Bravíssimo | Vera Nunes por Eliana Pace

Publicado em: 23/01/2014

Introdução do livro “Raro talento”, de Eliana Pace, para a Coleção Aplauso (Leia a obra na íntegra)

 

Nas décadas de 40 e 50, Vera Nunes era uma das maiores estrelas do cinema brasileiro. Ninguém apareceu em tantos filmes como aquela jovem talentosa e simpática, de corpo miúdo e rosto sorridente, emoldurado por loiros cabelos, a reunir todos os predicados indispensáveis a uma artista de primeira grandeza, como passou a ser considerada desde então. Junto a seus admiradores, era conhecida como A Namoradinha do Brasil ou A Bonequinha do Cinema.

 

Sua carreira cinematográfica deu-se de forma tão rápida e fulgurante que Vera Nunes já era uma atriz experiente, tendo atuado inclusive na Argentina – aliás, foi a primeira intérprete brasileira a filmar fora do País – quando aceitou o convite feito pelo amigo Ruggero Jacobbi para integrar o cast da Companhia Cinematográfica Maristela. A crítica não poupou elogios à artista, que logo passou a ser considerada a musa dos novos estúdios por suas performances em Presença de Anita e Suzana e o Presidente, as primeiras e mais prestigiadas produções da Maristela que se manteve em atividade por apenas oito anos. 

 

Vera Nunes estreou no teatro aos 21 anos, a convite de Aimée, um dos ícones do teatro brasileiro e que dirigia sua própria companhia teatral. O papel era pequeno, a técnica completamente diferente da cinematográfica, mas a experiência mostrar-se-ia tão gratificante que a atriz não titubeou ao receber, logo em seguida, o convite para atuar na peça que marcou a estréia de Tônia Carrero e Paulo Autran nos palcos. No decorrer dos tempos, carregando uma invejável cultura e um raro talento interpretativo, atuou nas mais famosas companhias teatrais, dividindo a cena com outros atores de prestígio inabalável: Dulcina de Morais e Odilon Azevedo; Sérgio Cardoso, Carlos Zara e Jayme Barcellos; Armando Bógus e Procópio Ferreira, quando Vera já trabalhava com sua própria companhia teatral, criada antes mesmo que completasse 25 anos.

 

Importante ressaltar que, naquela época, nenhuma companhia teatral contava com o mecenato oficial, tal qual acontece nos dias de hoje. Ou seja, ao criar seu próprio grupo, Vera Nunes seguia o modelo de Aimée, Dulcina e Odilon; Tônia Carrero/ Adolfo Celi; Paulo Autran e Maria Della Costa que produziam seus trabalhos com recursos próprios, torcendo por um sucesso que nem sempre acontecia.

 

Com a carreira consolidada e trabalhos de repercussão no cinema, no rádio e no teatro, nada mais normal que Vera Nunes emprestasse seu prestígio também à televisão. Foi ela quem protagonizou a curta novela Helena, inspirada na obra de Machado de Assis, cujo primeiro capítulo foi ao ar durante a cerimônia de inauguração da TV Paulista, em 14 de março de 1952. Nos anos que se seguiram, trabalhou em praticamente todas as emissoras de São Paulo: Tupi, Cultura, Record, Bandeirantes e Excelsior, onde fez um trabalho considerado excepcional na novela As Minas de Prata, de Ivani Ribeiro, interpretando uma matriarca aristocrática e paralítica.

 

Conheci Vera Nunes pessoalmente no início de 2006, quando ela havia acabado de perder o marido, Altamiro Martins, com quem viveu uma bela história de amor de 50 anos. Ela pediu, e respeitei o luto. Demos início, então, a esta biografia, feita de encontros semanais em seu apartamento, em Pinheiros. Ao fim de uma hora, ou menos, de conversa, eu era convidada a um lanche da tarde, momentos em que estreitávamos nossa relação conversando sobre assuntos os mais diversos, desde a alegria com o nascimento da neta até os problemas com a máquina de lavar. 

 

Vera, ou Verinha, para os mais íntimos, é e sempre foi muito reservada e discreta em relação à sua vida pessoal e profissional. Não esperem dela seus admiradores fiéis, bem como os que estiverem lendo esta sua biografia, fofocas, críticas ou piadas a respeito de quem quer que seja. A cada confidência, ela me pedia que desligasse o gravador e acatei todas essas solicitações. No decorrer de um livro como este, é quase que impossível jornalista e biografado não ficarem amigos e trocarem amabilidades. Ficamos, sim, amigas, dessas que trocam presentes de fim de ano e perguntam da família. Vera é tão delicada e gentil que guardou na memória, por mais de seis meses, um elogio que eu fiz a um jogo de copos que havíamos visto em um shopping center, numa tarde em que saímos a passeio. Às vésperas do Natal, saiu de casa sob uma chuva inclemente só para ir até a loja em questão comprar meu presente.

 

A essência de Vera Nunes se faz presente não só quando ela recorda a harmonia reinante no lar português de sua infância e adolescência, como na seriedade com que encara sua profissão e transmite sua arte aos jovens iniciantes. Inteligente, culta, politizada, mas também uma pessoa simples, encantadora e sensível, a Vera Nunes que conheci está nesta biografia, que, espero, possa fazer a alegria de todos que a viram atuando e se tornaram seus fiéis admiradores.

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