COLUNA | Eu cão eu, por Sergio Zlotnic

Publicado em: 08/07/2015

*por Sergio Zlotnic, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

“Se, na minha exclusão, tantas passagens me são vetadas, eu caminho ali no desafio, na beira do abismo, onde você não sobreviveria”, disse o andarilho. E completou: “Nada, nada! Não tenho nada a perder”! 

Despojado de tudo, ele voa bem alto, despreocupado de qualquer lastro. Sua casa é o mundo. Pássaro sem âncora…
 
1- Louco de rua.
 
Loucos de rua são, talvez, espécime em extinção. Não porque a miséria e a loucura deixaram de existir, muito pelo contrário — quem sabe se tornaram tão comuns e impessoais que dar a elas um rosto passa a ser irrelevante. Aliás, muitas coisas se tornam invisíveis pela ubiquidade e não pela escassez! 
Há não muito tempo, andarilhos eram figuras familiares aos moradores de bairros de São Paulo.
 
Tinham nome próprio e nós os reconhecíamos. Indumentárias maltrapilhas, caminhando, atravessavam regiões inteiras da cidade. Pela manhã, podiam estar no Centro, e, à tarde, em Guaianazes. Tudo a pé. 
O figurino atemporal do louco de rua se parece com alguma vestimenta da idade média. Cinza, preto, bege, marrom, sujo. Um tipo de pijama milenar que, inalterado, penetrou a noite da alma. Atualmente, a Cracolândia nos dá alguma dimensão desses vultos. O que eles têm a nos dizer?
 
Por sua simples presença, desafiam a ordem. Excluídos, habitam a margem e operam na clandestinidade, mesmo que à luz do dia. Note-se: o marginal é aquele que, por definição, vagueia pelas fronteiras (pelas margens, literalmente). Perambulando, ele é memória ambulante e é testemunha dos acontecimentos da cidade. Ele vê aquilo que está oculto para os demais. 
 
No filme alemão “O vampiro de Dusseldorf”, de Fritz Lang (1931), é justamente um mendigo cego quem fareja o assassino – identificado porque assobia sempre a mesma canção (um trecho da composição de Grieg, criada para Peer Gynt, dramaturgia máxima de Ibsen…).
 
Personagem gauche da pólis, na contramão, o nômade errante articula dois verbos: caminhar e devanear. Devanear é percorrer “a pé” e descalço os labirintos tortos da alma. Ruelas em que estão marcados os traços de uma memória coletiva. Devaneio é caminhada “imaterial”. Não serve para emagrecer. Ambos, devaneio e peregrinação, equivalem a “errar”: são errância! 
 
A esmo, ao léu, e ao sabor dos acasos… Circulando, o peregrino parece buscar uma zona virtual inatingível. Os confins, limites, fronteiras, margens… Perambular sem mapa ou guia da cidade é a sua receita. Assim, vagando, ele se aproxima de um ponto em que a loucura pode desabrochar como oráculo da verdade.
 
Pois a verdade, geograficamente, está localizada no lusco-fusco! Na vaguidão. É preciso ser vira-lata para obter as chaves de sua porta. É preciso ser sujo e vagabundo. Muita limpeza espanta qualquer revelação. É preciso chafurdar nos pântanos virulentos. Assepsia não nos conduz muito longe!
 
Equilibrando-se numa zona cinzenta de divina infecção, sem bússola, o marginal tem de ser um pouco daltônico para distinguir formas e sombras ali onde os outros não enxergam nada. É assim que ele sobrevive, caminhando na corda bamba, numa linha que separa e circunscreve dois mundos. Flanando, desenha o limite onde se acaba a cidade e começa outra coisa. 
 
Essa “outra coisa” é faixa de passagem e de mistério. O lado escuro da Lua! Território de fronteiras não tão bem definidas entre muitas polaridades perigosas (porque vitais): os limites entre o selvagem e o civilizado, entre a fome e o amor, entre a linguagem e a vertigem, entre a luz e a escuridão… Uma zona sem certezas conectada ao contraditório, àquilo que “é e não é” ao mesmo tempo. Aqui é ali, mas já não é mais aqui, e ainda não é ali.
 
Aquele que se debruça nessa matéria e esculpe esse barro tem nas mãos um passaporte: ticket que leva aos elementos primordiais, dos quais a criatividade se serve. Vagabundear é método para insights: devaneio e perambulação são as primeiras etapas do ato criativo. 
 
É preciso que o artista, ao criar, seja louco e miserável. Ele tem de reafirmar sempre a circulação e o movimento como índices de saúde. Sem coleira! Navegar é preciso… 
 
Cachorro vira-lata.
 
Tanto quanto o louco de rua, também o cachorro vira-latas era figura familiar dos bairros de São Paulo e hoje parece espécime em extinção. Subsiste em regiões afastadas do centro. O cão sem dono pertence à mesma zona de fronteira do andarilho. É um animal de borda, “de passagem”, por assim dizer. Por ser animal, não é humano nem civilizado; por ser cão, nunca é completamente selvagem: não é lobo, não é gente.
 
2- Sem Capote…
 
Em três de maio próximo passado, no Espaço Parlapatões, deu-se a última apresentação da peça “Eu cão eu”, solo de Hugo Possolo, dirigido por Rodolfo García Vázquez. Escrita em 2011, o monólogo mereceria muitos prêmios! Não só pela performance do ator/autor, mas especialmente pelo seu texto. 
Kafka é — em muitos sentidos e, talvez involuntariamente (o que é melhor!) —ressuscitado. E, ainda assim, com um caldo da Europa do Leste, a peça é cheia de brasilidade. Ela é conduzida nesse fio de fronteira que o louco e o cachorro desenham. Possolo os põe como espelhos e segue seus rastros com fidelidade canina! Ali no espetáculo estão contidos todos os enigmas relativos ao andarilho e ao vira-lata.
 
Esboçando o percurso errático de um homem em rota de colapso, “Eu cão eu” capta as misérias desumanizantes da rotina — à moda russa que, tanto quanto o tcheco Kafka, expõe os labirintos aprisionantes da burocracia. “O Capote” de Gogol, por exemplo, de 1842, traz um cidadão ruminando ideias obsedantes relativas a um capote, imagem da imobilidade! 
 
Do lado de cá, na linha debaixo do equador, e bem mais a oeste, “Eu cão eu”, por outra via, também problematiza as capturas que nos engessam diariamente. Entretanto, o personagem aqui criado parece o avesso do de Gogol: Possolo retira o seu capote! E, assim, sem nada que o contenha, mas aferrado a uma lógica peculiar (que lembra Policarpo Quaresma), essa figura brasileira que vemos no palco se desdobra em inúmeros eixos, frutos da observação do autor pelas esquinas da vida.
 
É dessa forma que a peça traz — enquanto metáfora essencial — a perambulação como marca de liberdade: a circulação do olhar, que arranca delírios dos becos e revela cenas habitadas, cheias de verdade.
 
A quem devemos rogar que “Eu cão eu” volte aos palcos?!
 
Em tempo: a peça de Possolo evidentemente dialoga com “Comunicação a uma Academia”. De quem? De Kafka, claro! 
 
3- Créditos! 
 
A ideia de uma atemporal indumentária do louco de rua, eu a devo à cineasta/psicanalista Miriam Chnaiderman — em comunicação pessoal por ocasião de suas pesquisas que resultaram no filme “Dizem que sou louco” (direção Miriam Chnaiderman, 12 min., formato 16 mm, color, produtora Sequência Um, 1994). E ainda: em um artigo, Chnaiderman e Hallack, tomam o louco de rua como objeto de reflexão, fazendo conexões das quais me utilizo aqui. Baseando-se em Rousseau (de 1776, “Devaneios de um caminhante solitário”) e Vernant, entre outros autores, as psicanalistas nos mostram as relações entre a noção de “vagar” e a palavra francesa rêverie (ver Miriam Chnaiderman e Regina Hallack, Estranhas urbanidades, 1995, p. 37 —  in Maria Cristina Rios Magalhães (org), “Na sombra da cidade”, 1995, p. 33-43). 

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