Em Nome de Alberto

Publicado em: 06/05/2013

Por Sergio Zlotnic*, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

No dia 12 de abril passado, Os Satyros foram convidados por Marcelino Freire a fazer uma homenagem a Alberto Guzik, no Itaú Cultural, na Avenida Paulista. Foi assim que, chamado por Rodolfo García Vázquez, também estive lá, junto com Fanny Maikovski Guzik, representando a família. Não foi difícil escrever algumas palavras inspiradas nessa figura tão interessante e, para alguns, tão polêmica. Mas foi surpreendentemente doloroso ler o texto curto que eu havia preparado, acreditando inocentemente que nada sentiria!

 
Quase três anos passados, desde seu falecimento… E ainda o trabalho de digestão, em que comparece, persistente, tudo aquilo que a gente não entende e tudo aquilo que não faz sentido.
 
A homenagem foi comovente, tanto nas performances do grupo Os Satyros, quanto nos depoimentos pessoais de amigos que estavam na plateia. Vários textos de Alberto foram lembrados e, especialmente bonito, um pedaço de um documentário inédito de Evaldo Mocarzel, em que Alberto aparece falando livremente sobre o teatro, daquela maneira sedutora, com a sua voz de veludo e seu cérebro hipertrofiado, articulando ideias com a facilidade dos grandes…
 
Publico aqui aquilo que eu disse naquele momento, como uma homenagem que busca significados para alguns dos mistérios que Alberto me deixou. Eis!
 
“Foram muitos os Albertos. O mais feliz deles foi aquele que Os Satyros conheceram. Mas esse eu mesmo não conheci. Senão pelos impressionantes ecos. Que justificam que a voz dele soe aqui através de tantas bocas… 
 
Mesmo que eu não quisesse – mas eu quero – eu teria que dizer da inacreditável herança que me coube. Porém, sobre isso, não posso dizer muito porque ainda não compreendo…
 
Da outra herança, material,  fiquei com alguns objetos, esculturas, camisetas pretas. Uma peruca loira. E um par de óculos que adaptei com novas lentes. Ler com seus óculos dá a ilusão de enxergar o mundo com seus olhos. E, assim, fico imaginando estar mais perto dos enigmas com os quais ele tinha tamanha familiaridade. Através de não sei bem que fantástica intuição, ele sabia das perguntas sem resposta. Inquietação! E assim, através delas, das perguntas sem resposta, nutriu também a mim e aos Satyros e a tanta gente em tantos lugares diferentes.
 
Do Alberto-família, esse que eu conheci, guardo cenas e fragmentos, estilhaços justos e injustos, diferenças e conflitos. E encontros também.
 
Serei breve. Trago duas microestórias, provavelmente desconhecidas:
 
Primeira estória. Quando ele tinha 12 anos, foi atropelado por um ônibus elétrico na Rua Augusta. Foi dado como morto, mas sobreviveu.
 
Segunda estória. Quando com 18 anos, numa aula de autoescola, trombou o carro. Queriam cobrar os prejuízos da família – mas minha avó era braba, não pagou e brigou com o dono da autoescola. E Alberto nunca mais dirigiu.
 
Outros acidentes simbólicos, alguns dolorosos, se seguiram a estes dois acidentes reais. E a máxima de Beckett cabe bem a Guzik: ‘Tentar de novo. Falhar de novo. Falhar melhor’.
 
De preferência às avenidas asfaltadas – pelas quais ele jamais transitou -, as estradas de terra batida. Ruelas sem saneamento básico e sem propósito. Paralelepípedos. De preferência às vias esterilizadas, os becos virulentos.
 
Como eu já escrevi noutro lugar, na recusa permanente do asfalto, Alberto foi, para a família, maldito e querido.
 
Esse traço contramão que sempre o atravessou constituiu seu núcleo. Sua essência. E é a partir dele que Alberto deixa atrás de si, na sua passagem, como alimento para nós, um rastro imenso de vida.
 
Apesar de não compreender, não posso deixar hoje aqui de agradecer o enorme espaço de gente e de pesquisa e de afeto e de promessa que foi legado para mim. 
 
Fertilidade! O sonho é o maior quintal que existe.
 
Obrigado, Alberto.
 
Beijos de Sergio Zlotnic
 
São Paulo, 12 de abril de 2013”.

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