Bravíssimo | Renato Borghi por Élcio Nogueira Seixas

Publicado em: 06/11/2014

Introdução do livro “Renato Borghi em revista”, de Élcio Nogueira Seixas, para a Coleção Aplauso da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (para ler a obra, na íntegra, clique aqui)

 

Desde o início dos anos 90, divido e multiplico a cena do mundo com Renato Borghi. O ator é uma legião, uma praça pública, uma procissão, um cabaré. Cacilda Becker, Madame Morineau, Procópio Ferreira, Dulcina de Moraes manifestaram sua presença a mim através de Borghi; presença concreta e indelével como tatuagem. Uma peça escrita pode se perpetuar por séculos; também podemos ler a respeito do trabalho de atores, diretores, grupos e seus métodos. Além disso, há muitos arquivos fotográficos e vídeos sobre teatro espalhados pela Internet. Mas há um tipo de memória que só se propaga pelo espanto da presença. Enquanto público, absorvemos nossos ícones; como atores, somos antenas que amplificam os sinais remotos desses mitos. Os sinais são olhares, gestos, malandragens, filosofias e uma sabedoria cotidiana dos bastidores. Este processo de transmissão é arcaico, exige um ser perante outro e o contato direto entre diferentes gerações.

 

Quando concebi o roteiro de Borghi em Revista para o teatro em 2004 (com a inestimável colaboração de minha amiga Luah Guimarãez), tive o cuidado de manter a fala natural e improvisada do ator. Tratava-se de um espetáculo baseado na tradição oral dos camarins. Entrevistamos o Renato até extrairmos dele aproximadamente 6 horas de narrativa sobre suas experiências no palco, nas coxias, na plateia, nas estradas. Editamos o roteiro até que a montagem ficasse com 2 horas e 45 minutos. Alguns semanários culturais me pediram uma classificação de gênero para o que havíamos criado; a única expressão que me ocorreu foi documentário cênico. E, realmente, como eu havia imaginado, a presença de Borghi dando passagem às grandes presenças de sua vida teve enorme poder de imantação sobre o público. A improvável peça obteve êxito por todo o Brasil e desfrutou uma carreira longa diante das audiências mais variadas. Um dia, Renato me pediu: Vamos dar um tempo, não suporto mais me ouvir contando essa estória toda noite. Compreendi.

 

Enquanto ainda estávamos em cartaz com Borghi em Revista, recebi o convite da Coleção Aplauso para transformar o roteiro teatral em livro. O espetáculo acontecia como um improviso pontuado por estações; temi que a transposição da linguagem falada para a escrita pudesse apagar a espontaneidade do relato. Foi, então, que percebi em mim o espanto da presença de Renato Borghi: as palavras dele eram minhas também; e, assim, como seus ancestrais se mantiveram vivos nele, a experiência dele passou a ser viva em mim. Portanto, o ritmo da fala, o timbre da voz, as esfregadas de olho tão características de Borghi devem estar impressas de alguma forma nestas páginas.

 

Aproveito esta apresentação para fazer uma breve atualização do livro: em 2006, produzimos duas peças de Shakespeare (Timão de Atenas e Macbeth). Como em trabalhos anteriores, nos cercamos de uma horda de promíscuos desgarrados e adoráveis que deixaram suas presenças carimbadas em nossa carne.

 

Em 2008, Renato Borghi completa 50 anos de teatro. Decidimos comemorar montando uma peça inédita de sua autoria: Cadela de Vison. Nela, um artista de teatro vaga com sua musa da Rádio Nacional (vivida por sua sobrinha, Luciana Borghi) pelas coxias de um palco abandonado. Não poderia haver contraponto mais irônico para uma solenidade cinquentenária. É aí que se manifestam o humor e a presença singular de Renato Borghi.

 

Gostaria também de agradecer ao Francisco Márcio de Araújo e ao próprio Renato Borghi que tanto colaboraram comigo na organização, elaboração e revisão deste livro. 

 

Por fim, revelo o apelido de infância do Renato: 

 

PRESENÇA. 

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