Bravíssimo | Paulo Betti por Teté Ribeiro

Publicado em: 22/05/2014

Introdução do livro “Na carreira de um sonhador”, de Teté Ribeiro, para a Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial (leia a obra na íntegra)

 

Conheço o Paulo Betti há 20 anos. Foi em 1984, quando a peça Feliz Ano Velho estreou no Centro Cultural São Paulo, muito perto da casa dos meus pais. Eu e minha turma inseparável resolvemos assistir no primeiro dia. E no segundo. E no terceiro. E no quarto… A turma, no caso, era formada por mim, minha irmã, Ana, e nossos melhores amigos do começo da adolescência, o Dênis e a Paula (o Dênis é meu melhor amigo até hoje; a Paula ganhou uma meia dúzia de concorrentes; e irmã é irmã).

 

Assistimos um monte de vezes à peça, que depois mudou de teatro e foi para o Auditório Augusta (onde a hoje VJ da MTV e cineasta Marina Person ficava muitas vezes na bilheteria – sua mãe era a dona do teatro). O Feliz Ano Velho fez nossa simpatia pelo teatro virar paixão. Aqueles seis atores – Marcos Frota, Marcos Kaloy, Adilson Barros, Denise Del Vecchio, Cristiane Rando e Lília Cabral – nos fizeram rir, chorar e muitas vezes dar a fala baixinho junto com eles.

 

Nós vimos tantas, mas tantas vezes a peça que decoramos todo o texto do Alcides Nogueira. E as músicas que a Tunica escolheu, assim como as composições inéditas da peça.

 

E o Paulo Betti era o diretor, que ia ao teatro e nos deixava morrendo de vergonha. Ele sempre assistia da última fileira, depois reunia os atores e dava dicas de como fazer uma cena ser mais engraçada, como um gesto poderia dar a intenção exata de uma fala e outras coisas assim.

 

Depois de um tempo, ele nos conheceu melhor e gostou de nós, aí perdemos a vergonha e ficávamos próximos dos atores vendo-o dirigi-los.

 

Ficávamos maravilhados com aquilo, era uma aula, um curso avançado de direção e de interpretação. Paulo Betti nos ensinou como um segundo a mais pode destruir uma piada, assim como pode fazer uma coisa sem importância ter a maior graça do mundo. Paulo Betti sabe essas coisas, parece que entende o que cada uma das pessoas da plateia vai sentir quando uma determinada cena for apresentada.

 

E ele nos incentivava a ver outros espetáculos, a conhecer outros atores, outros diretores, outras companhias de teatro. E muitas vezes até arranjava convites para a gente – um bando de adolescentes duros, mas que tinha conquistado o coração do Marinho, o produtor de Feliz Ano Velho, que nos deixava entrar de graça no teatro.

 

Nossa paixão pelo teatro era tão grande que eu achei, por um momento, que queria ser atriz. Logo eu, a mais jeca da turma, que morro de medo de falar em público, resolvi fazer um teste com o Antunes Filho. Eu e o Dênis escolhemos uma cena, ensaiamos e – milagre – passei no teste. Eu adorava aquela turma do teatro do Antunes, era um povo divertido, engraçado, meio hipongo. Só não gostava quando tinha de atuar, ainda mais na frente dos outros.

 

Meus pais também ficavam preocupados, já que os ensaios começavam às 19h30 e só acabavam às 23 horas – eu ia para a casa de metrô, aos 14 anos, com a mochila agarrada no peito de medo de assalto. Uma noite, eles foram assistir à peça Com a Pulga Atrás da Orelha, em que atuava a Eliane Giardini (nós já tínhamos visto e recomendamos para os dois).

 

No intervalo, encontraram o Paulo Betti no foyer do Procópio Ferreira e se apresentaram a ele.

 

Os três ficaram conversando horas, meus pais nem entraram para ver o segundo ato. No dia seguinte, o Antunes me dispensou. Eu nunca soube exatamente o que tinha acontecido, nem se o encontro da noite anterior tinha a ver com o fato de ele não me querer mais na companhia.

 

Até que, no começo do ano passado, quando reencontrei o Paulo Betti via Marcelo Paiva (que na época do Feliz Ano Velho não ia nada com a cara dos quatro pirralhos que não saíam da plateia da peça baseada no livro dele, mas depois acabou ficando nosso amigo), ele confessou que tinha tudo a ver com o fato de o Antunes ter me botado para correr. Ele disse para os meus pais, que já estavam de cabelo em pé: “Vocês tem de ir lá e dizer para o Antunes que tem gente de olho nessa menina”. Os dois nunca confessaram, mas eu tenho certeza de que eles não foram do teatro direto para casa naquela noite.

 

E que alívio! Não nasci para ser atriz, definitivamente. O lugar em que eu amo estar é na plateia.

 

Por isso, acho que essa biografia é quase como uma homenagem ao Paulo Betti. Só não sei se uma homenagem como esta conta, afinal eu aproveitei o gancho de fazer esse livro para saber de todos os bastidores da peça que mudou um pouco a minha vida. Para melhor, claro.

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