazer olhar com outros olhos para os inúmeros paradoxos que permeiam o nosso cotidiano hoje? Essas perguntas parecem ter funcionado de certa forma como estímulos secretos de alguns dos experimentos apresentados na tarde desse último sábado na sede da SP Escola de Teatro, na Praça Roosevelt, em São Paulo. Coincidência ou não, perguntas semelhantes funcionaram como gatilhos criativos para a criação de Cry Baby Cry. Um Tríptico Cênico, última produção artística de meu núcleo, o Performa Teatro. Mas se no caso do Performa uma das referências utilizadas foi Maria Rita Kehl, sobretudo os textos que remetem ao problema do infantilismo, no caso dos experimentos da SP a referência central foi a psicanalista norte-americana Elizabeth Young-Bruehl, autora de “Childism: Confronting Prejudice Against Children” (Criancismo: confrontando o preconceito com/contra a criança).

 

Cena do núcleo 2 (Foto: André Stefano)

 

Ainda que olhem para essa questão através de pontos de vista bem diferenciados, a utilização dessas referências parece traduzir a necessidade de ampliar o nosso olhar em relação a algumas tensões que atravessam o nosso horizonte perceptivo. De fato, a problemática do criancismo ou infantilismo não se limita absolutamente ao processo de imitação banalizada e paródica do comportamento infantil, mas abre para muitas outras implicações, que estão relacionadas com os modos de instauração de processos relacionais, que determinam por sua vez não somente vivências, mas sobretudo con-vivências. 

 

Con-viver. Termo aparentemente simples, aparentemente óbvio, aparentemente conhecido, assimilado, incorporado. Esse termo, que nos faz acessar o núcleo da experiência de alteridade, parece ser uma miragem na era da ficcional globalizacão, e tal percepção se intensifica em certos contextos, como naquele país enorme, isolado linguisticamente, onde as manifestações de rua são vistas como eventos esportivos por seus supostos dirigentes. Nesse país, que dizem ser abençoado por Deus – gostaria de saber qual – que oferece serviços de quarto mundo por preços que superam os de primeiro, em que as crianças, em sua maioria órfãs de pais e de País, nos visitam insistentemente nos faróis e nas mesas dos cafés; nesse país mágico, em que a dimensão pública passa a ser ‘minha’ quando tenho um carimbo com o meu nome, nesse país podemos ser especialistas imbatíveis em criancismo ou infantilismo, independente do recorte que podemos fazer dessas noções. Talvez, portanto, não por acaso, essa temática esteja em circulação e tenha sido escolhida como mote do Módulo Azul da SP.

 

Se o tema escolhido para esse módulo foi o criancismo, o horizonte de investigação expressiva nesse semestre teve como eixo a performatividade. A partir das considerações feitas acima sobre o tema abordado – o criancismo – cabe observar as inúmeras possibilidades geradas pela sua articulação com a performatividade. Ainda que tenha se manifestado de maneira heterogênea nos experimentos apresentados pelos quatro núcleos da tarde, cabe ressaltar a pertinência dessa articulação entre tema e eixo expressivo.

 

Cena do núcleo 4 (Foto: André Stefano)

 

Heterogênea porque há um contraste reconhecível entre os dois materiais produzidos pelos núcleos 6 e 8 e aqueles produzidos pelos núcleos 2 e 4. No caso dos dois primeiros parece ter ocorrido um certo ‘desvio de rota‘, na medida em que o tema é abordado de maneira menos consistente e onde a questão da performatividade se manifesta mais timidamente nos materiais compartilhados com o público. Cabe, de qualquer forma, apontar uma diferenciação entre o núcleo 6 e o núcleo 8. No núcleo 6 um efeito cômico foi produzido em vários momentos, aspecto esse que deve ser ressaltado. De fato, a comicidade pode ser vista como uma abertura de possibilidades perceptivas em muitos sentidos. O cômico, como nos mostra Bergson, pode desmanchar inúmeras resistências no processo de recepção e nesse sentido ele pode funcionar como um gerador potente de performatividade. Mas a escolha feita pelos quadros que remetem a um programa de TV parece ter aprisionado os materiais em uma rede de propostas que se tornaram mais e mais previsíveis. Os materiais, assim, ficaram atrelados a um tipo de representação que se limitou a reproduzir situações e dinâmicas já bastante conhecidas. A ideia do programa de TV pode sim funcionar como um dispositivo interessante desde que abra espaço para dinâmicas menos previsíveis. Penso por exemplo em alguns filmes de Fellini, onde situações cômicas imediatamente reconhecidas são aos poucos estranhadas e levadas a extremos que fazem dialogar o poético e o absurdo ao mesmo tempo.

 

Já no caso do Núcleo 8 a performatividade é apontada de maneira diferente em relação ao anterior. Um efeito cômico interessante foi produzido logo na cena inicial, ocorrida na entrada do saguão da SP. Instaurou-se nesse momento, através de um material que poderíamos chamar de ‘canção da performatividade’, uma possibilidade interessante, meta-performativa, mas que logo se perde na tentativa de organizar as filas de homens e mulheres. Os imprevistos, que poderiam abrir espaço para desdobramentos performativos, foram tratados como problemas e não como trampolins expressivos. O mesmo acontece com o material apresentado no primeiro andar. O chocolate parece novamente abrir para um jogo processual mas logo cai em uma estrutura um pouco esquemática onde as imagens se despotencializam gradualmente. Tento perceber, enquanto observador-fazedor, o porque dessa perda expressiva e portanto performativa. Um apego ao já ensaiado? Um apego a uma ideia que não chega a se transformar em ação? Ao mesmo tempo, reconheço imagens interessantes, figuras estranhas que se trabalhadas podem dar vida a um ‘mundo possível’, e nos transportar para dentro dele, com ele.

 

Em contraste com os dois primeiros, nos dois casos seguintes – núcleos 2 e 4 – somos colocados diante de materiais que ampliam a temática abordada através de procedimentos que se manifestaram de modo claramente performativo. No núcleo 2 somos colocados em um espaço que se transforma dinamicamente; somos inseridos, assim, aos poucos, dentro da realidade investigada pelo grupo. O gesso, o balde com a água, a lousa, a disposição das cadeiras, tudo converge para uma célula que é explodida e que remete a um momento da relação entre professora e aluna, que se deu em uma escola de ensino fundamental. A água passa nesse caso a funcionar como uma metáfora que envolve muitas camadas de significação: a questão das relações de poder, a questão do desejo, a sede e a fluidez das experiências,… Apesar de percebermos ainda em alguns momentos as marcas no desenho das ações, trata-se aqui de um material potente que pode ser desdobrado e aprofundado. Penso ainda sobre um dos momentos finais. Em que medida a dissolução da gravidez da professora, da maneira como foi proposta, potencializa o material? Falou-se em leitura pessimista. Ou podemos ver tal ação como transposição da experiência vivida em toda a sua radicalidade? Talvez.

 

Percebe-se também uma ampliação da temática, nesse caso de outra ordem, no experimento do núcleo 4. Se no núcleo 2 tal ampliação passa de certa forma por um registro psicológico, onde a experiência traumática se transforma em uma célula que é explodida através de uma lógica semelhante ao ‘raccourci’ proposto e praticado por Meyerhold, no núcleo 4 vemos uma transposição do tema para a questão da colonização, ou seria mai apropriado dizer nesse caso, des-colonização. A visceralidade e a simultaneidade das acões intensificam a qualidade performativa do material, reforçada também pela resignificação de vários objetos. Mas a força performativa é reduzida em alguns momentos – ‘explicativos‘ ? – como por exemplo naquele em que supostos militares fazem continência, ou ainda no momento da ostentação do troféu. De qualquer forma, a transposição do criancismo do plano psicológico e interpessoal para o cultural abre sem dúvida possibilidades muito interessantes que podem ser aprofundadas.  

 

Diante desses experimentos sou capturado por um sentimento de ambivalência: se por um lado reconheço que o trabalho com a performatividade é complexo em sua artesania, por outro percebo como ele pode ser potencializador de questões e percepções. Gostaria nesse sentido, de agradecer a todos os participantes envolvidos nesses quatro experimentos pelas buscas compartilhadas e pelos riscos corridos. Todo experimento, ao manifestar expressivamente as próprias indagações e considerar os resultados sempre como provisórios, é ao mesmo tempo um impulso de vida. Constato, desse modo, a razão de ser desse módulo, na medida em que, ao eleger a performatividade como eixo, pode nos fazer redescobrir aquilo que acreditamos já conhecer. 

 

E, assim, poder voltar a perguntar, de novo e de novo… Como podemos con-viver? 

 

 

* Matteo Bonfitto é ator-performer, diretor e pesquisador na área de Artes da Cena. Leciona no Depto de Artes Cênicas da Unicamp e é um dos fundadores do Performa Teatro. 

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