Bravíssimo | Sônia Guedes por Adélia Nicolete

Publicado em: 27/02/2014

Introdução do livro “Chá das cinco”, de Adélia Nicolete, para a Coleção Aplauso (Leia a obra na íntegra)

 

 

Curiosamente, a Apresentação de um trabalho é feita depois de todo ele escrito. Dessa forma, primeiro temos uma visão geral do conteúdo para, só depois, apresentá-lo com certa propriedade.

 

Concluídas as entrevistas, feitas as pesquisas e terminado o processo de escrita deste livro, componho uma imagem de seu conteúdo, ou seja, de Sônia Guedes, que é feita de pura poesia. Desde o primeiro encontro, no qual ela me ofereceu o famoso chá das cinco, servido em xícaras de porcelana e com direito a bolo, até nossa conversa mais recente, ela foi de uma delicadeza ímpar. 

 

Isso não indica, absolutamente, fragilidade. Sônia reúne ao mesmo tempo doçura e força. Nos momentos em que as confissões eram doloridas ou em que a fase na qual se encontrava não era das mais confortáveis, ainda assim era possível identificar o vulcão, o relâmpago, a determinação incansável. Não fosse isso, ela não teria enfrentado um sem-número de dificuldades físicas e materiais em sua vida. Vive-se com delicadeza e poesia, mas isso não basta.

 

Dona de cultura invejável, ela transita com propriedade por entre os mais diversos assuntos. Leitora voraz, acompanha e discute os últimos lançamentos literários. Pianista e cantora, tem na música erudita e na ópera suas principais referências. E, como cidadã, reflete a todo momento sobre a situação política do País, numa insatisfação permanente, que é ao mesmo tempo freio e motor. Freio porque as injustiças sociais ferem profundamente a artista. Motor porque, instalada a revolta, Sônia não se contenta em reclamar, arregaça as mangas e toma a frente de ações concretas. Sempre foi assim. 

 

Portanto, conhecer pessoalmente esta grande atriz foi um privilégio. Comecei a participar da vida teatral do ABC paulista nos anos 80 e, desde o princípio, o nome de Sônia Guedes esteve presente como referência para todos nós. Ela e outros pioneiros foram os responsáveis por elevar os padrões artísticos da região. Se hoje podemos contar com escolas de formação musical, teatral e de artes visuais, muito se deve ao empenho daquelas pessoas que, desde os idos de 1950, buscaram estudo, aperfeiçoamento e desenvolvimento na capital e lutaram por trazêlos às cidades periféricas. 

 

Para a compreensão desses fatos e a realização deste perfil contei com o auxílio de dois livros de José Armando Pereira da Silva, pesquisador da arte e da cultura do ABC: Memórias da Cidade III e A Cena Brasileira em Santo André. Neles, o autor traça um panorama do teatro na cidade, o que permitiu também o estudo do contexto de alguns trabalhos de Sônia Guedes.

 

Ela nos convida agora a tomar um chá em sua companhia. Coloca generosamente diante de nós uma gama de sabores e perfumes, por vezes contrastantes, como o são delicadeza e força, paixão e sossego, brisa e furacão. Convida-nos a compartilhar com ela suas lembranças e inquietações mais profundas, traçando conosco, a quatro mãos, os versos mais puros da poesia da vida.

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