Bravíssimo | Stênio Garcia por Wagner de Assis

Publicado em: 13/11/2014

Introdução do livro “Força da natureza”, de Wagner de Assis para a Coleção Aplauso da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Leia a obra, na íntegra)

 

O nome é uma junção da mãe Stela e do pai Antonio. Mas a mistura que faz a personalidade, talento e a força de Stênio Garcia está além do batismo. É uma combinação rara. Filho do interior, cidadão do mundo; pele brasileira, pés viajados; determinação guerreira, alma em paz. 

 

A voz é grave. O tom, pausado. Olha nos olhos, mas perde-se quando as lembranças são intensas. Lágrimas moram ali. Adora dialogar. Com o universo, com a arte, com o público. Durante a sessão de entrevistas para este livro, a energia elétrica faltou em sua casa. Stênio continuou a falar normalmente. Em pleno breu, sua história vivia. 

 

É ator formado com conhecimento de causa. Sabe teoria e pratica-a como ninguém. É “ator de personagem”, como já se disse muitas vezes a seu respeito. O termo é usado para explicar homens capazes da metamorfose plena em outros. Para Stênio, termos como “entrega”, “composição”, “negação do eu” são quase adjetivos. Para o público, seu trabalho é de um assombro capaz de fazer o mais esperto observador perguntar: onde está o ator? 

 

Mas também adora sua casa, onde anda de pantufas infantis no inverno e pisa a terra descalço no verão. Adora seus cachorros, os que estão no sítio no estado do Rio ou o boxer Stomp, que mora com ele e recebe constantes carinhos. Não se furta em mostrar para o visitante o cantinho dedicado ao personagem Tio Ali, da novela O Clone, da Rede Globo, um estrondoso sucesso que atravessou fronteiras e fez com que desse autógrafos a americanos e latinos em Nova York. Quando começa a falar da carreira, o local fica cheio. Os personagens entram sem pedir licença. São centenas. Cada qual com histórias particulares e tão interessantes que poderiam render uma enciclopédia. 

 

Stênio é brasileiro típico – e simbólico – que aprendeu a vencer dificuldades em inúmeros “palcos”; da vida rural ao sucesso na cidade grande; da formação difícil e quase autodidata ao conhecimento vasto e prolífero; é talentoso, abençoado com o dom da interpretação, e conseguiu encontrar na profissão que ama um meio de sustento. É forte, saudável, alegre – e encara as vicissitudes da vida com coragem. Tem verve, vivacidade, vitalidade. É professor. Mas não se furta à posição de aluno regularmente. Sua história é que ensina. Sabe cozinhar, dar saltos-mortais, fazer crochê. Com a esposa, a atriz Marilene Saade, dá livros e filmes de presente aos amigos. E, diariamente, exercita uma dádiva milagrosa: estuda, estuda e estuda.

 

Tem paciência de monge: este projeto demorou dois anos para ser concretizado. A cada encontro, nem uma nesga de ansiedade de sua parte. Mesmo com agenda ocupada, gravações, palestras, projetos, viagens por fazer, sempre encontrava o ponto de recomeçar, falar do trabalho, filosofar sobre essência de sua vida. A série foi ao ar ontem? Ele curte a repercussão no dia seguinte, a audiência sempre alta, os comentários gerais. Nesse momento, tem nos olhos a alegria do jovem que desfruta do sucesso. Logo depois, tudo passa. Não se empolga tanto. É hora de pensar noutro texto, entre os diversos que recebe para filmes, peças e novelas. Vai entregar-se a outra realidade – da ficção, claro. 

 

Assim, suas emoções ficam sempre expostas. Stênio se toca com uma cena de amigos noutra novela. Além disso, dedica-se a visitá-los. Principalmente no Retiro dos Artistas, onde faz presença. Seja lá, ou em qualquer lugar, não poupa sua energia. Claro que é humano e tem defeitos: por exemplo, não gosta de se ver na tela. Uma pena. Perde o show. 

 

A exemplo de seu eterno Bino, o caminhoneiro da série Carga Pesada, conhece cada palmo deste chão por onde artistas com brilho próprio passam. Conhece com quantas madeiras se faz um palco, um teatro e uma jangada. Já fez todos eles, literalmente. Sabe o tamanho da tela do cinema. E a força da televisão. Anda por todas as mídias. Viajar é preciso…

 

Stênio Garcia é também a prova de que ser simples não significa ser simplório. Ser humilde não é ser subserviente. Abaixar a cabeça no cumprimento é respeito ao próximo. Perguntar é crescer. Ouvir também. Vai dar outro salto-mortal aos 80 anos. Ou melhor, vai dar um salto vital. Comemoração de quem se jogou no mundo. E trouxe-o junto. 

 

Na trajetória mítica dos heróis, pode representar a figura do homem sábio, conselheiro, ponderado. O mentor. Mas já foi herói, que aceitou aventurar-se pela vida, deparar-se com provas e desafios, até encontrar o elixir da própria vida. Hoje, parece sorver dele. E aqui compartilha com os leitores.

 

Ao lado de seus troféus, à frente de seus personagens, junto com seus muitos certificados e prêmios (todos expostos devidamente em sua cidade natal, Mimoso do Sul, Espirito Santo, catalogados por sua primeira biógrafa, a socióloga Rosângela Garçoni), enfim, junto a uma extensa carreira de sucessos, elogios e histórias inesquecíveis, mas também contando com o carinho da família, dos amigos, o suporte da natureza que tanto preza, Stênio Garcia merece os aplausos desta Coleção, a glória que alcança em seus trabalhos e também o título de sua história: é uma força da natureza. 

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