Bravíssimo | Walderez de Barros por Rogério Menezes

Publicado em: 25/09/2014

Introdução do livro “Voz e silêncios”, de Rogério Menezes, para a para a Coleção Aplauso da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Leia a obra, na íntegra)

 

A primeira vez que vi aquela morena mignon com olhos de ressaca tinha 14 anos, era 1968 – e chovia. Não lá fora. Mas na tela da TV preto e branco de segunda mão em que tentava assistir mais um emocionante capítulo de Beto Rockfeller, exibido pela TV Tupi. Não sei se você, caro leitor, é dessa época, mas as imagens televisivas de antanho costumavam, pelo menos nos altos grotões do interior da Bahia onde então morava, ser, para dizer o mínimo, de duvidosíssima qualidade. Entre chuvisco e outro, entre imagens que subitamente desapareciam e outras em que seres humanos adquiriam espectrais aspectos de fantasmas, tentava acompanhar, com vivo interesse, as aventuras de vendedor de sapatos que tentava, de todas as maneiras, se dar bem entre as garotas da alta (e da baixa) sociedade paulistana.

 

Uma dessas garotas era exatamente aquela morena mignon, a espevitada Mercedes, que namorava Vitório (Plínio Marcos) que era o melhor amigo de Beto (Luiz Gustavo). Senti imediata simpatia por aquela atriz que a representava, da qual não tinha a mais remota ideia de quem fosse. Ao ler a revista Intervalo, a bíblia das celebridades da TV daquela época, algum tempo depois, matei a charada: aquela morena mignon com olhos de ressaca chamava-se Walderez de Barros. Mais: em prova cabal de que a arte sempre que pode imita a vida, era casada com Plínio Marcos, exatamente o ator (e depois grande dramaturgo, um dos mais importantes do país) que interpretava o namorado dela na novela.

 

Saber que era casada, não arrefeceu o meu ânimo de querer vê-la diariamente. Submeti-me àqueles chuviscos e àqueles fantasmas durante todo o ano seguinte (Beto Rockfeller foi ao ar entre 4 de novembro de 1968 e 30 de novembro de 1969). Não me arrependi: havia algo naquela morena mignon que me fascinava. Talvez as olheiras, algo existencialistas, algo machadianas, que marcam o rosto da atriz até hoje. Talvez.

 

Foi bom enquanto durou. Ao final da novela, mudei de cidade (troquei a pacata Jequié pela já efervescente Salvador), de amigos, e de interesses. Telenovelas passaram a me interessar tanto quanto decifrar equações matemáticas de qualquer grau. Vez em quando, já em televisões menos chuvosas e menos fantasmagóricas, acho que a revi em João Juca Junior (1970), Simplesmente Maria (1971) e O Machão (1974). Mas sempre assim de passagem, de relance. Até que, bombardeado por mil e uma novas informações e novas vivências, aquela morena virou remota batucada. Remota, mas recorrente. Muito tempo depois, em viagens profissionais-culturais a São Paulo, tentei conhecê-la pessoalmente assistindo espetáculos em que a agora-grande-atriz-de teatro atuava. Reencontrei-a em Mocinhos e Bandidos, de Fauzi Arap (1979), Madame Blavatsky, de Plínio Marcos (1985) e Solness, O Construtor, de Henrik Ibsen (1989). As marcas do tempo já começavam a vincar o rosto da atriz, mas os olhos de ressaca e, claro, o talento dramático continuavam intactos. Cheguei até a pensar em procurá-la nos camarins para cumprimentá-la. Mas a timidez sempre falou mais alto – e a vida continuou.

 

Em 1996, morando em São Paulo e mais velho, já não tinha mais nenhum preconceito contra telenovelas (desde que fossem boas telenovelas; e era o caso), flagrei-me novamente hipnotizado pela TV (agora, claro, sem chuviscos e sem fantasmas). A culpada: O Rei do Gado, de Benedito Ruy Barbosa e direção (soberba) de Luiz Fernando Carvalho. Lá pelas tantas, eis que entrava em cena aquela morena de antanho, o rosto ainda mais vincado pelo tempo, mas com os olhos de ressaca e o talento dramático absolutamente os mesmos. Grudei ainda mais os olhos na TV, e constatei: era Walderez de Barros dando corpo e alma à personagem chamada Judite, espécie de sombra de Jeremias Berdinazzi, personagem interpretado por Raul Cortez. Ambos grandes atores, faziam fascinante jogo de luz e sombra, em que ora um era luz e o outro, sombra; ora um era sombra e o outro, luz.

 

A bordo de maturidade dramática notável, materializava-se ali o diamante que começara a se lapidar desde os tempos de Beto Rockfeller. Não pude impedir que certa de sensação de felicidade, até mesmo de euforia, me tomasse. Era como flagrar a trajetória profissional vitoriosa de alguém muito íntimo e, pura projeção, a minha também. Resultado: não perdi um capítulo sequer daquela emocionante novela. A vida continuou outra vez.

 

Em dezembro de 2003, já em outra cidade, agora em Brasília, surge a inesperada, e bem-vinda, possibilidade de escrever para esta Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial do Estado. Entre vários nomes sugeridos a Rubens Ewald Filho, coordenador deste projeto editorial, fiz questão de, pelas questões reveladas nos parágrafos anteriores, incluir o nome de Walderez de Barros. Sugestão aceita, perco a timidez, e início o processo de sondagem e de agendamento dos encontros gravados que possibilitariam a realização deste livro. Rápido no gatilho, descubro o e-mail e o número do telefone da atriz. Timidez não totalmente perdida, prefiro iniciar a abordagem por e-mail.

 

Escrevo-lhe longo bilhete. Menos de duas horas depois, recebo resposta: “Rogério, Sinto-me honrada com a lembrança do meu nome para fazer parte desse projeto. Podemos conversar a respeito. Aguardo seu telefonema. Abraços, Walderez”.

 

Exatamente 36 anos depois daquele primeiro contato virtual, a vontade de este agora jornalista-escritor ter contato real com esta agora-uma-das-grandes-atrizes-brasileiras enfim se materializava. Problemas de ambas as partes (ela, às voltas com a estreia de Fausto Zero, com direção de Gabriel Villela) fazem com que as entrevistas que compõem este livro não pudessem ser imediatamente agendadas. Enfim, a 18 de abril, jornalista-escritor e atriz, entrevistador e entrevistada, se encontram. No meio de tarde de calor infernal, toco a campainha de apartamento de prédio (daqueles supercharmosos construídos nos anos 50, com lobby de pé-direito altíssimo) da Rua Prof. Picarollo, a poucos metros da Avenida Paulista, na região central de São Paulo. Atende-me à porta simpática senhora, no fulgor e no esplendor dos seus 63 anos, que me recebe como se havia muito me conhecesse. (Era Walderez de Barros, que continua morena mignon com os olhos de ressaca de sempre e, confirmando a suspeita de muitas décadas, gentilíssima e sensibilíssima dama). Também me senti em casa, também me senti como se conhecesse aquela mulher havia muito tempo – e, no meu caso, de fato conhecia.

 

Quatro dias depois, horas e horas de conversas que tentaram virar a vida e a carreira da atriz pelo avesso gravadas, missão cumprida, volto para Brasília. Na cabeça duas sensações: a) de que havia (afinal) conhecido mulher formidável, sincera, corajosa, firme e, basicamente, rica de histórias e de reflexões que, justíssimamente, são aqui registradas para a posteridade; b) de que esse encontro deveria ter acontecido há muito mais tempo. Mas, como diz Walderez de Barros no epílogo deste livro, as coisas só acontecem quando têm de acontecer.

 

Bom espetáculo! Digo, boa leitura!

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