Bravíssimo | Paulo Hesse por Eliana Pace

Publicado em: 15/05/2014

Introdução do livro “A vida fez de mim um livro e eu não sei ler”, de Eliana Pace, para a Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial (leia a obra na íntegra)

 

 

Suponho que Paulo Hesse deva ter vivido alguns de seus melhores anos na década de 60, quando deu início à carreira de ator com a grife da Escola de Arte Dramática, um sonho que ele soube transformar em realidade e que representa, até hoje, seu embasamento e orgulho maior. A vida, até então, corria sem muitas perspectivas após uma infância repleta de tropeços mas, ao somar ao emprego de bancário sua competência na dança pop, Paulo Hesse viu abrir-se à sua frente uma porta que nunca permitiu que se fechasse por quem quer que seja, em tempo algum. Foi por não se conformar com um trabalho burocrático que passou a perambular pela TV Record à procura de uma figuração qualquer. E por ter percebido a excelência de seus passos no hully gully e no twist que concluiu que se estivesse no lugar certo, na hora exata, poderia alçar voo próprio. 

 

Acredito que Paulo seja, até hoje, um excelente dançarino, apesar de não ter tido a oportunidade de vê-lo dançar. Mas me certifiquei de outras facetas de sua rica personalidade durante o convívio da feitura deste livro que não se limitou apenas às sessões de entrevistas no meu apartamento ou no dele, mas às estreias de muitos espetáculos teatrais seguidas de jantares nos restaurantes da classe, ocasiões em que dividimos não só um bom prato e uma boa bebida mas algumas opiniões sobre o que tínhamos visto no palco.

 

Paulo Hesse é libertário, político, contestador e rebelde, como comprovam algumas narrativas de sua rica biografia. Mas é também um gentleman, daqueles que deixam as damas protegidas enquanto buscam uma vaga para estacionar o carro; um anfitrião impecável, sempre com uma mesa farta a adoçar os que chegam; um amigo leal que luta por seus pontos de vista mas que ao reconhecer seus exageros, chega com um pedido de desculpas delicado, um chocolate, uma lembrança, um carinho. Brigamos um pouco na elaboração desta sua biografia mas rimos muito desses nossos rompantes e fizemos as pazes sempre com fortíssimos abraços e juras de amizade eterna que, tenho certeza, não foram levianas e não se transformarão em poeira. Discutiremos muito mais, não há dúvida, quando eu aceitar seu convite para me juntar a seu grupo de tranca das tardes de domingo.

 

Se alguma palavra melhor definisse esse ser humano que é Paulo Hesse, eu apostaria em solidez. Porque é sólida sua formação, ainda que conturbada, como ele confessa; são sólidas suas relações com os amigos, alguns dos quais tive o prazer de conhecer quando chamada a unir-me a eles para alguns programas; é sólido o amor incondicional que exprime pela mãe, Antonia, de quem cuida com extremado carinho; são sólidos o respeito e o afeto com que cerca a multifamília que construiu, feita de madrastas e meio-irmãos.

 

Paulo Hesse tem um currículo rico. Trabalhou com alguns dos maiores diretores da atualidade – Antunes Filho, Flavio Rangel, Osmar Rodrigues Cruz, Bibi Ferreira – e confessa, sem pudor, ter aprendido um pouco com cada um. Atuou em obras dos mais respeitados dramaturgos – Sófocles, Shakespeare, Ibsen, Beckett – que consolidaram sua formação. Fez novelas de sucesso – O Machão, As Gaivotas, Selva de Pedra, Éramos Seis, O Cravo e a Rosa – defendendo com garra os papéis que lhe foram oferecidos. E teve um caso de amor muito bem resolvido e sem preconceitos com o cinema. Hoje, pode dar-se ao luxo de não mais fazer concessões e selecionar onde, como e com quem quer trabalhar. 

 

Durante nosso convívio, Paulinho, como carinhosamente também passei a chamá-lo, me disse uma frase linda que tomo a liberdade de transcrever nesta introdução que assino, e que resume bem quem é Paulo Hesse ou Paulo César Boeta: Não preciso morrer sendo considerado o melhor ator que passou por aqui, o melhor filho, o melhor amigo, mas como o melhor ser humano que eu consegui ser. 

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