Cláudio Cajaiba

Publicado em: 08/04/2013

Cláudio Cajaiba é ator e professor

Como surgiu o seu amor pelo teatro?
De modo ainda inconsciente, ao participar das dramatizações na escola e na igreja, durante a infância e a juventude. De modo consciente, ao ser convidado, enquanto fazia um curso de dança, para integrar o elenco de uma peça infantil, em 1996. Naquele meio tempo, crescia meu fascínio e admiração a cada peça que assistia.

Lembra da primeira peça a que assistiu? Como foi?
Lembro. Já foi na minha fase adulta. Havia uma aglomeração próxima ao bar que costumava frequentar, no bairro do Canela, em Salvador, na Escola de Teatro da UFBA. Curioso, me aproximei. Alguém me ofereceu uma senha. Entrei na sala lotada e assisti à montagem “Em Alto-Mar”, de Slawomir Mrozek, com direção de Ewald Hackler. Foi fascinante, provocante, desestabilizador. Nunca mais deixei de ir o teatro.

Um espetáculo que mudou o seu modo de ver o teatro.
As experiências do grupo Rimminni Protokoll, da Alemanha, de modo geral, me intrigam muito. Eles optam por encenar com não atores e, por meio deles, consegui entender a diferença entre representar e apresentar.

Um espetáculo que mudou a sua vida.
O espetáculo de graduação em direção teatral, “Dráuzio, o Vampiradinho”, dirigido por Roberto Sanches, do qual participei como ator, em 1986, é o responsável por meu ingresso nas artes cênicas. Portanto, posso dizer que foi ele que redimensionou minha vida e meu modo de estar no mundo.

Você teve algum padrinho no teatro? Se sim, quem?
Eu me considero apadrinhado por dois artistas-professores: Sérgio Farias e Ewald Hackler. Ambos me ensinaram, de modos distintos, a se fazer e a se refletir sobre o teatro.

Já saiu no meio de um espetáculo? Por quê?
Sim. Por considerar longo e ter ficado enfadado. Era muito jovem.

Teatro ou cinema? Por quê?
Há alguns anos eu responderia cinema. Mas, hoje em dia, é teatro mesmo. Por razões diversas: faço comentários semanais na rádio educadora da Bahia, no programa “Multicultura”. Além disso, às vezes, integro comissões julgadoras. Mas, independentemente dessas razões, não canso de me decepcionar e de me surpreender com a arte de se representar ao vivo, num jogo fascinante. Quando penso que não há mais o que descobrir, sou pego de surpresa.

Cite um espetáculo do qual você gostaria de ter participado. E por quê?
Tenho muito boas recordações do “Val da Sarapalha”, do Grupo Piollin, da Paraíba. Eu me senti num universo particular, como se estivesse na casa dos meus avós, na roça. Creio que teria sido prazeroso reconstituir em meu corpo aquela experiência.

Já assistiu mais de uma vez a um mesmo espetáculo? E por quê?
Não me recordo. Talvez a alguma remontagem. Mas gosto de guardar comigo as sensações da experiência primeira.

Qual dramaturgo brasileiro você mais admira? Explique.
Falar de dramaturgo, hoje, nos obriga a falar de encenações, do modo mais amplo como define Anne Ubersfeld, fazendo uma distinção entre texto dramático e texto cênico. Mas gosto muito de Artur Azevedo, pela urdidura e pelo caráter “cronista” de seus textos.

Qual companhia brasileira você mais admira?
Admiro muito a capacidade de invenção do Grupo Vertigem.

Existe um artista ou grupo de teatro do qual você acompanhe todos os trabalhos?
Sim, até mesmo pelo caráter das minhas atividades como comentarista e acadêmico. Assisti a quase todas as montagens do Bando de Teatro Olodum, por exemplo.

Qual gênero teatral você mais aprecia?
Não tenho predileção por um gênero específico. Gosto do teatro que mistura inteligência, provocação, certo caráter político e apuro técnico-estético.

Em qual lugar da plateia você gosta de sentar? Por quê? Qual o pior lugar em que você já se sentou em um teatro?
Gosto sempre de sentar no centro, por um vício perspectivista. Eu me recordo de ter assistido, com certo desconforto, à montagem da “Ópera dos Três Tostões”, de Bertolt Brecht, dirigido por Robert Wilson. Foi no Berliener Ensemble, e só consegui um lugar no alto e na lateral. Tinha de me debruçar sobre o balcão. Apesar disso, foi uma experiência bastante significativa.

Existe peça ruim ou o encenador é que se equivocou?
As duas coisas. Um bom encenador pode transformar um texto considerado ruim numa ótima encenação e um texto considerado muito bom numa experiência mal-sucedida. Mas o critério para julgar isso será sempre muito subjetivista.

Como seria, onde se passaria e com quem seria o espetáculo dos seus sonhos?
Não me ocorrem detalhes, mas sinto muito desejo de apreciar uma montagem que misture atores e holografia.

Cite um cenário surpreendente.
Morei alguns anos na Alemanha e a capacidade técnica-artística da cenografia de lá sempre me arrebatou. Para a montagem “Woizeck”, no Schaubuehne, havia um pequeno lago artificial no qual Maria era afogada. E ela permanecia submersa. No final da peça, ela reaparece da água para agradecer. Isso me surpreendeu.

Cite uma iluminação surpreendente.
Da montagem de “Todas as Horas do Fim”, coletânea de textos de Becket encenada por Luiz Marfuz, em Salvador.

Cite um ator que surpreendeu suas expectativas.
Carlos Betão
, na montagem de “Sargento Getúlio”, texto adaptado de João Ubaldo Ribeiro, dirigido por Gil Vicente Tavares, também em Salvador.

O que não é teatro?
Encenações que não dialogam com os anseios do espectador contemporâneo.

A ideia de que tudo é válido na arte cabe no teatro?
Tanto cabe que temos vivido isso com muita frequência e intensidade.

Na era da tecnologia, qual é o futuro do teatro?
Há um filósofo alemão, Hans Georg Gadammer, que diz: “A arte é hoje o que foi ontem e o que será amanhã”. O teatro tem abraçado fortemente a tecnologia. O futuro do teatro, como tem acontecido já no presente, é o de se tornar cada vez mais híbrido, preservando as conquistas feitas até aqui.

Em sua biblioteca não podem faltar quais peças de teatro?
Gosto muito de ler novos dramaturgos e tenho sido presenteado com várias coleções brasileiras neste sentido. Assim como não costumo rever, não costumo reler peças.

Cite um diretor (a), um autor (a) e um ator/atriz que você admira.
Ewald Hackler, diretor; Iami Rebouças, atriz, ambos de Salvador. Admiro muitos atores, mas não me ocorre destacar algum.

Qual o papel da sua vida?
O que virá.

O teatro está vivo?
Sim. E viverá enquanto existir a humanidade.

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