Entrevista: Marici Salomão fala sobre dramaturgia durante a pandemia

Publicado em: 02/05/2020

A pandemia do novo coronavírus afetou não só o comportamento cotidiano das pessoas como também as formas de expressão artística. Com a dramaturgia não é diferente. Nesta entrevista concedida ao jornalista Miguel Arcanjo Prado, a coordenadora de Dramaturgia da SP Escola de Teatro, Marici Salomão, analisa este momento delicado, a partir do olhar de quem vive de perto os caminhos da dramaturgia.

MIGUEL ARCANJO PRADO – De que maneira você acha que a pandemia do novo coronavírus afeta a dramaturgia?
MARICI SALOMÃO – Afeta totalmente, mas não afirmo que seja só no mau sentido; sinto que no bom também: quando foi que tivemos a chance de estar mais conosco, correndo menos, para buscar novos conhecimentos e compreensões de mundo? Penso que um artista que só se fixa nos aspectos negativos restringe muito suas possibilidades de contribuição para pensar o mundo contemporâneo em 360%.

MIGUEL ARCANJO PRADO – Quando tudo isso passar, você crê que as pessoas vão querer assistir a histórias distópicas e pessimistas ou quererão tramas mais tradicionais e positivas?
MARICI SALOMÃO – Trabalho mais com a ideia do “e” do que a do “ou”: histórias tanto canonicamente contadas e quanto distópicas serão oferecidas, e muito certamente teremos mais temas do que tínhamos antes, dada a profundidade da experiência vivida hoje.

MIGUEL ARCANJO PRADO – Como vem sendo feito o trabalho online com os futuros dramaturgos que estudam na SP? O que tem observado de positivo neste processo?
MARICI SALOMÃO – Estamos primeiramente respeitando os tempos de cada uma/um, com o seu bem-estar, suas possibilidades reais de acesso à internet, às aulas online. Temos turmas muito comprometidas com aulas a distância, exercícios, leituras e desenvolvimento de novos textos. Temos discutido como tudo isso está nos afetando e qual a possível produção que nascerá nestes e destes tempos. Aproveito este espaço para agradecer a força dos estudantes, professores e dos formadores docentes do curso, Marcia Nemer e Daniel Veiga, tão corajosos no enfrentamento das mudanças. Vejo como positiva a sensação de que sairemos marcados, mas não menos fortes.  

A coordenadora de Dramaturgia da SP Escola de Teatro, Marici Salomão. Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO – Com a impossibilidade de o teatro ser feito presencialmente, você acha que isso fará a dramaturgia se aproximar do roteiro audiovisual? Por quê?
MARICI SALOMÃO – A impossibilidade de o teatro ser feito presencialmente hoje é uma situação provisória. O teatro voltará a acontecer presencialmente e será tão incrível como sempre foi em todos os tempos, apesar das crises, das pestes e pandemias. É o que nos revela a História.

MIGUEL ARCANJO PRADO – Para você o teatro online é teatro ou outra forma nova de expressão artística? E a dramaturgia feita para as novas tecnologias digitais e redes sociais, ainda pode ser considerada dramaturgia teatral?
MARICI SALOMÃO – Teatro é presença, é troca de energia de corpos, de presenças no aqui e agora. O Teatro Online é uma forma de sobrevivência diante das novas circunstâncias. A mim não substituirá o teatro como experiência de respiração conjunta no mesmo tempo/espaço. Porém, não sou contra essa saída hoje, desde que se ofereça dignidade à sobrevivência física dos profissionais de teatro. Pode nascer muita coisa interessante (aliás já está nascendo) e, como diz Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”.

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MIGUEL ARCANJO PRADO – Você tem acompanhado como a pandemia vem afetando dramaturgos de outros lugares do mundo? O que eles têm dito, caso esteja acompanhando?
MARICI SALOMÃO – Tenho trocado com alguns dramaturgos brasileiros e de outros países. Muitos artistas, como recentemente está ocorrendo em Portugal, estão mobilizados para exigir meios aos governantes para que supram as carências enormes dos artistas neste momento. Fundamental que aqui façamos o mesmo.

MIGUEL ARCANJO PRADO – O que você deseja ao mundo neste momento? E especificamente aos artistas e profissionais do teatro?
MARICI SALOMÃO – A nós, profissionais do teatro, desejo que consigamos nos organizar melhor para exigir que tenhamos garantias de sobrevivência. Sonhava com que as ações pontuais – como subsídios a lives teatrais e formas de teatro on-line, fossem acompanhadas de ações de estímulo à formação, que os artistas pudessem ser subsidiados enquanto companhias, grupos e novas formações, para desenvolver estudos e pesquisas neste momento inédito. Para o mundo, desejaria que as pessoas parassem de tentar ficar driblando esta tragédia e mergulhassem mais em si mesmos, pensando em como transformar ações individuais em benefícios para o mundo e não para a continuidade de manutenção do consumismo desenfreado e da negação do quanto esta real forma de solidão poderia ser produtiva e saudável para o nosso crescimento em todos os aspectos. 

CULTURA EM CASA

Assim como outros equipamentos, a SP Escola de Teatro criou uma programação especial na internet para oferecer ao seus seguidores. Assim, está disponível uma série de conteúdos multimídia, como vídeos de espetáculos e de palestras e bate-papos de nomes como as atrizes Fernanda Montenegro, Nathalia Timberg e Denise Fraga, a monja Coen, a escritora Adélia Prado e o pastor Henrique Vieira, além de cursos gratuitos a distância.

O acervo ainda inclui filmes produzidos pela Escola Livre de Audiovisual (ELA) – iniciativa da Associação dos Artistas Amigos da Praça (Adaap), gestora da SP Escola de Teatro – em parceria com instituições internacionais, com a Universidade das Artes de Estocolmo (Suécia).

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