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SP Escola de Teatro entrevista Isildinha Baptista Nogueira, presidente do conselho da ADAAP

Publicado em: 20/07/2023 | por: Beatriz Ennes

Fotografia colorida de Isildinha Baptista Nogueira

Isildinha Baptista Nogueira, presidente do conselho da ADAAP em 2023 | Foto: Pedro Arcene

A SP Escola de Teatro, criada e gerida pela Associação dos Artistas Amigos da Praça (ADAAP), entrevista em 2023 todos os seus 13 conselheiros.

Inaugurada em 2010, a SP Escola de Teatro é uma instituição da Secretaria de Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo.

A associação é uma Organização Social e exemplo do modelo de gestão de Políticas Públicas que vem sendo implantado pelo governo do Estado desde 2004, com base na Lei Complementar n° 846/98 e no Decreto Estadual nº 43.493/98. Através da publicização, ou gestão pública não estatal, serviços e atividades públicas são geridos por meio de parcerias entre o Estado e o terceiro setor.

A ADAAP faz parte da Associação Brasileira das Organizações Sociais de Cultura (Abraosc) e tem por finalidade desenvolver e administrar projetos socioeducacionais, culturais e institucionais, valorizando a arte e a educação no estado de São Paulo.

Isildinha Baptista Nogueira

A entrevistada de hoje é Isildinha Baptista Nogueira, atual presidente do conselho. Ela ingressou no conselho no segundo semestre de 2022.

Isildinha Baptista Nogueira (1954) é mestre em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e doutora em Psicologia Escolar e Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo (USP). Fez sua formação nos Ateliers de Psychanalise, em Paris, com Radmila Zygourys, uma das fundadoras da instituição.

Ela é pioneira ao incluir a discussão do corpo no contexto da condição de mulher negra e brasileira e também foi uma das primeiras a abordar com o instrumental psicanalítico tanto a dimensão sociocultural quanto a subjetiva da condição de negro no Brasil.

Em 2022, foi indicada ao Prêmio Jabuti na categoria de não-ficção pelo livro “Cor do Inconsciente: Significações do Corpo Negro”. A obra expõe as raízes do racismo entranhado nas camadas sociais, inclusive adentrado em indivíduos que não se consideram racistas, a partir de um estudo do pensar em si mesma num contexto em que a cor de sua pele é alvo de discriminação.

Isildinha esteve na aula inaugural do primeiro semestre de 2023 do curso técnico de teatro da SP Escola de Teatro, na sede Brás. Também participou do evento “Letramento Racial”, uma iniciativa da Pedagogia da Escola em parceria com a Extensão Cultural. Dois momentos em que pôde estar presente diretamente com os estudantes da Escola.

É de extrema importância sua presença na ADAAP, pois simboliza a contribuição da psicanálise às artes cênicas. A associação ao longo de sua trajetória, buscou desenvolver políticas acessíveis para os setores mais vulneráveis da sociedade. Por esse dedicado trabalho, em 2021 e 2022, ela recebeu o Selo Igualdade Racial da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania, o qual certifica instituições privadas que têm no quadro de profissionais ao menos 20% de pessoas negras em diferentes níveis hierárquicos e funções; e o Selo da Diversidade 2020 da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania

Confira a entrevista com Isildinha Baptista Nogueira

Como se deu sua entrada no conselho da ADAAP? Por que, para você, é importante participar desse conselho e contribuir com a associação?

A minha entrada para o conselho da ADAAP se deu via convite do Ivam Cabral [diretor executivo da SP Escola de Teatro]. Aceitei-o na hora, até porque eu sempre gostei muito de arte e de teatro. Vim conhecer a Escola e fiquei encantada com tudo o que se faz nela, sobretudo com o trabalho maravilhoso que se faz com os jovens. Além de ser uma escola profissionalizante, também é uma escola que ensina a vida. Um lugar que fala da vida, de arte e que traduz esse movimento em ação. Para mim isso também é político. Saúde, educação e cultura são a base. Se um povo não tem isso, ele não tem mais nada. Eu costumo dizer que o teatro é um salvador de vidas, porque um grande amigo meu dizia isso “o teatro é uma possibilidade de você se identificar com os personagens”.

Então é um momento de reflexão, você vê a cena e você se identifica com os personagens que estão ali. O teatro te permite essa intimidade, entrar em contato com você mesmo, aprender, chorar, se maravilhar, lidar melhor com suas emoções. Aceitei de braços abertos o convite. A Escola me recebeu muito bem também. Tenho muito o que aprender com esse espaço.

Para você, qual a importância e o impacto do trabalho da ADAAP e da SP Escola de Teatro?

O trabalho da ADAAP é fundamental porque é um trabalho de pessoas experientes e de pessoas que colaboram e ajudam a pensar. É um trabalho enorme, gigante, tem um grande número de funcionários e de estudantes. O conselho aprova as evoluções, dá sugestões, pensa junto, apoia o trabalho da Escola. O trabalho da SP Escola de Teatro é de recuperação de jovens, no sentido de trazê-los para um mundo do qual eles não fazem parte, porque a grande maioria vem da periferia.

A Escola leva uma perspectiva de mundo, e eu acho muito importante levar uma perspectiva de trabalho, de mundo, dentro do mundo da arte, porque a arte não é absolutamente estática, ela acontece em permanente movimento. É tão importante entender o teatro grego como entender o teatro atual. A gente tem essa possibilidade de ir e vir no tempo, e isso é um aprendizado histórico do movimento da humanidade que é feito de uma maneira maravilhosa. Encenar um clássico é tão importante quanto encenar um texto contemporâneo. Eu acho que o teatro nos permitiu passar por tantas agruras nesse país, ele esteve tão presente e aguerrido na luta. Por exemplo, a Maria Bonomi, o Danilo Santos de Miranda e tantos outros que fazem parte do conselho, principalmente os mais velhos, foram pessoas aguerridas num tempo em que a gente não podia sequer falar.

Qual a importância das artes cênicas e das artes do palco? Na sua visão, qual o papel transformador do teatro na vida das pessoas e na sociedade?

Dizia um grande amigo meu, Félix Guattari, que o teatro é o divã do pobre. O que ele queria dizer com isso é que quando estamos dentro de um teatro, assistindo a uma encenação, nós nos identificamos com os personagens, nos emocionamos e desta forma nós vamos trabalhando as nossas emoções. Eu entendo pessoalmente que o teatro funciona como um antídoto contra as doenças de ordem psíquica. Eu acho que ele recupera tanto o artista como o público. O teatro é um remédio para a alma, ele nos recompõe de todas as formas. O teatro é uma possibilidade de transcender o momento, porque nos ensina a sair da paralisia da nossa dor, das nossas questões pessoais e de nos levar ao encontro de outras questões de outras pessoas, que de repente são muito parecidas com as nossas.

Por isso que o teatro é curativo e uma possibilidade transformadora. De um fazer pensar que é pessoal, psicológico, mas que também é social, político e da ordem do conhecimento. O teatro nos traz tantas possibilidades juntas. Eu acho que o teatro nos traz um pouco o sentido da vida, ele não é um produtor de verdades, isso que me agrada muito. Ele não é acabado, não traz uma verdade única, ele traz várias possibilidades. O teatro nos dá uma sensação de que é possível mudar, mesmo que eu não tenha uma persona, eu não preciso ser de uma única forma o tempo inteiro, eu posso mudar, eu posso mudar de ideia e isso é fundamental. Eu acho que o teatro nos ensina muito a não ficarmos presos às nossas convicções.

Como você relaciona cultura e arte a sua pesquisa voltada para a psicanálise?

A arte, assim como a psicanálise, em termos de consequência e resultado, resgata o melhor de nós. Esse desejo de nos encontrarmos, de nos pensarmos, mas sempre numa perspectiva curativa, no sentido da nossa cura e do não adoecimento, do não medo de nos enxergarmos a partir de nossas questões. Minha pesquisa em psicanálise está muito voltada para a questão da negritude. A psicanálise há trinta anos estava a serviço da humanidade e eu pensei “eu também sou humanidade”, nós, os negros, asiáticos, LGBTQIA+, também somos humanidade, a psicanálise também vai nos servir para nos fazer pensar. Então usei esse conhecimento e estendi a noção de humanidade.

Pensarmos o racismo é pensarmos toda a crueldade da discriminação e do preconceito, toda a diferença e toda a indiferença que um determinado sistema político-social estabelece e elege para que algumas pessoas sejam superiores em detrimento de outras. Não existem seres humanos superiores a outros, existem seres humanos na sua diversidade e eu acho que o racismo acaba execrando essa possibilidade de uma humanidade diversa, ele é perverso. Então eu usei a psicanálise para lidar com essa questão e acredito que ela pode nos libertar dessa bobagem narcísica. É preciso que a gente respeite a diversidade, porque ela nos enriquece. O teatro pode nos ajudar muito nisso, à medida que traz questões dessa ordem. A formação de atores negros é muito menor do que atores brancos e eu sonho quando essa diferença não vai mais existir. Eu sonho por um momento em que os papeis do teatro não tenham mais que passar pela cor da pele, mas sim pela habilidade do ator.

Como a nossa sociedade, unida – governo, entidades, cidadãos -, podem pensar em ampliar mais a cultura e as artes na cidade e no estado, aumentando o seu papel imprescindível, de educação e transformação?

Eu acho que a educação é fundamental e a arte precisa ser levada para a maioria. É preciso que saibamos e conheçamos o que vamos defender. Enquanto cidadãos, a gente faz parte de uma camada de cidadãos – trabalhadores da cultura –, na qual a gente tem essa consciência, então eu acho que é uma obrigação nossa estender essa consciência para as outras pessoas que não têm acesso, porque como defender uma coisa que você não sabe o que é? Para nós, na nossa camada, é fácil defender a arte e a cultura como coisas primordiais, então eu acho que o trabalho que se tem que fazer é levar isso para outras camadas.

E a SP Escola de Teatro tem esse trabalho de levar, de transformar e de fazer agentes multiplicadores. Os estudantes da Escola são agentes multiplicadores, as pessoas com as quais nós convivemos e conversamos de toda hora e de todos os lugares também podem servir como agentes multiplicadores da necessidade da arte, do alimento para a alma. Sem arte, a vida fica muito esvaziada, muito pesada. A arte não tem a ver só com entretenimento, ela vai para além dele, ela ensina, consola e cura. Então eu penso que seria um dever de todos nós, cidadãos, mas esse exercício teria que ser da conscientização de cada um de nós de levar para aquele que está na rua, para aquele que não tem acesso.

Qual livro, filme, peça ou outro trabalho artístico você recomenda para uma pessoa que quer conhecer mais sobre o Brasil atual, entender mais onde vivemos?

São tantas as possibilidades e eu acho que o Brasil é privilegiado, porque se educou através das telenovelas, por exemplo, e nos últimos anos elas traduzem muito da realidade brasileira. E creio que elas são o que chega mais rapidamente na casa das pessoas. Mas eu fiz uma lista de livros que eu acho muito interessante:

“Torto Arado”*, de Itamar Vieira Junior: uma obra polifônica, marcada pelas narrativas das irmãs Bibiana e Belonísia e de uma entidade encantada. Vozes femininas que expressam memórias coletivas e atribuladas de desigualdades raciais, sociais e de gênero, e também evocam as resistências ancestrais dos povos quilombolas, suas lutas e ligações com a terra. Leitura obrigatória para conhecer o Brasil.

“Avesso da Pele”*, de Jeferson Tenório: um romance sobre identidade e as complexas relações raciais, sobre violência e negritude. É uma obra contundente, da nova ficção literária brasileira. Vencedor do Prêmio Jabuti, na categoria “Romance literário”.

“O Vendedor de Passados”, de Eduardo Agualusa: uma história sobre raça, a natureza da verdade e o poder transformador da criatividade. É um livro divertido, uma sátira política e social de Angola atual, mas que lembra muito o nosso país. Ele virou um filme dirigido por Lula Buarque de Hollanda, com Lázaro Ramos, interpretando o personagem principal.

“Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra”, de Mia Couto: um jovem estudante universitário regressa a sua ilha natal para participar do funeral de seu avô, Mariano. Enquanto espera pela cerimônia é testemunha de estranhas visitas na forma de pessoas e de cartas que chegam do outro lado do mundo. Revelações de um universo dominado por uma espiritualidade que vai reaprendendo.

*A Biblioteca da SP Escola de Teatro possui em seu acervo os livros “Torto Arado” e “Avesso da Pele” disponíveis para empréstimos aos estudantes e para consultas à comunidade.

+ Conheça todos os prêmios conquistados pela ADAAP




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