Eduardo Wotzik

Publicado em: 01/04/2013

Eduardo Wotzik é diretor

Como surgiu o seu amor pelo teatro?

Teatro Copacabana – Rio de Janeiro. Tinha 13 anos, era a primeira vez que ia ao teatro sozinho. A peça era “O Dia que Raptaram o Papa”, de João Bethencourt. Os atores ali, ao vivo, tão diferente da televisão que eu via sempre; a plateia rindo de se acabar; aquele teatro cheio de fantasmas, fui encantado. Os deuses do teatro se aproveitaram do meu olhar ingênuo, ainda infantil e romântico, e disseram: “Nunca mais vamos deixar ele sair!”.


Um espetáculo que mudou o seu modo de ver o teatro foi…
Não me lembro de nenhum espetaculo, mas alguns detalhes deles me impulsionaram a sensibilidade: Bibi Ferreira em “Gota D’Água”; Ricardo Blat e Rogério Fróes em “Equus”; Paulo Autran em “A Morte de um Caixeiro Viajante”; a estrutura do Teatro de Soleil; o silêncio de Sankai Juku; a beleza plástica de “Macunaima”; a fumaça do Gerald Thomas; Antony Hopkins no “Rei Lear”, Mastroianni em “Pianola Mecanica”; aquela mulher parada na frente do palco aos prantos da Pina Bausch, o raciocínio cênico de Peter Brook; aquele ator gordo e bonachão chorando aos prantos de emoção enquanto agradecia junto a outros 30 atores num espetaculo de final de ano da turma do tablado.


Um espetáculo que mudou a sua vida foi…
Todos os que eu fiz.


Você teve algum padrinho no teatro? Se sim, quem?
Não, infelizmente. Venho de uma família de não artistas. Tive de me esforçar muito, trabalhar muito, até começar a ser considerado parte da família cênica.


Já saiu no meio de um espetáculo? Por quê?
Muitas vezes, no primeiro minuto, meu pensamento já está mais do que longe dali.


Teatro ou cinema? Por quê?
Para assistir, prefiro cinema. Fico mais livre para viajar na fantasia proposta. No teatro, fico observando os detalhes. No cinema, nem sei onde está a câmera, a luz, se estrangeiro, fico ligado na legenda e nem reparo nas interpretações. Além disso, no cinema tem a pipoca.


Já assistiu mais de uma vez a um mesmo espetáculo? E por quê?
Não. Não gosto de ver nem os que eu faço. Depois de pronto e entregue ao mundo, em geral, não gosto de assistir.

Qual dramaturgo brasileiro você mais admira? E estrangeiro?
Nelson Rodrigues, sem dúvida alguma, é o que mais me chama à inteligência cênica. Admiro muito Martins Pena e Artur Azevedo pelo que fizeram no seu tempo. Os estrangeiros são tantos… Os que eu fiz: Lorca, Maeterlinck, Albee, Euripedes, Sófocles, Noel Coward, Peter Weiss, Molière ganharam um lugar eterno dentro de mim. Em geral, gosto e admiro todos os grandes dramaturgos. Não é à toa que são o que são. Mas só à medida que vou dialogando com eles, os conhecendo melhor, enquanto vou descobrindo a cena para suas obras, é que realmente vou me apaixonando definitivamente por eles e pela cultura cênica que representam. Sou muito grato a eles pelos momentos de extrema sensibilidade e inteligência a que me obrigaram.


Qual companhia brasileira você mais admira?
O Grupo Tapa, do qual fiz parte desde a fundação, durante seus dez primeiros anos.  Acho o trabalho do Tolentino sempre em busca da consistência. Gosto também do grupo Corpo, uma referência de organização e resultado admirável.

Existe um artista ou grupo de teatro do qual você acompanhe todos os trabalhos?
Não.


Qual gênero teatral você mais aprecia?
Sempre gostei de passear pelos gêneros e fiz da diversidade uma meta e uma característica da qual me orgulho no meu trabalho.

Existe peça ruim ou o encenador é que se equivocou?

Existe peça ruim e existe o encenador que se equivocou.


Como seria, onde se passaria e com quem seria o espetáculo dos seus sonhos?
O que estou fazendo.


Cite um cenário surpreendente.
O cenário do “Édipo Rei”; o cenário do espetáculo “Estilhaços”, muita coisa do Serroni, muita coisa do Eichbauer.


Cite uma iluminação surpreendente.
Do espetáculo “Breve Encontro”. A de “Troia” também era incrível! Mas Maneco Quinderé e Beto Bruel sempre me surpreendem de alguma forma.


Cite um ator que surpreendeu suas expectativas.
Luís Melo, na “Sonata Kreutzer”; Camilla Amado, em “Troia”; Walmor Chagas em “Um Equilíbrio Delicado”, César Augusto como Creonte, em “Édipo Rei”. 

O que não é teatro?

O que não é repetível.

A ideia de que tudo é válido na arte cabe no teatro?
Não. Nem na arte, nem no teatro. O cenário tem de caber no espaço.

Na era da tecnologia, qual é o futuro do teatro?
Será sempre o lugar onde nos encontraremos para nos lembrarmos uns aos outros de que somos humanos.


Em sua biblioteca não podem faltar quais peças de teatro?
Os gregos.

Cite um diretor (a), um autor (a) e um ator/atriz que você admira.
Gosto do Felipe Hirsch, de Newton Moreno, de Andrea Beltrão, de Marco Nanini.

Qual o papel da sua vida?
O em branco.

Uma pergunta para William Shakespeare, Nelson Rodrigues, Bertolt Brecht ou algum outro autor ou personalidade teatral que você admire.
Para Shakespeare: “Onde foi parar o bobo do ‘Rei Lear’ e o que foi feito do mendigo do início de ‘AMegera Domada’?”. Para Brecht: “E agora que já alcançamos a consciência de que somos todos explorados, o que fazemos com isso?”. E para o Nelson eu perguntaria: “O Otto disse mesmo a frase ‘o mineiro só é solidário no câncer’ ou você inventou a frase que ele disse só para construir mais uma peça?”.

O teatro está vivo?
Nossa! Vivo. Muito vivo. Vivo o teatro!

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